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Sobre o Exercício da Poesia — Para mim e para aqueles que estão inseguros com o que escrevem

I
O presente escrito trata-se de uma autorreflexão acerca do exercício da escrita e da poesia, sobretudo da minha escrita e da minha poesia. Deixo esse breve aviso caso um provável leitor aqui caia de paraquedas achando que procuro generalizar o objetivo da produção poética com base na minha subjetividade. Não. Quero apenas refletir sobre o quê escrevo e o porquê que escrevo.
Faço esse ensaio pois, percebo, ultimamente já não tenho admirado tanto a minha produção poética quanto antes. Anteriormente dizia a mim mesmo com garbo que “eu sou um dos meus poetas favoritos”, hoje já não sei se posso fazer essa afirmação. Apresento clara insatisfação com aquilo o que venho escrevendo, quero, portanto, saber o porquê disso e o que tenho que escrever para, em primeira instância, agradar a mim mesmo — pois este é o objetivo primevo da minha poesia — e em segunda instância escrever uma boa poesia.
No meu poema “O que é Verdammte” que é também um manifesto e um ensaio, declaro clara e sucintamente o que considero ser uma poesia louvável e o que tenho por objetivo de minha poesia. Recapitulando o poema:
 
O Que é Verdammte?

Palavra em alemão para "Maldito".
Poesia verdammte é a poesia maldita.
São verdammtes aqueles mal-ditos
por sua sinceridade, e liberdade criativa!
Uma criação rejeitada, depravada...
Mas livre acima de tudo!
Como o maldito de Baudelaire, de Rimbaud,
De Àlvares, de Augustus, de Lord Byron, de Poe
De Nietzsche, de Crowley, de Manson...
O maldito, ou o amaldiçoado, não é algo negativo;
Sartre diz que o homem é condenado à liberdade.
Eu digo que o homem foi amaldiçoado a esta,
O homem foi amaldiçoado à existência!
Um Dasein nú, cru, e sem sentido intrínseco.
Viver é como se jogar num abismo;
O abismo da existência!
Enquanto os poetinhas têm medo da queda,
Os verdammtes se jogam! E dançam!
Enquanto esperam a morte no fim do abismo.

O objetivo da minha poesia é transformar sentimento em arte, é transformar as entranhas da minha alma em júbilo, é plantar sementes e colher flores do mal, para que eu possa ver alguma beleza em tudo aquilo o que me deixa inquieto. É transformar dor em algo que não mais dor. E não somente fazer essa transformação, pois expressar-se através de versos é coisa para qualquer um, eu quero fazer bons versos, versos ricos, ricos em vocábulos, em métrica e em técnica. É isso o que quero para a minha poesia afinal: Carthesis(a habilidade de expressar-se a si mesmo através de algo) e a Técnica(domínio da língua, da palavra e das ferramentas da linguagem e da poesia).
Quanto à temática sou extremamente inclinado à, como disse, temáticas “malditas”, não necessariamente faço essa escolha de modo consciente isso pois, só me vem a vontade de escrever quando estou doente da alma, quando algo da minha psiquê pede socorro, quando palavras entalam na garganta e não conseguem sair. A tristeza é a força motriz da minha poesia. Como eu mesmo disse no poema “Como me fiz Poeta”:

“Mas "ser" poeta e "manter-se" poeta
é diferente.
O amor me fez poeta.
Mas o que me manteve poeta
Foi a dor, a amargura, a desilusão,
A tristeza, a melancolia, a solidão.
E isso é o que me mantém poeta.
Isso é toda a minha poesia!”

A poesia tem, muitas vezes, caráter terapêutico para mim, poder transformar toda  “a dor, a amargura, a desilusão, a tristeza, a melancolia, a solidão” em algo belo, em algo que eleva é simplesmente sublime, beirando o sublime de Burke. A poesia cura, faz cicatrizar feridas que a medicina desconhece, é um paliativo das feridas da alma, das dores do mundo. Dizem que a psicologia é a cura pela palavra, gosto de comparar psicologia e poesia, tenho grande admiração por essas duas ciências e, sendo assim, gosto de dizer que a poesia é a “elevação pela palavra”. E não falo de elevação no sentido comum desse signo, falo de elevação espiritual, de inspiração, a poesia, a boa poesia, independentemente da linguagem e da técnica que carrega é aquela poesia que toca a alma do leitor, que a eleva e à transporta para um mar de um sentimento único, que só a poesia, e muitas vezes, só aquele poema pode mostrar.
O leitor logo percebe, poesia é algo importante para mim. E estar em dissonância com essa arte que é tão intrínseca ao meu Eu me incomoda, quero ser uníssono com minha produção, quero gostar e admirar o que escrevo e, se possível, quero escrever algo que seja único e que eleve o coração das pessoas.

