MINICONTOS DE JOSÉ EDUARDO DEGRAZIA

4 MINICONTOS

4.1 PARTICIPAÇÃO EM ANTOLOGIAS

Alguns leitores e escritores identificam Degrazia como poeta, mas ele publicou narrativas desde o início. Uma das provas é o conto “A Professora de Música”, veiculado em Corpo Presente, antologia organizada pelo Grupo Vereda de Edições Cooperativas e impressa em 1979.

O texto se inicia com período funcionando como espécie de lead jornalístico, à maneira de Sergio Faraco. Trata de rapaz que não tem ritmo para música e, assim, procura docente. É conto sensível com apelo humano, outra característica de Faraco. O jovem estudante do interior se torna o único aluno da senhorita F., que se afeiçoa por ele, lhe dá fortificante, chá e se nega a receber o dinheiro das aulas após algum tempo de encontros. O jovem se forma e vai se despedir, o que mexe com os sentimentos dela.

Na antologia de Porto Alegre: Curvas e Prazeres, organizada por Volnyr Santos e publicada pela WS Editor em 2002, o envolvimento amoroso serve de tema novamente. Em “Claro, Clara”, reproduz a história de motoqueiro que entrega pizza de quatro queijos e é convencido pela senhora a entrar no apartamento, beber duas cervejas, aceitar pizza e tomar banho, com ela o ensaboando. O não-dito está na entrelinha.

4.2 O ATLETA RECORDISTA (1996)

Com O Atleta Recordista, Degrazia se torna finalista do Prêmio Nestlé de Literatura, um dos mais concorridos do país. Isso comprova que alcançou maestria no gênero na primeira tentativa, quem sabe porque utilizou a síntese poética no preparo dos minicontos.

Segundo a escritora e crítica literária argentina Susana Boéchat, “Degrazia lleva la historia y sus personajes hasta el borde de las situaciones”, ou seja, explora o limite humano no dia a dia numa Metrópole como Porto Alegre. “En O Atleta Recordista, hombres y mujeres representan toda la sociedad”, explica. Para ela, trata-se de “libro premonitorio de sucesivos éxitos literarios posteriores, brote novísimo y potente en un jardín interior del autor.”

A ensaísta argentina é o segundo estudioso (Luis Augusto Fisher foi o primeiro) a enfatizar que Degrazia não moraliza, não fecha as histórias com ensinamentos, o que contribui para a qualificação literária. “Impacta al lector que es en definitivo el que juzgará y hará sus proprias conclusiones” , enfatiza.

Segundo Francisco Bernardi, “a exemplo de Dalton Trevisan (...) Degrazia termina seus contos abruptamente, parecendo abandonar as personagens à própria sorte” . Isso está longe de ser verdade. O que o premiado minicontista faz é construir desfechos abertos, empregando técnica da poesia. O objetivo é ampliar o significado e convidar o leitor para a aventura, pois este último tem papel ativo na interpretação, ao contrário do que se evidencia em Dalton Trevisan, que parece mais interessado em chocar com enredos de sexo e vulgaridade entre os seus eternos personagens João e Maria.

Em “O Atleta Recordista” , Degrazia parece questionar a insatisfação contemporânea. As pessoas sempre querem o carro mais atual, o celular com versão mais sofisticada, a bolsinha ou blusinha mais cara e desperdiçam a vida buscando. Segundo Susana Boéchat, nesse miniconto, Degrazia “hace el atleta competir consigo mismo (...) representa al hombre universal que corre para su cielo, para su felicidad, compitiendo con sus proprias fuerzas” . O ensaísta destaca o fato de o autor trabalhar o tema da alteridade, que, segundo ela, “reaparecerá con más ímpetu, mucho después, en la novela O Reino de Macambira” . Interessada em refletir sobre os temas do autor, recorda que o assunto “corrida”, quem sabe existencial, reaparece em outros minicontos. “Puede implicar ir pronto hacia la meta de la libertad y la fantasia, como en ‘A vida é una correria” . Degrazia desvenda as facetas do contemporâneo e o que diz respeito ao homem. Em “A vida é uma correria” , comenta outro problema atual: a pressa. Algumas pessoas vivem assim até nos dias de folga, escravos do cotidiano intenso.

Em “Cidade Desconhecida” , fala do automatismo, pessoas que fazem o mesmo trajeto e, quando mudam, se veem perdidos.

