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Safira

É de repente... Como já disse Fernando Sabino: “Não mais do que de repente” que algumas coisas na vida acontecem. E aqueles ataques doidos de saudade é uma delas.
Não  tem como explicar, de forma alguma. Nem pelas palavras, gestos, desenhos ou gritos, mas se sente-se saudade, é porque foi bom, e disso eu não tenho dúvidas.
Dos doze anos e alguns dias que passamos juntos, tivemos muitos momentos inesquecíveis. Na verdade a vida toda, os anos vão se passar, ela vai ser só lembrança, e as coisas vão continuar sendo inesquecíveis quando se tratarem dela.
Não me sinto culpado, tampouco me sinto libertador, mas sinto apenas que fiz o certo.  O mais surpreendente e que me faz fundamentar algumas coisas que acredito, foi um sonho que tive logo na quinta feira pela manhã, o dia sequencial ao que ela partiu.
No sonho, que tive  dormindo sofá da rádio onde trabalho, uma menina de branco subiu a escada, depois um home muito magro, e depois Safira. Eu senti o cheiro do pelo dela limpo, e senti em minha mão, a sensação dos pelos dela nas minhas mãos e a certeza de que ela estava bem.
O mais interessante é que diversas vezes no sonho eu me perguntei se aquilo não era mesmo realidade, pois eu senti tudo em todos os segundos. O ar passando através do meu corpo, o cheiro, as cores, detalhes dos rostos que vi, do que fazia a composição do ambiente, a intensidade da luz, meu coração batendo, minha respiração acontecendo, tudo... Como nunca ocorreu em nenhum outro sonho.
No fim das contas só queria dizer que tem um vazio do maior tamanho que podia ter. Quando chego em casa, eu fico esperando alguém vir me receber com o rabo abanando, e demora até a ficha cair de que ninguém vai fazer isso.
Quando acordo e vou logo para a cozinha, bebo minha água e olho pela janela, sei que vai ter alguém tentando me ver, me dar seu bom dia... Mas na verdade não tem ninguém, até mesmo quando vou abrir a porta que dá acesso a área, quero ver a sombra que se projetava embaixo da porta, ela a me esperar, mas isso não acontece mais.
Não acordo mais de madrugada com o seu latido por qualquer motivo, e nem motivo também tenho mais quando passo na seção pet do supermercado. Quando olho todas as rações, os brinquedinhos que podiam ser dela, os petiscos e bifinhos, sinto como se estivesse escolhendo um par de luvas, e daí lembro que não tenho mãos.
Toda vez que vou a área, espero que ela venha me pedir carinho, ou simplesmente me cheirar para ver como estou, mas fico sempre esperando. Então eu olho em cada canto do lugar, para ver onde ela está deitada, mas não encontro mais... Só a vejo em minha mente, e sempre a vejo.
Quando durmo até mais tarde, espero ela vir até meu quarto me cheirar, me acordar e eu brincar com meus pés com ela, mas não acontece mais isso.
Cada vez que chego em casa e toco a campainha, tem algo que me rasga inteiro porque ela não late mais, como fazia cada vez que isso acontecia.
Agora eu tenho uma coleira e muito a contar, uma linda coleira vermelha que ela usava todos os dias, nunca para passear, pois nunca soube fazer isso, era colocar a corrente e ela não se movia do lugar. Já o banho era uma maravilha, bastava pegar a toalha e ela ia correndo para seu lugar. Esperava a comida, pedia com sofreguidão todo dia após o almoço, e sem dúvida, nos conquistando, nos mostrando ainda mais o que era o amor, ela fez e sempre será parte de nossa família, parte de mim mesmo para sempre. Do seu jeito rude, direto, diferente, de topete branco desde nascença e aquela camada de pelos arrepiados que não tinha jeito.
Nos pertencemos e só tenho a agradecer por me fazer ver que o mundo vale muito a pena, e não é pelos seres humanos.  Minha alma tem um ponto de luz que é seu lugar, assim como no coração. Te amo “Seifa”, como costumava chamar, e agora a saudade se juntou a memória e com este mesmo amor, elas e acompanharão para o resto da vida... E agora eu comecei a chorar demais, embaçar muito os olhos e é bom parar de escrever por enquanto. Mas eu sei que meus olhos sempre me trairão desta forma quando se tratar de você, e onde estiveres nos pertenceremos.
Douglas Tedesco
Enviado por Douglas Tedesco em 20/03/2015
Reeditado em 24/03/2015
Código do texto: T5177154
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Douglas Tedesco
Tijucas - Santa Catarina - Brasil
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Douglas Tedesco