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Etimologia da Língua Portuguesa nº161

          Etimologia da Língua Portuguesa por Deonísio da Silva nº 161.

      Caixa, palavra com muitos significaos, veio do Latim capsa, recipiente no qual os romanos guardavam livros em rolo. Substantivo que remonta à força do olhar na Antiguidade, mau-olhado formou-se de mau, do Latim malus, e olhado, particípio de olhar, do Latim adoculare.

      Caixa: do Latim capsa, recipiente no qual os antigos romanos guardavam livros em rolo. No mito de Pandora, veio a substituir o vocábulo equivalente ao Latim buxis, que no Português virou palavrão no século XX. Mas o recipiente do mito era um jarro. Zeus o enviara como presente de casamento a Pandora e Epimeteu. Ao abri-lo e ver que espalhava os males pelo mundo, ela ainda tentou fechá-lo, mas só reteve a esperança, que era tida como um mal porque poderia enganar os homens acerca do futuro.

      Epifania: do Grego epháneia, aparição, manifestação, pelo Latim epifania, com iguais significados. Designa saber repentino, súbita sensação de compreender algo, o famoso “dar-se conta”. É nome de festa cristã intitulada Epifania do Senhor, celebrada dois domingos após o Natal. Segundo os textos cristãos, Jesus ( século I) fez três epifanias, explicitando quem era: no dia 6 de janeiro, Dia dos Reis Magos, pois os monarcas reconheceram no Menino Jesus um rei; quando foi batizado por São João Batista (século I); e por fim nas Bodas de Caná, quando transforma água em vinho, começando o seu ministério.

      Fico: do Latim vulgar figicare, vindo do Latim culto figere, figicar, ficar.  Como é conjugado “fico” na primeira pessoa do tempo presente indicativo, veio a designar o dia em que dom Pedro I (1898-1934), pressionado pelas cortes metropolitanas, que o chamavam de volta a Portugal,  atendeu um abaixo assinado com 8000 assinaturas e pronunciou uma frase que anunciava a independência do Brasil: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico” . A frase famosa foi pronunciada no Rio de Janeiro no dia 9 de janeiro de 1822.

      Lili: como sinônimo de mau olhado, aparece nos dicionários como de origem obscura, mas provavelmente tem a ver com o Hebraico Lilith, deusa de tempestades, ventos e enfermidades e morte, adorada na Mesopotâmia. Outros autores dizem ser Lilith um dos disfarces do astuto Satanás, que levou Eva a comer o fruto proibido no Éden, e nessa acepção aparece em pintura do italiano Michelangelo Buonarroti (1475-1564), Lili, escrita também Lilith e Lilite, durante o cativeiro na Babilônia foi associada à Lua na mitologia hebraica, com fases boas e más, por isso chamou-se também Lua Negra. Lili, Eva e Pandora aparecem como agentes do Mal para justificar a passagem do matriarcado para o patriarcado.

      Mau-olhado: de mau, do Latim malus, e olhado, particípio do verbo olhar, do Latim vulgar adoculare, de oculus, olho em Latim. O mau-olhado remonta à força do olhar na Antiguidade, presente em textos de diversas línguas e procedências que relatam personagens capazes de prejudicar até matar ao olhar fixamente para alguém. Evil eye, no Inglês; bosen Blick, no Alemão; mal de ojo, no Espanhol; e malocchio, no Italiano. Para combater o mau-olhado, os antigos gregos recorriam a imagens da cabeça de Medusa, Amuletos como a figa, o corninho, a meia lua, o elefante e o pé de coelho derivam dessas superstições. O feitiço mortal dos olhos está relatado no Livro IX das Noites Áticas, série de 20 volumes escritos pelo gramático advoado e escritor romano Áulio Gélio (século II). Ele diz que na Ilíria as pessoas muito irritadas matavam os inimigos usando somente o olhar.

      Pandora: do Grego Pandora, pelo Latim Pandora. Como substantivo comum, designa um tipo de molusco, um instrumento de cordas semelhante ao alaúde e povo da Índia. Na língua grega, berço do vocábulo, é do mesmo étimo de pándoros, pela formação pan, tudo, todo, completo, e dôron, dom presente. Esses étimos têm muito a ver com o nome da primeira mulher na mitologia grega, que se chamou Pandora porque tinha todos os dons. A pedido de Zeus, o maior dos deuses, Hefesto e Atena fizeram uma criatura para cuja criação todos os deuses lhe deram algo de bom: graça, beleza, persuasão, inteligência, paciência, meiguice, habilidade na dança e nos trabalhos manuais. Quando pronta ela foi enviada a Epimeteu para seduzi-lo, como Eva tinha feito com Adão.

          Deonísio da Silva, da Academia Brasileira de Filologia, recebeu o Prêmio Internacional Casa de las Américas, em júri presidido por José Saramago. Escritor, professor e doutor em Letras pela USP, é professor (aposentado) da UFSCar (SP), curador de Língua Portuguesa da Universidade Estácio de Sá (RJ), onde ministra videoaulas, diretor-adjunto da Editora  da Unisul (SC) e colunista da Bandnews, com Ricardo Boechat e Pollyanna Bretas. Livros de sua autoria estão publicados também no exterior. É autor de De Onde Vêm as Palavras (17ª edição). www.lexikon.com.br

                                                 Revista Caras
                                                   2015

         
Doutor Deonísio da Silva
Enviado por zelia prímola em 23/12/2018
Código do texto: T6533671
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Sobre a autora
zelia prímola
Recife - Pernambuco - Brasil, 79 anos
92 textos (2511 leituras)
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