“Vida Natural” traz desfecho surpreendente e obscuro. Homem vai para comunidade interiorana e fica cego ao ver o Sol. A hermenêutica encontraria campo para infinitas interpretações. Por que cego? Por que se tornaria intransigente e entenderia a existência apenas de uma forma?

“Tour de Force” escorre ironia contra a fé católica. O Papa vem ao Brasil – embora não seja referido; dá abaninhos e retorna ao palácio, enquanto cegos e paralíticos – talvez esperançosos – voltam para casa, visto que o Pontífice não fora milagroso, e a crença não ajudara em nada.

“Perimetral” discorre sobre a banalidade da violência urbana – homem que mata dois no trânsito, por causa de acidente, e se preocupa com a sujeira de sangue no carro. Sobre o aludido miniconto, Susana Boéchat ressalta a “frialdad del ser humano que mata” e também registra a impunidade para o assassino. Esse é novo tema abordado por Degrazia que, muitas vezes, se aproxima de outros assuntos, mas na entrelinha. Sabe-se que uma das características da Justiça brasileira é o permissivismo. Pessoas matam, estupram, roubam; chegam a pegar 200 anos de cadeia, mas cumprem seis anos de reclusão. A Justiça brasileira acha que recupera os condenados. Por isso investe na reabilitação social deles, que se aproveitam para cometer mais crimes e fugir, quando em liberdade provisória.

Outro problema social que já aconteceu com centenas é quando alguém sofre acidente. Ao ver a aproximação de pessoas, acha que será ajudado, mas os curiosos desejar saquear.

O sangue que pinga das paredes, em “O sangue nosso de cada dia” , parece contar a história de locais repletos de crimes e angústia. A crítica Susana Boéchat também concorda com o aspecto alegórico do miniconto .

Como sucedia com escritores da primeira geração modernista, até matéria de jornal serve de inspiração. Degrazia deve ter sido o primeiro no estado gaúcho a utilizá-las na produção de minicontos, uma vez que fazia isso desde o início dos anos de 1980. “Mata-Pai” talvez não tenha se baseado em notícia da imprensa, mas tal situação já aconteceu centenas de vezes e foi registrada por jornalistas. A respeito desse miniconto, Susana Boéchat diz que “a veces el cuadro es tan horroroso que estremece” . Além disso, ela afirma que “el ser humano, dentro de la sociedad actual, se debate, lucha, pero puede caer él también en la locura” .

“Filme de Horror” conta a história de homem que usava máscara e chegou o dia que não desgrudou mais. As pessoas de certa forma vestem disfarces em muitas ocasiões. Com a família, é um; no trabalho, outro; com os amigos, um terceiro. Aristóteles e Demócrito já ensinaram que é insuperável a força do hábito. Se nos acostumamos a agir de um jeito, se tornará rotina e seremos assim.

É comum a pessoa enfrentar problemas e, no primeiro contratempo com outra pessoa, descarregar nela. Os jornais noticiam assassinatos por motivos fúteis. O estresse tomou conta do dia a dia. Mortes por pequenos motivos estimularam a produção do autor.

Vários escritores se importaram com o tema “aposentadoria”. Mario Benedetti e Josué Montello foram dois deles. Em apenas um miniconto de 12 linhas, Degrazia reproduz, no subtexto, o que os referidos autores levaram mais de cem páginas cada. A síntese poética e a riqueza de significação se encontram no trabalho desse escritor.

“O Velho Professor” reproduz a ideia clássica de Sócrates que sempre dizia que o único que sabia é que nada sabia. O maior dos filósofos antigos pensava que, quanto mais estudasse, mais perceberia a quantidade de conteúdos com os quais ainda não tinha entrado em contato. Logo, quanto mais se estuda, mais se nota o que não se sabe. Aqueles que não estudam ou leem pouco talvez dominem 100% de quase nada e, por isso, às vezes se mostram arrogantes.

Em datas comemorativas ou em ocasiões importantes, os brasileiros costumam brincar com explosivos. Muitos já perderam as mãos ou deceparam os dedos, e outros detestam a barulheira, mas quem usa explosivos não pensa que a desgraça acontecerá consigo e não respeita o sossego dos outros. Tudo isso está no não-dito de “Mania de Explosivos” .

Para Susana Boéchat, o tema do trabalho, que aliena e ocupa a existência e a morte como exteriorização ou salvação para o suicida, se encontra em minicontos magistrais . Ela também ressalta que a “burocracia”, sobretudo estatal, e seus males atraem a ironia de Degrazia . Esse foi um dos principais recursos de estilo de Machado de Assis. É mais uma aproximação entre o mestre brasileiro e o autor de O Atleta Recordista.

