Minha Fé (ou Falta De)

Minha Fé (ou Falta De)

quando olho presse mundo

quando contemplo as relações

que existem entre o homem,

a natureza, o universo,

me sinto muito pequeno.

...

(isso me impõe um certo

silêncio constrangedor)

...

Em verdade, eu sou um Nada

dentro dessa Imensidade Divina

da qual, de alguma forma,

ainda participo.

Não tenho tanta prepotência

a ponto de esculpir Deus

(à minha imagem e semelhança)

mas acredito que a Queda de Adam

é a história de todos nós.

Do berço ao túmulo, do sêmen ao pó,

filhos do desejo,

irmãos do pecado,

noivos da cova num casamento arranjado

e sem divórcio.

Amor é chama que arde sem se ver

mas nós queimamos de um fogo ímpio.

Atiçamos a impiedade

ou antes, a acenderam em nós,

mas disso não sei, não se sabe.

Quando acordei, assim me encontrei

e não me lembro de um tempo

em que não estivesse acordado.

Nada sei do que fui ou que um dia serei

E do que não conheço não falo, me calo.

Do pouco que temos,

castelos erguemos -

crianças brincando

na beira do mar.

Ao nada que somos,

nos agarramos -

provamos do fruto,

sorvemos a seiva,

cuspimos a casca,

beijamos o cuspe.

E no compasso composto desse soneto eterno

dançamos a valsa impiedosa da realidade.

Ó impiedade!

Chrystian Revelles
Enviado por Chrystian Revelles em 20/05/2019
Reeditado em 17/07/2019
Código do texto: T6651654
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