II
A pergunta é: Tenho feito isso? Tenho feito a poesia que almejo fazer? A resposta parece clara: Não. Pois, se assim o fosse, estaria satisfeito com minha produção poética.
Imagino que, muito do que diz respeito à essa insatisfação se dá pela minha baixa autoestima, sou muito crítico e muito exigente com aquilo o que escrevo — de forma tamanha que nesse exato momento me encontro escrevendo um ensaio para saber como posso escrever melhor — tenho o infeliz costume de exigir de mim mais do que posso dar no momento e vivo me comparando à outrens, muitos destes, ideais inalcançáveis. Já me peguei comparando a minha poesia à de Baudelaire na época em que li Flores do Mal, como eu, em meus simplórios 17 anos de vida e apenas 3 anos de exercício poético quero estar à altura de um gigante da poesia e da literatura como Baudelaire? Essa presunção e auto-exigência faz com que eu me leve a conceber que escrevo mal, sendo que muitas vezes não é bem assim.
Esse ano escrevi um livro, diagramei, fiz a arte e estava pronto para produzi-lo fisicamente, a princípio fiquei muito satisfeito com Um Jardim no Inferno, mas aí veio a insegurança e o auto-desprezo, passei a pensar que não estava bom o suficiente, que era um livro parco, que faltava algo, e… não agradando nem mesmo a mim como é que agradaria aos outros? Desisti de produzi-lo. Apenas lancei virtualmente sem fazer grandes propagandas ou divulgações, umas poucas pessoas leram. Só agora, meses depois é que eu vim amadurecer a ideia do livro e perceber que eu estava exigindo MUITO de uma produção que é apenas minha primeira, como eu quero que meu primeiro livro seja o melhor de todos? Não sou um Augusto dos Anjos! Tenho que entender isso.
Uma pessoa veio falar comigo, eu não a conhecia, ela disse que tinha lido meu livro completamente. Completamente! Uma das poucas pessoas que fez isso, disse que gostou muito e que admirou principalmente os versos tristes! Logo os versos que mais tenho estima em fazer, conhecer essa pessoa e escutar essas palavras me deixou inexprimivelmente feliz.

Escrevendo isso, agora percebo, o problema não é necessariamente o que escrevo, o problema decerto está em mim. Não escrevo mal, não escrevo versos abomináveis e tolos, eu escrevo bem, mas insisto em não gostar do que escrevo… Imagino que o amadurecimento e o estudo da poesia veio a me tornar ainda mais exigente do que já era e agora quero ser um poeta maior do que sou, pular degraus na escada da poesia… quanta audácia. Não preciso amadurecer a minha poesia, preciso amadurecer a mim. Entender que nem todos os poemas vão ser perfeitos ou vão ser os melhores! Nem mesmo os poetas e autores que admiro tão veementemente escrevem sempre poemas perfeitos, pelo contrário! Sempre encontro nos livros de poesias versos que me causam alguma repulsa ou estranheza…

Essa mensagem agora é para mim mesmo, e também para qualquer pessoa insegura com aquilo o que escreve: Por favor entenda, não é todo dia que se produz uma magnum opus. Nem todos os poemas são ou serão impecáveis, dê a si mesmo o direito e o prazer de vacilar. Dê tempo ao tempo… Dê tempo ao seu tempo… Se quer ajudar a sua poesia, a sua escrita, ajude a si mesmo primeiramente e pare de exigir tanto de si mesmo.

Raul M Brasil
Enviado por Raul M Brasil em 02/12/2019
Reeditado em 08/12/2019
Código do texto: T6808708
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Raul M Brasil
Arcoverde - Pernambuco - Brasil, 17 anos
29 textos (266 leituras)
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