Em “O Homem de Respeito” , mostra os religiosos ensinando sobre a morte do justo e do pecador, este enfrenta demônios; aquele merece ajuda. Provavelmente o contista arrolou esses fatos para escancarar o ridículo da situação. Ao contrário do que escreveu a crítica argentina, Degrazia satiriza a educação religiosa das crianças, porque, em vários momentos, mostra descrença com a religião . Talvez nem quisesse ensino religioso para os meninos e meninas. Não parece homem de fé, muito pelo contrário, e isso fica evidente na sua literatura. Na opinião da escritora argentina, “este minicuento es una hipérbole al servicio de la crítica mordaz pero subyacente del autor” . Esse pensamento faz sentido, porque Degrazia critica o que acha equivocado na sociedade e no comportamento humano, mas não o faz de maneira explícita; prefere a entrelinha, como o velho Machado de Assis.

Em 1978, no Concurso Literário Apesul, alguém foi premiado com o texto “atiradores de facas”. Não é assunto cotidiano. Por isso admira-se volta e meia algum escritor se interessar por ele. A ensaísta argentina classificou o miniconto de “magistral, donde se une lo sucinto e lo profundo” . Como explica Hans-George Gadamer, em Verdade e Método, as pessoas entendem conforme suas experiências. A profundidade ressaltada por Susana Boéchat se deve à perícia do autor em expandir o significado, mas pode ser ampliada pelo leitor-poeta expert em interpretar o não-dito, a figura de linguagem, as artimanhas do texto.

“A arte é longa e a vida é breve” aborda a competitividade e a inveja entre literatos. Sempre que podem, por intermédio da imprensa ou pelas costas, fazem elogios a respeito do trabalho do outro. Pascal já escreveu que, se as pessoas soubessem o que um fala do outro, não existiria amizade. No relato, as viúvas se desfazem das bibliotecas, dando a entender o que a literatura dos maridos representava.

O escritor é por natureza sensível e, portanto, é normal que sofra com erro do texto impresso, crítica desabonadora, afora dificuldade para publicar e pouco espaço na imprensa para divulgação. Tudo isso e pouco mais está descrito em “A literatura renasce das cinzas” .

“A Obra Final” faz brincadeira a respeito de críticos literários de mente fechada que procuram enquadrar os escritores nesta ou naquela teoria. Não existem muitos críticos na imprensa, mas os poucos que há não estão preparados, como definia Afrânio Coutinho. E talvez apenas alguns na história da literatura nacional tiveram essa condição: o próprio Afrânio Coutinho, além de Tristão de Athayde, Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Antônio Cândido, Haroldo de Campos, Luís Augusto Fisher, Regina Zilberman, Wilson Martins e os antigos José Veríssimo, Araripe Júnior e Sílvio Romero, além de Machado de Assis.

Até a doença da cleptomania é motivo de miniconto do autor que procura refletir e transformar em palavra a quase infinidade de problemas contemporâneos.

As malas-diretas e os cartões de visita, embora não sejam a mesma coisa, infestam os bolsos, as caixas de correspondência e até o parabrisa dos carros, em igual proporção que os spams e as mensagenzinhas entopem os e-mails. Os descontentes jogam tudo fora. É o que trata “O homem que atira ao rio cartões de visita” .

O antigo tema do “Gaúcho a Pé” – abordado por Cyro Martins – é revisto por Degrazia, mas na entrelinha.

“O que restara da terra de sua tribo, os posseiros comeram” (oração do conto “Os guerreiros também choram” ) – esse tipo de pontuação – salvo ignorância – foi muito usado tão só por Machado de Assis. Colocava essa vírgula, defendida como acertada por José Fernando Miranda, mas qual é a oração principal? “Os posseiros comeram o”. Se colocar essa vírgula, estaria separando o verbo “comeram” do objeto direto “o”. Portanto não seria correto, mas, visto que o mestre usou, a autoridade passa a contar. Até num erro José Eduardo Degrazia acompanha o Bruxo do Cosme Velho.

“O Sacrifício de João Simeão” lembra que pouca gente dá importância e respeita os heróis.

“A Solidão de Maria Solidônia” parece reescrever Enquanto a noite não chega, de Josué Guimarães. Maria tenta reverter a situação de abandono, mas a cidade termina com igual destino da novela do autor de Tempo de Solidão, ou seja, deserta.

