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DUETO DE EROS



  *Adaptado pelos professores Gustavo Aragão Cardoso e Tânia Meneses (a partir dos poemas da advogada e Imortal da Academia Sergipana de Letras, Luzia Maria Nascimento).Esta peça foi encenada no Auditório da Biblioteca Pública Epiphânio Dória, em Aracaju, durante a sessão solene da posse de Luzia Nascimento.


     (Na transparência humana da manhã, as árvores estavam paradas. Ouvia-se   apenas o sussurrar da brisa, o canto dos pássaros, os risos das crianças. Tudo isso enchia o espaço. Reinava luz. Reinava alegria, o desejo de viver, de ser feliz, de ser bom.O dia despontava através de inúmeros arco-íris produzidos pelo sol nascente. Na bruma espessa chegavam cantos, e chamados da terra, ecos de um mundo desconhecido. Eis que silhueta transitava contra a variedade de cores cintilantes que perscrutavam o horizonte. Fitei, fiquei extasiado diante de tanta beleza, de tanta magnitude).


─ O pensamento fluía lentamente trazendo uma sensação de paz. Depois, um medo gelado e brusco com a repentina aparição de um abismo a meus pés.Como que sacudida por arrepios da febre que me deixava quebrada, vinha sem ter consciência.Era como um deserto que acabara de atravessar. Olhava as mãos. Eram finais e longas, minhas unhas bem polidas muitos homens as haviam beijado sem adivinhar, entretanto, o vigor que elas ocultam e a firmeza que elas possuem.


─ Na alegria daquela manhã o coração e o espírito estavam desordenados. Uma sensibilidade à flor da pele, as lágrimas próximas ao riso.


(Perturbada com uma palavra. Alegre com outra. A incerteza, a perplexidade, aquela opressão, sem nome, sem objeto invadindo-a. Como ao longe as nuvens, amontoadas acima dos vales, começavam insidiosamente a se avolumar e a cobrir um céu puro. Tudo fora rápido demais. Agora tudo ia lento demais, fulgurante demais. A alegria daquela manhã em que lhe tomara a mão, dizendo: Eu a amo mais que a vida).


─ Só o amor liberta o homem. Só se pode dar aquilo que se tem. O homem só se realiza pelo amor e pela liberdade.


─ Se eu pudesse arrancar o coração do meu peito, não haveria dor, não haveria sonhos, nem tristeza, nem solidão. Esses sonhos são meus e eu os desconhecia. Se eu pudesse arrancar o coração do meu peito, transformaria a dor em alegria, a tristeza em suave saudade. E a solidão em lembranças. E só transplantaria a felicidade.



─ Hoje eu saúdo com entusiasmo as primeiras nuvens surgindo no horizonte, anunciando as chuvas que vão chegar. Do mesmo modo louvo os raios do sol, a espontaneidade das flores, a serenidade dos campos, a música dos vales, a brandura dos ventos, a relva que cresce, o ar que respiro. Deus não fez o mundo vil ou cheio de maldade, Ele fez um mundo cheio de bondade, cheio de vida, cheio de paz e amor.



─ Eu sonhava... instalava-me em imagens, comprazia-me tão bem nelas. Depois, encontrava dificuldades em me recolocar numa realidade,  enfrentá-la. E, com freqüência, decepcionada, começava a imaginar que, por trás dessas massas de árvores intermináveis, há uma hostilidade indefinida. Vou me desgastar por antecipação. Melhor esperar e não pensar. Oh, este vermelho!... É possível sonhar com esplendores assim? Transporto-me a um sentimento de admiração, mergulho num deleite quase sobrenatural, farto-me com a abundância de cores onde a luz e a sombra rivalizam-se. O vermelho, o amarelo e o rosa chamejam contra o fundo bronzeado da vegetação. Emaranhado de espinhos pretos e cor de ferrugem. De onde, exala um hálito tépido, com odor de terra molhada. Violenta demais, exaustiva demais, a alegria das noites em que meu corpo, ressuscitado, reencontrava o impulso do desejo.



─ Quem penetra a rispidez adulta do sertão selvático conhece de perto desolação e morte. Nessas terras calcinadas pelo sol dos trópicos o homem luta sem trégua, sem desfalecimento. Nas terras queimadas do nordeste é preciso ter alma de gigante. O homem torna-se rígido e egoísta, luta pela vida. Terra de sol, quentura de terra. O coração não esfria. É chama no coração.


─ O amor é um dom precioso. Um dom para se repartir com aquele que cruza o nosso caminho. A gente acha tudo bonito, há beleza dentro do coração. Isso porque se ama, e se ama pela simples alegria de poder amar.


─ Hoje estou contente. Você é responsável por eu estar aqui hoje, subindo e descendo montanhas. Você me faz feliz. Eu gosto e preciso que você fique ao meu lado para poder enxergar, o verdadeiro brilho das coisas. Você me faz feliz. E a felicidade é algo que se multiplica quando se divide porque, só quem é feliz pode espalhar felicidade.


─ Nada nos separará. Não há deserto, não há precipício, não há floresta, não há oceano que eu não atravesse contigo. Cada dia que vivemos juntos nos dá a certeza da eternidade, da perenidade do nosso amor. Ele nos envelheceu antes da hora, mas nos tornou jovem quando a juventude passou.


─ Os corações falavam entre si, em silêncio. Depois disseram tudo, compartilharam grandes segredos. Sonhos e aventuras. Usaram uma só voz, fizeram juras de amor, corpos, almas, calor, vibraram com o emaranhado de armadilhas, ocultaram grandes mistérios.


─ O sim e o não podem mudar toda a existência. Coisas podiam ter acontecido e terminaram não acontecendo. Por mim? Por você? Por medo? Não! Quem ama vence todo o mundo, não tem medo de perder nada. Foi a mão do destino que nos fez assim, que nos fez sonhar, que nos fez sofrer, que nos fez viver o instante mágico de um dia que passou.


─ Suspiros ao luar, abraços prolongados, lágrimas correndo pelas mãos, fibra da carne, lágrimas de ternura, frio da noite, suspiros nos lábios, olhos quase fechados. Silêncio, sussurros, gemidos, palavras caídas nas almas ecoando múltiplas vibrações.


(Era uma sombra, uma lembrança amarga e torturante recordação. Mas, eis que surge uma luz a crepitar em chama ardente, e, ao mesmo tempo, igual a uma tempestade. Que cai sobre a vida, e a revolve, arranca as vontades, arrebatando o coração inteiro. Nada podia separá-los naquele instante, nada! Enquanto permanecesse em suas almas uma necessidade perene, de se unir de se amar).



─ Assim como as flores têm a sua história, nós temos a nossa. Plantamos as mesmas sementes. Colhemos flores perfumadas. Saboreamos saborosas frutas. A estrada que você percorreu eu também percorri. Hoje você é o sol que me aquece, o ar que respiro, enfim você é para mim mais que a minha própria vida!...
TÂNIAMENESES
Enviado por TÂNIAMENESES em 25/11/2007
Reeditado em 25/11/2007
Código do texto: T752311
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
TÂNIAMENESES
Aracaju - Sergipe - Brasil, 69 anos
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TÂNIAMENESES