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O OUTRO LADO DA MOEDA



Então um dia, eu ouvi: "Na vida é assim, tudo pode piorar!". Era uma mulher na fila da padaria, conversando com o rapaz do caixa.
Eu saí de lá devagar, pensando comigo: Será? Será que as coisas podem ficar pior do que estão?
E piorou muito...

Eu só queria ficar sozinha, com a minha vergonha de vida, afinal, aquela separação não era de um ano, sete anos, quinze, mas de 24 anos juntos e de repente, tudo desmoronado, todo o esforço de uma vida jogado fora de forma bem dolorida.

Você sabe o que é ter fome, juntar as moedinhas e não ter nem para uma dose de café com um pão seco?
Chegar na hora do almoço, sentir o aroma de comida da vizinhança e não ter nada para comer, sequer água para enganar o estômago, porque a água estava cortada por falta de pagamento? Sem banho, deixada como um animal abandonado, enquanto "ele" curtia nova lua de mel e eu sequer sabia onde diacho tinham enfiado meu filho, porque eu procurava, andando a pé pela cidade, de casa em casa, mas as pessoas o escondiam dizendo não saber o seu paradeiro...

Em plena menopausa,  com uma hemorragia severa e sem absorvente para aparar o sangue, sequer papel higiênico havia na casa; então eu cortava lençóis em tiras e colocava no meio das pernas.
Uma vizinha fornecia um balde de água por dia e com aquilo eu passava.

Não encontrei apoio de ninguém, muito pelo contrário, apareceram pessoas que sem saber o que eu estava enfrentando, quiseram me colocar mais para baixo ainda, me procurando só para pretexto de dizer como eu estava mal, sem oferecer nenhuma ajuda efetiva que ao menos aliviasse aquelas privações.

Fiquei quieta no meu canto, passando todo tipo de necessidade, sozinha com a minha vergonha de uma relação terminada daquela forma e o que encontrei pela frente, foram pessoas tramando nas minhas costas...

Sim, tudo piorou e a cada dia mais!
Fui posta - quantas vezes? no rol de inúteis, de alienados, passei toda sorte de humilhação, sofri até enforcamento por duas vezes e nenhum apoio de ninguém.

Eu estava ameaçada de que, se "ele" me visse na rua, passaria o carro em cima de mim. O pavor era grande, eu não queria sequer sair na rua, ficava em casa, mas por necessidade maior de fome exclusivamente, com uns trocados dados por terceiros, fui a um restaurante popular comer um prato feito depois de 3 dias sem alimento algum e na saída, quieta com as minhas tristezas, fui abordada por um brutamontes de jaleco, que me pegou a força, levando para o hospício e no caminho, vi meu irmão na vizinhança, rindo do desfecho que ele providenciou.

Nessa altura, já tinham falado muito mal de mim para o meu filho e a vizinhança toda, eu estava desmoralizada e sem a menor condição de defesa...
Passei mais privações jogada em lugares insalubres, à mercê inclusive de violências, sem direito a nada, sequer de abrir a boca, trancada, dopada, dada por louca porque estava vivendo o que "ele" me impôs de necessidades.

Uma, duas, dez vezes forçada a destino opressor, sem ninguém que desse apoio, só empurrando para baixo e forçando que parecesse o que nunca foi.

Certa vez trouxeram o meu filho para a minha companhia, para passar o final de semana, dizendo que eu teria que lavar o uniforme de trabalho dele, mas não tinha água em casa, não tinha sabão, não tinha nenhum alimento, nem gás, nada e eu disse que não. Então, pegaram a garrafa de coca cola e o presunto com pão que trouxeram junto com o meu filho e foram embora, sem querer saber de nada e disseram pela enésima vez, que eu estava louca...

Ninguém sabe o que eu passei. Vigilantes para o cárcere apareceram muitos, intransigentes, acostumados no mesmo comportamento de "avaliar" a situação, sem estar a par dela.

Minha vida foi jogada no lixo, estou desmoralizada, sofro humilhações descabidas, minha palavra e vontade não contam, sou obrigada a fazer o que não preciso e só o que eu queria, era viver longe dessa família.
A vida inteira, todos os meus passos foram para isto, cheguei a mudar de cidade neste intuito.
São pessoas que me fazem mal. Desde criança posta de lado, chamada por apelidos toscos e humilhantes...
Deixada de lado quando do falecimento do meu pai; sequer minha mãe se importava com o que me acontecia.

Não recebi educação como as minhas colegas tiveram. Se aprendi como se deve viver, foi sozinha ou observando terceiros alheios ao que é esta família desajustada.

Hoje estou mais morta do que viva, perdi o direito sobre mim mesma, a alegria de viver, a autonomia. Tenho uma pessoa egoísta e ignorante do mal que me causa, pregado na barra da minha saia, que me humilha sempre que tem oportunidade, que me pretere, que nunca me deu valor, que nunca quis saber das dificuldades que já enfrentei na vida e que se acha o senhor da razão.

A pessoa que fui, já não existe mais, apenas uma plasta aqui dentro e só eu sei a humilhação que pesa sobre os meus ombros...
Se eu não me desse valor, ninguém mais o faria e é apenas esse valor que sei que tenho, é que me mantém de pé, caso contrário, já teria desistido.

Ainda tenho a esperança de que juntando tostão por tostão, eu poderei pagar uma defesa para provar o quanto se esforçaram torcendo as coisas e os fatos, para me abater moral e psicologicamente e esta esperança é o ar que eu respiro.
Ene Ribeiro
Enviado por Ene Ribeiro em 13/07/2019
Código do texto: T6694737
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Sobre a autora
Ene Ribeiro
Goiânia - Goiás - Brasil, 57 anos
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Ene Ribeiro

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