“Os mortos não terão sepultura” recria Incidente em Antares, de Erico Veríssimo. Neste, os mortos saíram do caixão antes de ser enterrados e se dirigiram à cidade para revelar as falcatruas das pessoas. No miniconto, o coveiro faz greve por não receber salários, e os mortos não são enterrados. Mais que isso: deixam de morrer, talvez em respeito ao protesto.

Miniconto sem título relata a história de pai deputado do PTB antigo, homem que desaparece em 1965, ou seja, é possivelmente morto pela ditadura. Já o filho se elege pela situação em 1982, isto é, pelo partido cujos membros foram responsáveis pelo assassinato do pai. O oportunismo passa por cima de qualquer valor .

Sobre O Atleta Recordista, Laury Maciel, na orelha do livro, garante que José Eduardo Degrazia mergulha na alma deste homem fin-de-siècle. A respeito da literariedade de Degrazia, o autor de Noites no Sobrado comenta: “Embora não existam respostas, o escritor não desiste de procurá-las, imaginando encontrá-las nos desvãos dos signos poéticos”.

4.3 A ORELHA DO BUGRE (1998)

No prefácio, Patrícia Bins afirma que o universo trágico retratado por Degrazia nos leva a meditar sobre o agravamento da crise em que estamos inseridos. A escritora também comenta que a ousadia dos minicontos faz os leitores lerem e relerem.

Susana Boéchat garante ter encontrado mais humor nesse livro que nos demais . Talvez se trate da comicidade britânica cultivada por Machado de Assis, até porque não possibilita no leitor a gargalhada que a maioria dos programas de tevê, filmes e novelas brasileiros pensam despertar no espectador, mas despertam o sorriso talvez irônico.

A ensaísta argentina afirma que A Orelha do Bugre é joia da narrativa contemporânea . E ela tem razão, pois, se literatura é o investimento no não-dito, captando as sensações e a multiplicidade da problemática social de sua época, como defendia Ezra Pound, José Eduardo Degrazia cumpre todos os itens. “En esta obra, está presente el escritor, el hombre de hoy, cáustico e desolado ante un posmodernismo que lo agobia” , define a escritora argentina.

Salim Miguel, na orelha da antologia, lembra que não temos a tradição do miniconto, o que já significa elogio a Degrazia, que investe em produção raramente praticada no país. Para o literato catarinense, os minicontos diferem da obra poética do autor. Se se considera que minicontos e poemas são gêneros diversos, Salim Miguel tem razão, mas, se se analisa a forma como Degrazia os compõe, aí talvez esteja equivocado. Nos dois gêneros, Degrazia busca a síntese, a riqueza e a ampliação do significado. No poema, trabalha a metáfora e o não-dito; no miniconto, não usa figuras de linguagem, mas também explora a entrelinha. Já os temas de ambos são os mesmos, ou seja, tudo que diga respeito à condição humana. Enfim, há pouca diferença entre os poemas e os minicontos de Degrazia.

Salim Miguel ressalta haver tensão implícita nos minicontos, que explodem no momento exato e envolvem o leitor atento de forma inapelável. Conforme Salim Miguel, Degrazia pouco (ou nada) está interessado em desenvolver história. “O que busca são flashes ou instantes que explodem em estilhaços”, enfatiza. Também ressalta que, como poeta, já tinha lugar consolidado na poesia contemporânea.

Degrazia ironiza ao dizer que todos os cidadãos mereceriam busto em bronze no miniconto “Os Homens Célebres” , porque são iguais perante a lei. É ironia porque se sabe que nem todos os que têm busto merecem, nem todos os que merecem têm busto. Patrícia Bins comenta que “Os Homens Célebres” satiriza as ridículas homenagens aos mortos, enquanto espanta os vivos, que acabam em abandono delirante.

“A Pasta do Poeta” conta a história de grande escritor. É irônica. Todos falam que tinha inúmeras produções originais – contos, crônicas, poemas - mas, quando morre, percebem que a famosa pasta não continha nada. Na literatura, muitos querem apenas ostentar a pose de escritor. Não se dedicam apaixonadamente. Desejam aparecer na imprensa ou na capa de uma obra. “A Pasta do Poeta”, na opinião de Patrícia Bins, é a mais comovente das curtíssimas histórias e revela a condição humana, a solidão e o vazio.

