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Navegar é preciso... E viver também é! Cap.II (Paola Lírio)

CAPÍTULO II - Por Paola Lírio

Tomei um banho bem gostoso e relaxante, coloquei um vestido preto básico, que realçava um pouco minhas curvas e sequei os cabelos antes de subir para meu primeiro jantar na melhor companhia, "a minha mesma". Aquela insinuação dele me fazia sorrir sozinha quando eu lembrava. Eu não sabia se havia um certo sarcasmo por trás de suas doces palavras, mas havia adorado aquela resposta. Será que nos veríamos no restaurante? Pelo sim ou pelo não, era melhor estar preparada, ou seja, com um belo batom vermelho para combinar com a cor das nossas bochechas quando nos "esbarrávamos" naquele imenso navio.

Sentada à mesa, eu estava olhando a carta de vinhos quando ele chegou com os familiares e sentou em uma mesa próxima à minha. "Droga. Esse restaurante é imenso. Precisava ser tão perto? Estou começando a acreditar que a gente deve ter uma espécie de imã". Pensei enquanto voltava a observar o cardápio. Após passar os olhos em todas as opções de vinhos, olhei para a mesa dele e nossos olhares se tocaram. Nos cumprimentamos de longe com um sorriso e reparei que ele comentou alguma coisa sobre mim com seus familiares. Voltei a olhar o cardápio sem graça, fingindo que ainda não havia escolhido. De repente, senti meu corpo gelar quando percebi ele se levantar e vir em minha direção.
– Oi Paola. Quer sentar com a gente?
Ele perguntou com seu sorriso simpático de sempre.
– Ah obrigada. Estou bem aqui. Não quero incomodar.
– Que nada. Você não incomoda. Sente com a gente!
Ele insistiu e fiquei sem graça de recusar.
– Está bem. Obrigada.
Disse sem jeito, levantando da minha mesa e indo para a mesa que estava quase ao lado.
– Deixe-me apresentar minhas irmãs...
Ele me apresentou suas duas irmãs, seu cunhado e sobrinho. Alice era a mais velha, estava com o Roger, seu marido, e Toninho, seu filho de seis anos, um menino muito fofo e educado. O nome provavelmente fora escolhido em homenagem ao tio. A mais nova se chamava Aline e parecia estar solteira, assim como Tony.
Ao contrário do que eu imaginava, me senti muito à vontade me juntando a eles. Suas irmãs eram tão agradáveis quanto ele, e me receberam muito bem. Era uma família que gostava muito de falar e de sorrir. E era bastante nítida a união e cumplicidade entre eles.
– Então Paola... – perguntou Alice – o Tony disse que trabalham na mesma empresa. Tirou férias também daquele lugar sugador? Só assim que conseguimos um tempo de qualidade na presença dele.
– Ah sim. Verdade. – Respondi sorrindo. – Estava precisando descansar um pouco. Mas no meu caso estou tirando férias de tudo.
– Está solteira também?!
Perguntou Aline, que logo foi repreendida pelo irmão.
– Aline!
– Ué, estou perguntando porque também estou solteira e poderíamos ir à boate juntas mais tarde...
Ela olhou para mim e continuou se explicando.
– O Tony acha que fico tentando arrumar uma namorada para ele. Por isso o espanto. Se bem que ele está precisando mesmo.
Notei que ele ficou todo vermelho de vergonha e sorriu sem graça.
– Você é uma graça Paola. – Aline disse com um olhar de "te aprovo como cunhada".
– Obrigada. Você é muito gentil.
Respondi com o mesmo olhar de "te aprovo como cunhada", com o rosto todo corado, igual ao do Tony.
– Vocês já escolheram o que vão beber?
Ele perguntou mudando de assunto e chamou o garçom para pedir.
– Um drink de morango para mim. – Disse minha futura, quem sabe, cunhada.
– Uma taça desse cabernet sauvignon chileno por favor. – Eu disse apontando no cardápio.
Tony pediu uma cerveja importada, assim como sua outra irmã e seu cunhado. O sobrinho pediu um suco de uva.
A comida estava maravilhosa. Melhor que o buffet, só as companhias, principalmente a do Tony. Após muitos risos devido à gostosa sintonia e ao clima de festa, percebi que meu plano de ficar sozinha havia furado. Após terminar a sobremesa e minha segunda taça de vinho, senti mais o balançar do navio, ou melhor, meu estômago sentiu. Lembrei que meu remédio para enjoo não estava na pequena bolsa que eu carregava comigo. Provavelmente ainda estava dentro da mala e, se eu fosse para o quarto àquela hora, não voltaria mais. Resolvi então apenas tomar um pouco de ar puro no deck superior, próximo à parte onde ficava a piscina.
