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Essência do Valor - Contra a teoria de valor de Marx

ESSÊNCIA x APARÊNCIA
Tenho vários amigos socialistas, discutindo com eles é recorrente entrar no debate acerca do valor. Defendo que a melhor maneira de alocar recursos é deixar que as próprias pessoas decidam entre si como fazer isto e a principal maneira em que a sinalização (para o acordo de troca) se dá é através dos preços. Uma objeção recorrente é a de que os preços e o valor não são a mesma coisa, segundo eles o preço mascara o verdadeiro valor - este constituído pelo trabalho agregado dentro do produto. A minha interpretação do que dizem é, “há um valor aparente e há a sua essência, real”. O preço é um (aparente), o valor (essência) é outro. As pessoas seriam enganadas ao pagar um alto preço (valor aparente) por algo que possui relativamente pouco trabalho agregado (essência do valor).

O MUNDO SÓ SE DÁ A PARTIR DE UM OLHAR
Antes de escrever sobre economia política eu escrevia sobre arte (mudei de tema justamente por conta destes debates). Confesso que minha maior dificuldade é ser didático na fundamentação da minha conclusão: não existem universais, não existe essência, não existe nada específico à coisas, palavras, conceitos e objetos, a não ser através da leitura de alguém. No caso específico deste ensaio defendo que se algo tem um valor, este valor só existe em relação ao olhar de alguém. Admito a existência de algo independentemente de qualquer existência individual, mas este algo é inacessível. Chamo de ‘Todo Incogniscível’. Mas, como disse, a fundamentação desta conclusão é pouco didática e pretendo reescrevê-la. Portanto agora vou apenas mostrar que com a essência do valor é impossível mostrar como os mercados funcionam, também pretendo mostrar os inconvenientes de usar esta essência para mostrar como os mercados deveriam funcionar.

CALCULANDO O PREÇO JUSTO
Preço é aquele pelo qual um produto ou serviço se vende, é aparente. Uma maneira possível de definir valor é calcular o trabalho agregado (em horas) àquele produto. No caso de um refrigerante, por exemplo, é possível calcular quantas pessoas trabalharam e por quantas horas em uma mineradora (para produzir o alumínio) e dividir a quantidade de alumínio produzido pela quantidade de trabalhadores vezes a quantidade de horas. O mesmo para o transporte, do alumínio até a fábrica, depois reproduzir o mesmo cálculo para cada insumo do refrigerante. Em seguida calculamos o trabalho de trazer a latinha até o mercado e o trabalho do mercado em vendê-la. Pronto, é possível refinar bastante este cálculo para conhecer quanto trabalho tem em cada latinha que compramos. Agora basta confrontar o trabalho agregado em cada produto com o preço de cada produto que encontraremos uma correlação. O que meus amigos socialistas defendem é que esta correlação deveria ser extremamente forte, próxima a um. Neste caso não haveria fetiche da mercadoria, seria o preço justo (pois refletiria com exatidão o trabalho embutido no produto).

FETICHE DA MERCADORIA
Fetiche da mercadoria é o valor que as pessoas atribuem quase misticamente às mercadorias, à despeito do valor social (trabalho) ali investido. É aquele desejo irresistível por um tênis da moda, um carro potente.

CALCULANDO O FETICHE
Para fins de cálculo fetiche da mercadoria é o quanto o trabalhador paga a mais do que o valor do trabalho embutido. No caso de um refrigerante que vende no mercadinho: retirando o valor do trabalho de cada pessoa que minerou o alumínio, cada pessoa que ajudou a plantar a cana do açúcar, retirando o valor do motorista, do secretário, de cada equipe que cada de cada logística… enfim, retirando todo o trabalho (inclusive o trabalho dos donos). Retirando o valor de todo este trabalho há um preço que excede todo o trabalho realizado (seria a mais valia ou lucro). Como se calcula o fetiche? A primeira intuição é olhar a correlação preço/trabalho, depois diríamos que todo o desvio da média corresponde ao fetiche. Encontraríamos tanto fetiche positivo (preços pagos a mais do que o valor justo) como encontraríamos fetiche negativo (preços pagos a menor do que seria o preço justo). Logo percebemos que esta matemática não corresponde ao conceito de Marx, pois para ele o fetiche é apenas positivo (pagar a mais do que o valor do trabalho agregado). A solução é assumir que a mercadoria que tem a menor relação de preço/dividido por trabalho como tendo zero fetiche. O desvio em relação a este valor (sempre a maior) é fetiche.