“Os Mal-Educados” conta cena do cotidiano, a tradicional falta de respeito que uns têm com os outros. Três homens conversam e riem em concerto. Esse tipo de situação se estende para todos os setores sociais, o miniconto parece ocultar. As pessoas fazem poluição sonora com veículos de som potente; residências promovem festas e barulho; a balbúrdia está em toda a parte.

“A mulher que inchava e desinchava” aborda, meio ironicamente, a complexidade feminina:

Nada entendia de mulheres. Uma mulher, duas, várias? Qual a que ele amava, a meiga, a pacífica, ou a outra, o terror personificado, blasfema, só faltando atirar-lhe o prato de comida na cara.

Porque as mulheres agem assim – e esse trecho descreve o comportamento de muitas, quem sabe a maioria – talvez nenhum homem jamais compreenda, visto que os machos são simples. A rigor, comportam-se de maneira similar, o que não acontece com elas, que são uma revolta por minuto, quando alteradas, e se alteram facilmente.

“Pijama de Bolinhas” conta a história de homem que chega em casa e não reconhece nada como seu. Às vezes, por causa dos desencontros, pessoas se afastam, e o que nos era familiar passa a não ser.

“O Vendedor de Corações” é inusitado como a maior parte da literatura de Degrazia. A personagem vende coração a quem não tem. Vivemos num mundo individualista. As pessoas pensam em si ou no máximo em parentes e amigos. A falta de respeito e consideração é generalizada.

Em “A mulher que comia rosas” , homem rejuvenesce a cada ano. O miniconto, mesmo se referindo a The Picture of Dorian Gray, retrata problema social contemporâneo, pois algumas pessoas buscam a juventude a qualquer preço. Vão às academias, se privam dos alimentos apetitosos, fazem plásticas, tomam suplementos, usam cremes, tentando retardar o inevitável.

Traços de realismo mágico e certos personagens, como homúnculos e animais, aproximam os minicontos de Degrazia dos contos de Moacyr Scliar, mas há diferenças. Enquanto este desenvolve narrativas com introdução, desenvolvimento e desfecho, aquele opta pela síntese poética. O enredo se forma na imaginação do leitor, que pode seguir caminhos diferentes para compreendê-lo. Se literatura é palavra rica em significação, como queria Pound, Degrazia trabalha mais a ampliação de significado do que Scliar.

No “Ele era doido por calhambeque” , comenta a inveja adolescente porque rapaz tinha carro, enquanto outros iam às festas a pé e somente para arranjar confusão. Inveja é sentimento quase brasileiro, chegou a dizer importante cineasta. Quanto a promover brigas em festa, trata-se de outra característica tupiniquim. Não se sabe por qual motivo, mas os brasileiros gostam de lutas, de brigas. Talvez por isso os maiores campeões de artes marciais misturadas (MMA, conhecido vulgarmente por vale-tudo) sejam brasileiros.

“A Minha Turma” recorda quando a personagem tinha 18 anos. Ouve rock e se lembra de sua época.

Literatura é a mais abrangente das artes. Fala da memória, dos amores, dos medos, derrotas, anseios, do conhecimento. Por isso Roland Barthes chegou a dizer que, se tudo for destruído, e sobrarem apenas homens e livros, nada terá sido arruinado.

Em “A Arte da Fotografia” , conta lugar-comum do jornalismo, mas que talvez o leigo não tenha conhecimento. Alguns fotógrafos permitem que acidentes aconteçam, não fazem nada para ajudar, apenas para tirar foto. Segundo Degrazia, serve também para o médico que esquece o seu paciente pensando no "belo" caso que tem em mãos.

“A Visita” revela a história de pessoa que revê amigo, mas o dono da casa não faz companhia. A pessoa nunca mais volta. Nos últimos anos, é comum alguém chegar à casa de conhecido, e todos dão atenção à Novela das Nove.

“Os vizinhos não gostam de discos” relata o caso de aviões que bombardeiam aparelho de som de vizinho. Mais uma vez, Degrazia identifica problema social. Nos últimos anos, registram-se mortes por causa de aparelho de som. Alguns põem o som para a rua, bairro e cidade ouvirem. E sempre há os que não gostam. As desavenças chegam a causar assassinatos.

“O Sistema Bancário” é analisado pelo escritor, para quem a instituição financeira dá dinheiro aos que o têm e não aos que precisam.

Em “Tempos de República” , faz apologia à liberdade, descrevendo pessoas que levam suas vidas como acham.

“A Crente” fala da bebida do marido, o verdadeiro mal na opinião do escritor, que se mostra cético a respeito dos conceitos da Igreja sobre anjos e demônios.