– Gente, muito obrigada pela agradável companhia. Não estou me sentindo muito bem, estou um pouco enjoada. Vou lá fora respirar um pouco. Vocês me dão licença?
– Claro querida. Vai lá. Tem gente que enjoa mesmo no navio. – Disse Alice.
– Vai lá com ela Tony. – Disse Aline toda empolgada.
– Não precisa. Obrigada. Não quero atrapalhar o passeio de você.
– Você me falou que se precisasse de alguma coisa iria recorrer a mim. – Tony disse todo cuidadoso e preocupado já se levantando da cadeira. – Só vou te deixar sozinha quando estiver bem. Vamos lá.
– Obrigada. – Concordei sorrindo. – Não dava para recusar a companhia dele, nem que fosse só por mais uns dez minutos.
No deck superior, ao contemplar o mar e o céu estrelado, respirei fundo e soltei o ar devagar por algumas vezes. Tony permaneceu quieto ao meu lado. Após algumas respirações profundas, minha pressão, que antes parecia estar baixa, já parecia normalizada. Com um leve sorriso no rosto contemplei o mar aberto, iluminado somente pela luz da lua. Era exatamente naquela paisagem que eu havia imaginado me refugiar.
– Está se sentindo melhor? – Tony me perguntou solícito.
– Sim. Obrigada. – Respondi com um sorriso de agradecimento. – Se quiser pode voltar para o restaurante. Fique à vontade. Já estou bem.
- Está gostoso aqui... Apesar das altas ondas lá embaixo, o clima está agradável. Confesso que também estou me adaptando ao balanço do navio. – Ele disse sorrindo como se tivesse me contado um segredo.
– Sério? Pensei que você fosse um marinheiro nato! – falei sorrindo surpresa.
– Que nada. Trouxe um remédio para enjoo camuflado na minha mala.
– Ah, me sinto melhor em saber que não sou a única. Mas e você está bem?
– Estou sim, estava brincando. Só queria te acompanhar mesmo... Ver um pouco o mar e sentir essa tranquilidade aqui de fora. – Ele complementou tentando não parecer invasivo.
Nesse momento começou a tocar uma música próximo à piscina, junto com a voz de instrutores convidando para uma aula de dança de ritmos.
– O mar continua aí, mas a tranquilidade parece que acabou agora. – Eu disse sorrindo.
Era um ritmo latino envolvente. Não incomodava os ouvidos, pelo contrário, dava vontade de dançar.
– Mas até que a música é boa. – Comentei.
– Realmente. É um ritmo agradável. – Ele concordou.
– Dá até vontade de ir dançar. – Disse a ele convidando com meu entusiasmado olhar.
– Eu sou um desastre! Não danço nada. – Ele se esquivou rindo de si mesmo.
– Mas é para isso que existem as aulas...
Sério que eu estava tentando convencê-lo a ir dançar comigo?? Só me dei conta disso depois de já ter dito.
– Acho que nem se eu fizer mil aulas aprendo a dançar.
– Ah, vamos! Mesmo que não consiga seguir os passos, pelo menos a gente se diverte. – Eu continuei insistindo, já que havia começado. – Vejo nos seus olhos que você quer se divertir um pouco.
– E eu vejo nos seus olhos que não vai sossegar enquanto não me ver passando essa vergonha. – Ele disse rindo sem graça e com o rosto todo corado, como de costume.
– Acertou! – Aproveitei o efeito do vinho que tirava um pouco a timidez da minha personalidade introvertida, e segurei seu braço puxando levemente. – Vamos?
Ele coçou a cabeça ainda indeciso, como se tivesse pesando pós e contras. Depois balançou a cabeça como se não estivesse acreditando no que iria fazer.
– Ah, está bem. Vamos. – Disse com um ar de derrota.
Quando chegamos no local da recreação havia umas quinze pessoas, dentre elas alguns casais dançando juntos e, exatamente naquela hora, começou a tocar a música “despacito” de Luis Fonsi. “Despacito, quiero respirar tu cuello despacito...” Olhei disfarçadamente para o pescoço dele. “É Paola. Agora vai ser difícil manter o foco.” Pensei.

https://www.amazon.com.br/dp/1720035873
Cila Mattos
Enviado por Cila Mattos em 09/12/2018
Código do texto: T6522985
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Sobre a autora
Cila Mattos
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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Cila Mattos