EXPERIMENTO REVELADOR
Este procedimento de calcular o fetiche através do cálculo dos valores pagos durante a produção em confronto com os valores pagos pelo consumidor final revela situações muito interessantes, vejamos alguns casos que eu esperaria encontrar (se este experimento hipotético for realizado algum dia):

CADEIA DE PRODUÇÃO DE APENAS UMA PESSOA
Diversas vezes encontraremos mercadorias que tem uma correlação exata entre o preço e o trabalho: é o caso em que uma pessoa tomou conta de toda a cadeia de produção. Entretanto, mesmo nestas situações o valor do produto final será muito díspare. Compare um doce de amendoim no interior do nordeste e um assistência técnica para consertar um computador num bairro nobre de São Paulo: ainda que plantar o amendoim e a cana, colher, ensacar e levar ao consumidor final envolvam muito mais trabalho o preço da assistência técnica (de uma hora) será muito superior ao do doce de amendoim.

CASOS EM QUE O TRABALHO É INVERSAMENTE PROPORCIONAL AO PREÇO
Outro resultado que eu espero encontrar (caso este experimento hipotético seja realizado algum dia) é de produtos em que o preço seja inversamente proporcional ao trabalho. Seria o caso em que uma empresa adota as melhores práticas e inovações tecnológicas e tem, por isto, condição de trabalhar com menos pessoas e de cobrar mais alto pela qualidade que oferece. Suponho que tem sido a regra em cada revolução tecnológica que uma indústria passa. Por exemplo, suponho que uma grande televisão de tubos catódicos (aquela televisão quadrada) empregasse mais pessoas do que a televisão de tela plana que veio a substituí-la. Entretanto o preço da televisão de tela plana era bem superior ao preço da televisão de raios catódicos.

MAIOR REMUNERAÇÃO DO TRABALHO ACOMPANHADA DE ALTO LUCRO
Em uma indústria especializada e com a mão de obra escassa é possível imaginar um cenário em que o trabalho recebe uma remuneração extremamente alta e em que o lucro é extremamente alto. No mesmo país é possível encontrar um caso em que uma indústria, quase falindo está dando muito pouco lucro (ou mesmo prejuízo) e em que os salários são extremamente baixos.

O QUE ENCONTRARÍAMOS EM CONFRONTO COM A TEORIA DO VALOR DE MARX
O que esperaria encontrar neste experimento imaginário (possível de se realizar para quem tenha tempo e recursos disponíveis) são tanto segmentos da economia em que o trabalho incorpora preço (correlação positiva entre trabalho e preço) como segmentos da economia em que o preço é muito superior ao trabalho empregado (correlação fraca ou negativa com o preço). Entretanto, independentemente do que encontrássemos a teoria de Marx não seria falseada, pois ela não é uma teoria de preço (que pode ser observada), mas uma teoria de valor.

IMPOSSÍVEL NEGAR UM ‘DEVER SER’ ATRAVÉS DA OBSERVAÇÃO
Marx diz que o preço deveria corresponder ao trabalho incorporado caso os trabalhadores tivessem consciência do tanto de trabalho que lá foi investido. O ‘dever ser’ é impossível de ser negado. Digo que não deveria existir miséria no mundo, ver mendigos na rua não nega minha afirmação. Digo que eu deveria ser jogador de futebol titular num time de ponta, a observação de que não me destaco nem na pelada do fim de semana não nega minha afirmação. O dever ser é uma aclamação sobre valores ou desejos, diz mais sobre a pessoa que a profere do que sobre as observações que a pessoa faz.

