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Taj Mahal

    Com a atenção voltada para a artéria principal onde está o Taj Mahal, aprecio toda a sua opulência e me encanto.
    Um sentimento de inveja me invade. Mas logo passa, porque tenho mais sorte que o soberano mongol.
    Em seguida, em outra ala, esta secundária, mas não menos exuberante, me pego olhando a alameda central e a água resplandescente ao seu lado em tanques laterais. Brotam na superfície fluída um grande vitral, dando a enxergar um disforme Céu de Picasso, com as suas infinitas formas geométricas visíveis, e mais tantas outras que a nossa imaginação tende a produzir com orgulho e dedicação, como se fôssemos críticos de arte.
    Eu , diferentemente do que é presumível, já não me deslumbro tanto com a "maior prova de amor da história", já agora estou pleno e consciente disso, mas ainda não é hora de revelar o motivo.
    Meu Deus, como é belo o Taj Mahal! Espetacular na sua grandeza avassaladora. Como qualquer mortal, também noto isso, pois sou muito suscetível à arte... E arte é beleza.
    Palmeando os jardins magnificamente cuidados, com seus arbustos  pragmáticos e árvores podadas  com milimétrica eficiência, servindo o conjunto para todo o sempre ao capricho de belos cartões postais, ou, em lance posterior, tocando com mãos imaginárias as paredes brancas, brilhantes e suntuosas do grande monumento ao amor, eu sou – não posso negar – invadido por uma sensação de união e devoção. Sinto-me, pretensiosamente, parte de tudo e capaz daquilo tudo.
    Sigo obstinado me entranhando nas coisas: na grama bem cuidada, na água limpa e asséptica, na preciosidade das pedras, na dureza do mármore branco, na cúpula de fios de ouro. Imagino, inclusive, o suor e o cansaço dos 20 mil homens envolvidos na longa construção. Mas nada, nada me faz sentir o amor de Shah Jahn e “Mumtaz Mahal”. Nada me faz penetrar nesse amor sagrado dos dois. Não, decididamente eu não sinto o Taj Mahal, eu apenas o vejo com extrema admiração, o vejo do mesmo jeito que qualquer turista vê um grande monumento à arte.
    O amor, tal qual a espiritualidade, é uma experiência pessoal, não é transferível sob nenhum pretexto e não há e nunca haverá objeto nenhum no mundo capaz de realizar tal coisa. O Taj Mahal só me causa sensações efêmeras e a pretensão convicta de que ele é pequeno perante o meu amor. Não sei se me faço entender, mas o Taj Mahal só é a maior demonstração de amor do mundo sob o ponto de vista do rei mongol e da princesa persa. Eu apenas tenho um pálido vislumbre de amor quando olho para essa impressionante construção, mas quando olho para dentro do meu ser, sinto o universo convergir para mim, sinto o solstício de inverno e verão, sou banhado pelo equinócio da primavera em detrimento do morno outono, com suas folhas murchas e desidratadas.
    O Taj não é meu nem seu, caro leitor. O que é meu e seu, é o amor que existe em nós, este sim nos pertence e é para nós infinitamente maior que o Taj Mahal. Se você ama como eu amo, amigo leitor, então você saberá do que estou falando.
Sales Ambé
Enviado por Sales Ambé em 30/11/2018
Reeditado em 28/01/2019
Código do texto: T6515868
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Sales Ambé
Barra do Piraí - Rio de Janeiro - Brasil, 43 anos
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Sales Ambé