Em “Perfume de Mulher”, homem tímido entra em loja para comprar essência à esposa e se apaixona pela atendente. Visita-a muitas vezes para comprar. A esposa desconfia, e a vendedora sofre com ciúmes do alvo da paixão.

Inclusive os ciúmes do marido rejeitado são vistos pelo autor. “O Nariz Quebrado” informa a história de ex-marido que vai à festa para ver a ex com o namorado lutador. O ex-marido a chama de vagabunda e leva dois socos.

“O Laço da Estátua” visualiza a história de gaudério que vem à capital e é roubado no centro, onde pivetes costumam bater a carteira de distraídos.

A teimosia de algumas pessoas de não voltar atrás numa decisão aparece em “Um Homem Duro” .

Às vezes, a literatura é feita de pontos de vista diferentes. José Saramago, o único Nobel na literatura de língua portuguesa, ergueu sua obra dessa forma. Em “Politicamente Correto” , Degrazia aborda a história de homem branco que se angustia por ser branco, porque nos genes está um pouco dos que escravizaram negros, mataram judeus e massacraram índios.

“Receita Neoliberal de Emagrecimento” mostra visão socialista. Não é a primeira vez que Degrazia apresenta a ideologia e compaixão pelo desassistido. Nesse miniconto, ironicamente, relata a história de mulher que emagrece por estar desempregada, e ainda ressalta o termo “neoliberal”. Sabe-se que o neoliberalismo prega a competição pelo emprego, pela moradia, pela comida, pelo divertimento. Apenas os fortes vencem e sobrevivem. O socialismo quer tudo a todos. Não aceita a competição para o básico. Em “A Orelha do Bugre” , sobrinho deve guardar a orelha do bugre para receber a herança do tio. O miniconto é simbólico, porque, no país, muito dinheiro foi conseguido por intermédio da escravidão de índios e de negros. “Colagens” trazem minicontos de uma frase, mas é suficiente para compor O enredo na entrelinha, uma vez que se constrói na mente do leitor. Por exemplo, numa frase sintetiza a maioria dos homens e mulheres: os primeiros, porque amam o álcool; as segundas, porque se preocupam em ficar atraentes e magras: “Cena de casamento: ele bebe, e ela toma bolinhas”.

4.4 OS LEÕES SELVAGENS DE TANGANICA (2002)

Susana Boéchat comenta que Os Leões Selvagens de Tanganica a surpreendeu positivamente:

Sigue estando presente la sensibilidad social del autor, pero, en este libro, Degrazia se presenta como un pensador, un lector del mundo actual, hurgador del significado del camino o destino humano, alcanzando su prosa poética, madurez y profundidad ética.

Na opinião da crítica, “el personaje de esos minicuentos puede ser tanto el hombre genéricamente hablando o el animal; o, por qué no, ambos al mismo tiempo” . O conto – ou no caso o miniconto, gênero em que Degrazia talvez seja o precursor no Rio Grande do Sul – abrange pelo menos duas histórias, a que está na superfície e a do não-dito, embora, como explica Gadamer, cada texto pode abrir espaço a infinitas interpretações. Na opinião da ensaísta argentina, Degrazia se serve de poucas expressões e ergue estilo simples em termos de linguagem, com o intuito de estabelecer quadros ou sensações . De fato, organiza seleção vocabular culta, sem palavras eruditas ou pernósticas, não explora gírias nem jargões regionais. Assim facilita o ingresso de qualquer leitor.

Sempre fazendo comparações com autores argentinos, principalmente com o maior deles – Jorge Luis Borges – Susana Boéchat garante que “son pocos los autores en la historia de la literatura universal que pueden tejer en pocos trazos una historia. (...) Uno de los pocos que lo logró (...) fue (...) Borges” . Susana Boéchat concorda ao dizer que os relatos transmitem lirismo suave e único . Ao classificá-lo como pensador , talvez sem estar ciente, Susana Boéchat contribui para a comparação com Machado de Assis. Um dos críticos literários da época do gênio brasileiro, Araripe Júnior, também o definiu como pensador, mas o classificou de filósofo sem sistema. Luiz Antonio de Assis Brasil vê em José Eduardo Degrazia poeta de longo curso que vem construindo sólida carreira no decorrer do tempo. “Nesse périplo, só tem ganho em essencialidade verbal e largueza de temas”, enfatiza. Assis Brasil garante tratar-se de narrador exímio, o que já demonstrou em obras anteriores. “De alguma forma, Degrazia resgata a antiga vocação dos escritores brasileiros para o exercício de uma multiplicidade de gêneros”, defende. E é verdade, lembrando o maior dos escritores nacionais - Machado de Assis - foi poeta, cronista, contista, romancista, crítico teatral, crítico literário, teatrólogo e tradutor. Degrazia não fez crítica teatral, mas produziu todos os demais gêneros, além de literatura infantil.

