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MEIO AMBIENTE E PENSAMENTO CARTESIANO NA ESCOLA OCIDENTAL
 
O pensamento cartesiano ditou regras para a educação ocidental desde o século XVII. A ênfase no conhecimento científico teve o claro propósito de desenvolver o pensamento racionalista a fim de produzir os avanços tecnológicos requeridos pela sociedade industrial. Descartes jamais dissimulou seu pensamento a respeito do novo paradigma de educação ao afirmar que:

É possível chegar a conhecimentos que sejam muito úteis à vida, e que, em vez dessa filosofia especulativa que se ensina nas escolas, se pode encontrar uma outra prática, pela qual [...] poderíamos empregá-los da mesma maneira em todos os usos para os quais são próprios, e assim nos tornar como que senhores e possuidores da natureza.

Esse olhar retrospectivo sobre a educação e os processos acadêmicos de formação profissional recuados até Descartes deixa bem claro o interesse ocidental em duas coisas: 1) dissociar saber e pensamento; 2) se apoderar da natureza pela força do conhecimento. Assim se constituiu o “modelo mecanicista” de ensino, voltado inteiramente para ministrar conteúdos aprisionados e subestimar o livre pensamento.
Tais observações explicam o fato de a filosofia cartesiana não especular, ser prática e empregar conhecimentos para fins específicos. E foi assim que se desenvolveu a Engenharia e suas especialidades. Herdeiras sem ressalvas deste modelo, sempre tiveram a pretensão de poder assaltar o meio físico como bem lhes aprouvesse e só recuaram destes instintos diante do freio da legislação ambiental a partir dos anos de 1960.
Quando se volta, com olhar ambientalista, para os métodos tradicionais de ensino ainda enraizados em toda a cultura ocidental fica fácil entender os cinco problemas do pensamento cartesiano na formação de especialistas em áreas tecnológicas.
O primeiro problema é a perda de identidade. Sob a ótica do ensino baseado no pensamento cartesiano originado da fragmentação e sistematização do conhecimento a perda da identidade significa o aprendiz se deixar conduzir plenamente pelo instrutor e abrir mão das próprias idéias e de sua visão da realidade do mundo. A Era Industrial, que não encomendou este modelo, mas dele se beneficiou e o utilizou em suas linhas de montagem, transformou o homem numa obediente e simples máquina de saber. Este modelo se enraizou nos princípios da educação até desaguar nos atuais especialistas, essas pessoas autorizadas à afirmação de tolices.
O segundo problema, que também se baseia no método cartesiano, é o racionalismo. O pensamento lógico e racional usado como meio de conhecimento para explicação da realidade é puramente metafísico e subjugado ao rigor do método, aos manuais, ao passo a passo e às leis. O direito à transgressão que, por caminhos próprios, foge do padrão e da mediocridade, foi definitivamente banido. Disciplina e ordem, conceitos de excessivo valor na sociedade organizada, significam seguir o bando, despersonalizar-se, destruir a criatividade. O homem moderno está sendo convidado a cada instante a ser medíocre, a reagir sem pensar.
O terceiro problema é a ausência de disciplinas humanistas e culturais nos cursos técnicos ou de ciências exatas e biológicas. Na verdade, faltam modelos curriculares empenhados no bom domínio da comunicação, da convivência e do desenvolvimento do indivíduo: Línguas, Literatura, Filosofia, Ética, História e Artes.
O quarto problema vem de dois valores fundamentais assentados nos currículos da escola ocidental: ensinar a obediência e a submissão à autoridade. Não se pode negar que são, ambos, valores importantes dentro da organização social e do trabalho. Mas é necessário dizer que o pensamento livre desperta nas pessoas a vontade de aprender o novo e de abrir caminhos. Não há espaço nas escolas para currículos dinâmicos, até porque a própria sociedade, educada na confortável rigidez dos currículos engessados, abre mão da discussão e da reflexão. O que está definido a priori é aceito como bom e todos silenciam.
O quinto e mais grave problema diz respeito à relação entre a influência do método cartesiano no ensino e a sustentabilidade da Terra. Se tomarmos como verdade que é impossível aumentar a sustentabilidade sem educar o homem, o principal corolário desta afirmação é que o homem reaja primeiramente com a consciência diante de uma situação de crise, e não com a racionalidade. Meio ambiente é sentir antes de pensar, pois, de outro modo, a educação ambiental nas escolas já teria produzido resultados mais notáveis.
Do que foi dito até então, o modelo cartesiano não é adequado sob nenhum aspecto, quando observado do lado de dentro dos moldes reformadores da pedagogia. Contudo, cedendo espaço à dúvida e ao pensamento contraditório vamos analisar os bons e os maus resultados deste modelo.
