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DIFERENÇAS E SENTIMENTOS: PEDAÇOS DE UM MESMO TECIDO

No princípio não havia nada. Luz, terra, mares, animais, árvores, homens ainda não podiam ser contemplados. Somente átomos solitários e erráticos pairavam sobre a imensidão de espaços amorfos, vazios e ainda sem vida.
Porque nada existia também nada se sentia. Não havia amor, afeição, prazer, afeto, dor, mágoa, frustração, ressentimento, melancolia, louco, selvagem, marginalizado, estrangeiro, sindrômico, diferença e sentimento.
E assim foi. E foram muitas tardes e manhãs. Milhões de partículas movimentaram-se, agregaram-se e combinaram-se, harmoniosamente, para comporem multifacetadas sinfonias que determinariam as propriedades macroscópicas da matéria. E assim foi ao longo de muitas tardes e manhãs. E começou a escultura do mundo:
Durante sete dias, foram utilizados muitos pincéis, ferramentas e cores para dar forma e função a cada composição esculpida, moldada, colorida e desenhada. Uma infinidade de sabores, tons, perfumes e de sons surgiram para que cada ser vivo ou inanimado trouxesse consigo uma marca particular com o intuito de distingui-lo de entre todas as coisas existentes na face do globo terrestre. E porque assim foi, ao longo de sete tardes e sete manhãs, diferenças apareceram e se instalaram para circunscrever aquilo que se aproximaria e, ao mesmo tempo, distanciar-se-ia de tudo o quanto havia sido criado.
E cada espécie criada, exibiria de acordo com suas peculiaridades inatas e adquiridas, diferentes formas de querer, de agir, de fazer, de pensar, de mostrar, de ocultar e de sentir as coisas, os objetos e o outro. E para expressar tamanha complexidade, elegeu-se uma via (mas, há outras!) para difundir as marcas distintivas da alteridade. Nasceu, então, a avenida do sentimentum e a faculdade de sentir (se).
No oitavo dia, fez-se a diversidade. E assim foi. E foi a tarde e a manhã. Com a linguagem criaram-se os discursos e com eles as antíteses: o bem e o mal, o feio e o belo, o comum e o especial, o ativo e o inativo, a igualdade e a desigualdade, o idílico e a realidade, a falácia e a verdade, o dizível e o indizível.
Criou-se, com isso, o jogo dos contrários: o sensível e o insensível, a desordem e a ordem, o bem-sucedido e o fracassado, o normal e o desviante, a objetividade e a subjetividade. Originaram-se a partir destas imagens preconcebidas, o substrato fundamental para construir, tijolo por tijolo, a diversidade (adversidade?) de representações que se poderia fazer do outro. Em uma palavra, as modificações e alterações presentes nos outros que serviriam de referência para perceber, analisar e classificar aquele ou aquela que se desviava de um padrão preestabelecido e normatizado.
Fortaleceram-se, pois, os rótulos que se destinariam a segregar, a reagrupar e a diferenciar aqueles que, por uma ironia do destino, deslocavam-se das tramas contidas nos enredos recheados por discursos normatizadores procedentes da sociedade contemporânea.
E pensar, escrever e sentir sobre diferenças é muito mais complexo do que se pode expressar. Um dos entraves incide no fato de que qualquer noção ou concepção de diferente implica em uma imagem que se faz das alterações presentes no corpo do outro. Sempre que se utilizam palavras como cego, excepcional, surdo, louco, inválido, sindrômico, homoafetivo, aidético, negro, desempregado tem-se em mente uma concepção prévia daquilo que estas palavras estão impregnadas e querem expressar. É como se tais palavras guardassem em seu âmago, algo tão nocivo e letal como, por exemplo, um carcinoma na fase de metástase. E sendo assim, poucos são os que se aproximam ou dão abrigo aos dizeres provenientes dos excluídos, das minorias e dos estigmatizados.
Apesar de quase sempre usarmos palavras (sinalizadas, oralizadas ou escritas) indiscriminadamente, elas geralmente têm algum significado para nós. As palavras são expressões verbais originadas a partir de uma imagem que a nossa mente constrói norteada por uma concepção de diferença.  Ou seja, daquilo que se distancia da semelhança, da igualdade, da eficiência e da ordem preconizadas pelo sistema social.
E assim foi (e ainda é). E serão muitas tardes e manhãs até que se quebre com o discurso politicamente correto da ordem. Porém, o que é criar desordem? Como vislumbrar contradições?
No movimento discursivo da alteridade, não há lugar para relações polarizadas, tais como: diferença-igualdade, deficiência-normalidade, eficiência-não-eficiência.
Na alteridade, o meu olhar do outro se desloca para o lugar do outro. Todo o outro é radicalmente diferente. A ideia de semelhança é idílica. O que significa dizer que há apenas uma ínfima possibilidade de semelhança entre eu e o outro.
A concepção de alteridade traz, subsequentemente, a impossibilidade de tecer verdades sobre o outro. Neste sentido, verdades são ilusórias, inapreensíveis e intangíveis, porque inexistentes.
A verdade será rompida e milhares de ecos desordenados começarão a tomar forma. Uma sonoridade ainda tímida surgirá de espaços antes petrificados, enclausurados e silenciados. Pequenas palavras serão balbuciadas. Vozes virão de todas as partes e ao mesmo tempo. A guarda do silêncio libertará as falas de suas mordaças. Diferenças e sentimentos serão pedaços de um mesmo tecido.
Hera Franklin
Enviado por Hera Franklin em 14/02/2020
Código do texto: T6866228
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Hera Franklin
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Hera Franklin