Em Os Leões Selvagens de Tanganica, segundo Assis Brasil, “o homem estabelece um diálogo com animais (...) numa dialética na qual nem sempre sai ganhando”. Na visão de Assis Brasil, a tessitura narrativa do miniconto deve ser intensa, e essa característica é toda a sua força. Assis Brasil garante que Degrazia, nessa obra, faz completo inventário da raça humana, discutindo temas como o ridículo, temores infantis, fantasias, o nonsense cotidiano.

“Os Leões Selvagens de Tanganica” tem aspectos da fábula. As histórias sobre animais não chegam a ensinar lições de moral, mas contam histórias repletas de significado, como o maior que destrói o menor. Se analisarmos a sociedade em qualquer área, perceberemos que essa é a realidade universal. Os mais fortes dificilmente respeitam os mais fracos, como sempre aconteceu.

De certa forma, “Lagartas ao Infinito” reproduz a ideia do premiado curtametragem “Ilha das Flores”, de Jorge Furtado. Trata-se da aproximação entre literatura e cinema, que enriquece a arte das letras, o que sempre é ressaltado pela professora, poeta e ensaísta Elaine Lauck, autora de Veredas Literárias, com prefácio de Luiz Antônio de Assis Brasil. “A Mosca” aborda alcoolista que precisa da bebida e da companhia das pessoas ou até das moscas. Pode sugerir a pergunta por que se bebe e por que se necessita tanto da presença do outro. O ser humano não sabe amar a solidão como queria Schopenhauer? O filósofo achava o homem desprezível. Por isso defendia que a primeira coisa que se deveria aprender era amar a solidão. Sobre a qualidade do texto, Degrazia apresenta as características do grande escritor: frases curtas e ritmo adequado à literatura contemporânea, com intercalação de adjuntos adverbiais e orações subordinadas, o que promove a quebra de ritmo e facilita a leitura. A seleção vocabular é precisa, com palavras escolhidas para cada situação. Não se notam vocábulos a mais ou a menos. É como se o texto fosse limado até ficar sem arestas. Análise muito parecida faz a crítica e poeta argentina Susana Boéchat: “La concisión, la brevedad, el uso de sustantivos y verbos, sin asfixiar la prosa con adjetivos irrelevantes, son algunas características y cualidades de los minicuentos de Degrazia” .

“As Traças” representa homem que começa a gostar de comer papel igual às traças. “As Borboletas” reproduz a história de homem apaixonado por esses animais e perde a mulher por esse motivo. Na vida, tal situação acontece dia a dia. Em Gravataí, homem de 20 anos perdeu a esposa, uma deusa, porque passava 48h no final de semana se distraindo com jogos de computador. Literatura relata a vida. Em “A Bruxa” , borboleta ou bruxa entra no quarto de moribundo e o incomoda. Foi como presságio. Alguns dão certo; outros, nem tanto. Muitos acreditam em coisas do além. “A Mariposa” trata de prostituta que sai com homem pesado que a esmaga. A mulher, igual à mariposa, mexe as asas num estremecimento. Como tradicionalmente acontece, a história abriga dois enredos, a da mariposa e a da moça, destruída física e talvez socialmente, embora nem todas as profissionais do sexo se vejam inferiorizadas.