Ele foi bem sucedido: 1) para soluções de capacitação, produção e planejamento nas empresas e serviços públicos; 2) possibilitou a verticalização do conhecimento, útil na criação de especialidades em diversas áreas de conhecimento: Engenharia, Medicina, Direito, História, Economia, Administração, Psicologia, etc.
Ele fracassou: 1) ao lidar com questões não objetivas – Sociologia, Filosofia, Religião e Educação – e com destaque para o Meio Ambiente; 2) ao depositar excessiva confiança na ciência, já que ela não é soberana e nem oferece resposta a todo tipo de problema; 3) por ser inadequado para resolver problemas muito complexos e que fogem ao âmbito da lógica e da racionalidade; 4) pela inaptidão do pensamento ocidental ordinário para a descoberta de novos limites ou fronteiras do pensamento global, já que educa para conceber questões compartimentadas entre dois únicos limites.
Um exemplo típico de fracasso do modelo cartesiano está na sua relação com o meio ambiente, conhecimento multidisciplinar ilhado entre limites, mas com várias dimensões: físicas, sociais, econômicas, morais, éticas, legais e demográficas. Dentro deste exemplo cabem novos exemplos: 1) as relações entre crescimento da população e consumismo; 2) os limites espaços-temporais para as mudanças da sociedade; 3) as regras de relacionamento da sociedade com o planeta.
Não saberíamos responder, de imediato, se a simples ruptura com o modelo cartesiano seria inteiramente compensada com um novo modo de pensar global, envolvendo todos os aspectos do contexto social-econômico-ambiental. Pois, na verdade, muitas soluções práticas em Meio Ambiente obedecem aos critérios legais, através dos quais o pensamento continua fragmentado, separado que foi em compartimentos afins com especialidades técnicas: solo, água, ar, meio biótico, meio socioeconômico, cultural e artístico. Mas não temos dúvida ao afirmar que a educação ambiental se faz com o propósito de construir a cidadania.
Assim, pode-se afirmar que a função principal da disciplina de Meio Ambiente no ensino de qualquer nível é a contribuição para a formação de cidadãos conscientes, aptos para decidirem e atuarem na realidade sócio-ambiental de um modo comprometido com a vida, com o bem estar de cada um e da sociedade, local e global. Para isso é necessário introduzir questões transversais dentro do ensino tradicional, o que já vem sendo feito embora com intensidade e métodos de abordagem inadequados. Na verdade os verdadeiros interesses foram esquecidos pela escola moderna, de vez que seu compromisso é apenas o de repassar conteúdos voltados para a formação voltada para o mercado de trabalho.
Este é um contexto onde a sustentabilidade deveria ser o tema transversal mais valorizado. Será que ele é bem tratado nas escolas? É neste ponto que um projeto deste tipo esbarra na dificuldade mais bizarra: os professores não estão ainda capacitados para seu pleno entendimento e, portanto, se torna ilegítimo qualquer esforço de torná-los multiplicadores eficientes. Para ensinar a sustentabilidade do planeta os professores ainda não estão preparados para explorar o tema sem recorrer ao tradicional método da memorização de conteúdos e sem buscar integração multidisciplinar.
Este modelo de cultura ocidental foi extremamente adequado aos métodos de Taylor de produção em escala, baseados nos fundamentos da especialização e da extrema valorização do trabalho de equipe adotados na sociedade industrial norte-americana do século XIX. Na linha de montagem o apertador de parafusos desconhece a especificação do parafuso e depende de quem veio antes dele para a escolha. Na relação do homem comum com a natureza ele não sabe fazer escolhas e, por seguir o bando, só consegue pensar como membro de equipe, sob o comando de um líder que não há ou, quando muito, de algumas cabeças mais aventureiras que desafiam o lugar comum e se aproveitam da mediocridade dos demais.
Taylor treinava seus homens para o trabalho mecanizado em favor da facilidade de controlar a produção. Hoje, a sociedade ocidental faz isto da mesma forma dentro da organização hierárquica sob o princípio do “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A forma de alimentar esses rebanhos nas universidades e cursos técnicos é simples: os cursos são montados com currículos despersonalizados, uma mesmice que só atende os interesses de mercado. Afinal de contas, a submissão é segura e garante empregos.

O texto abaixo é parte do livro “DILEMAS DE UM PLANETA (in)SUSTENTÁVEL – Entre a razão e a insanidade”, Editora FUMARC, Belo Horizonte, 2015, 413 páginas. Disponível para vendas em:
 
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Cornélio Zampier Teixeira
Enviado por Cornélio Zampier Teixeira em 12/12/2018
Código do texto: T6525292
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Cornélio Zampier Teixeira
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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