O miniconto pode carregar dois argumentos, mas, acima de tudo, deve ser impactante, fazer o leitor refletir, como “Homem-Caracol” , que, depois do trabalho, se protege da sociedade. O texto compara os homens à condição de bicho. O Homem-Caracol arquiteta casa portátil às costas e, a cada situação de estresse, se esconde nela. Há muitos que agem assim: não querem enfrentar a vida. “O Homem-Lesma” odeia o contato humano. Sempre que se aproximam, se gruda à parede como lesma. Mata homens-lesma, mas não se diverte porque são iguais a si. A sociedade é bravia e desperta os mais variados comportamentos no ser humano, seres complexos que respondem diferentemente em cada situação. “O Dia do Gafanhoto” lembra a história de operários que sofrem acidente na empresa. Muitos dos minicontos desse livro mostram preocupação com o próximo. É como se o autor se engajasse na causa dos humildes, mas sem reduzir o nível de literariedade, o que é difícil. Autores tentaram, mas alguns conseguiram. “A Lagartixa” é a única companheira do homem. A dificuldade de se relacionar com o outro ou talvez de se adaptar é um dos temas desse autor. “O Lagarto” repete cena de A Ferro e Fogo – Tempo de Solidão, de Josué Guimarães. Neste último, homem se esconde em buraco para fugir de bandidos que invadem a estância. No miniconto de Degrazia, homem se esconde com medo da polícia, visto que batera numa idosa em supermercado. A mulher o abandona, e ele se transforma em lagarto. Seria a recapitulação da influência do meio, só que a partir de nova roupagem literária? Não se deve dar crédito ao determinismo. No entanto alguma influência no comportamento das pessoas ele tem. Em “A Salamandra” , classifica a nudez feminina como poesia. Em “O Pássaro madrugador” , homem se sente feliz mesmo sem ter posses. Os colegas se revoltam com por ele ser diferente. Então, matam o pássaro que o despertava cantando. O rapaz se torna mal-humorado, e os colegas exultam de alegria. Como retrata o miniconto, a sociedade não admite o outro e tenta destruí-lo. Desde Platão é assim. O filósofo disse que seu mestre, Sócrates, foi condenado à morte por ser diferente e por se destacar. “O Condor” sofre por estar aprisionado no zoológico. Mais uma vez, a história reproduz a vida. Quantas pessoas têm os instintos asfixiados por razão fútil, principalmente por moralismo? “Os Ratos” parece dialogar com o romance homônimo de Dyonélio Machado, até porque mostra igual pavor de roedores, mas, no livro do romancista da geração de 1930, os ratos são vistos como animais, enquanto no miniconto de Degrazia se revestem de simbolismo, falam de receio maior que pode ser da sociedade, da opressão ou da vida.

“A Raposa” traz a história de homem que sempre se deu bem nos negócios e, no fim, se transformou no animal que lhe emprestava o nome. Muitos se dedicam a uma coisa, como o dinheiro, e perdem suas características fraternas. Embora se trate de literatura – e até certo ponto de realismo mágico tardio – Degrazia inova o movimento por desenvolver tratado filosófico (no campo ético), mas sempre nas fissuras da palavra. “Os Leões Selvagens de Tanganica” aborda a relação do público com seus ídolos. Quando heróis contemporâneos desempenham suas funções, a plateia vibra. Se não fazem, as pessoas se revoltam e se vingam. “O Búfalo” e o último dos moicanos se procuram. Quando o homem vê o animal, chora e arquiteta com o bicho vingança contra o homem branco, porém trai o quadrúpede e o vende. Na sociedade, as pessoas enganam umas às outras sem constrangimento. Na frente, confraternizam; atrás, nem tanto. “Os Macacos” – imitadores eméritos – assumem o lugar dos homens e os põem na jaula. Aí recriam as bombas atômica e de nêutron. Há duas reflexões a respeito da parábola. A primeira é que o homem – como dizia Nietzsche, vive em espírito de rebanho, uns repetindo os outros. Em todas as áreas, principalmente nas artes, a imitação é infinita. Quando estilo de música faz sucesso, por exemplo, milhares seguem o caminho, até saturar. A segunda mensagem é a animalidade do ser humano, que, por isso, se dedica à violência.

“O Rei dos Animais” trata de homem que começa a ficar mal-humorado e ronda as casas do bairro, como fera, igual a leão. Muitos seres humanos se transformam em animais agressivos. E quantos deles estão na cadeia? Vários. Porém existem violentos em todos os setores, praticando o mal, estuprando meninas, violentando meninos, se alcoolizando, batendo em mulher, velhos e crianças. “As Piranhas” fala de classes desprestigiadas. Cita os poetas, como incomodativos, embora poucos leiam poesia. Os contistas integram o contexto, mas talvez por sua inutilidade. O mercado pouco aceita o conto, a crônica, a poesia ou a crítica literária; dá mais valor ao romance e à literatura infantil. Em “Baleias ao Sul da Patagônia”, escreve sobre a influência da literatura. Alguns livros, como Moby Dick, no qual a personagem desse miniconto se baseou, modificam o leitor. Mas quantas obras têm esse poder? Algumas.

Eduardo Jablonski
Enviado por Eduardo Jablonski em 02/02/2016
Código do texto: T5531026
Classificação de conteúdo: seguro