UM MUNDO EM QUE OS PREÇOS SÃO DETERMINADOS PELO TRABALHO
Caso adotemos a visão de que o preço deve corresponder ao trabalho chegaremos a uma encruzilhada: podemos decidir que o trabalho é como uma commodity, portanto o preço deve corresponder exatamente ao trabalho. Esta é a solução fácil, mas tem o inconveniente de remunerar igualmente uma mão de obra extremamente qualificada (digamos um cirurgião de cérebro) e uma mão de obra não especializada (digamos, um entregador de pizza). A solução difícil é aceitar que diferentes profissões devem ter remunerações diferentes. O grande inconveniente é que não há mecanismo para decidir quanto vale cada preço. Imagino que um corpo burocrático do Estado ficaria incubido de tal tarefa. Tais burocratas se avaliariam como importantíssimos e merecedores de altíssima renda. Independente de qual caminho tomar o lucro seria proibido (caso o lucro seja incorporado o preço já não corresponde mais ao trabalho).

SÓ É POSSÍVEL DETERMINAR O PREÇO ATRAVÉS DA FORÇA
Só vejo duas maneiras de determinar o preço, a primeira é através do acordo entre as pessoas (através do mercado). A segunda maneira é através da força, particularmente da força do Estado. O estado consegue determinar alguns preços à força sem grandes desafios. Aqui em Brasília o preço da passagem de ônibus é determinado pelo Estado. Um monte de pessoas que faziam lotação (clandestinamente) tiveram seus carros apreendidos diversas vezes. Entretanto determinar TODOS os preços de uma economia é um desafio gigante e empobrecedor. Diversos líderes marxistas ascenderam ao poder e os marxistas alegam que nunca o comunismo real foi implantado - segundo eles isto se deve às restrições e ataques impostos pelos capitalistas, especialmente pelos EUA.

ALTO CRESCIMENTO SE DEVE AO MERCADO
Defendo uma tese diferente. Diversos líderes ascenderam, seja democraticamente seja através de revolução armada, e nenhum foi comunista (conforme os ideais dos meus amigos) pelo seguinte motivo: falta aos governos democráticos a força para determinar todos os preços do mercado. Isto só pode ser feito em uma ditadura. Ainda assim controlar todos os preços da economia tem altíssimo custo. Exemplos de países como a China, que se alegam comunistas e que crescem muito, devem seu crescimento à liberdade que eles concedem para o mercado. Esta liberdade se restringe apenas ao mercado (não ao direito de fala) e se dá em graus variados de acordo com a localização (Shenzhen, por exemplo, é muito livre).

RECAPITULANDO
Neste ensaio abordo a perspectiva (adotada por marxistas) de que a origem do valor é o trabalho. De acordo com esta visão o valor é o agregado de trabalho de toda a cadeia produtiva. Os preços, ao invés de refletir o trabalho, refletem a manipulação dos capitalistas. Assim quem consome é enganado ao pagar um valor acima do que o do valor do trabalho agregado. Tal valor a maior consiste no fetiche da mercadoria.

Neste ensaio propus um modelo a partir do qual é possível confrontar o trabalho agregado e os preços. E imaginei um experimento hipotético em que espero encontrar diversas situações que apresentariam dificuldade para a teoria do valor como trabalho agregado:

1 - Caso em que a pessoa é responsável por toda cadeia de trabalho. Neste caso o valor do produto deveria ser proporcional ao trabalho empenhado. Entretanto minha expectativa é que trabalhos mais bem qualificados e prestados mais próximo a centros urbanos serão mais bem remunerados.

2 - Caso em que o preço inversamente proporcional a trabalho. Suponho que o usual em revoluções tecnológicas é que o produto novo seja mais caro, entretanto que tenha menos trabalho agregado.

3 - Maior remuneração do trabalho acompanhado de maior lucro. Suponho encontrar indústrias em que o salário são muito altos e o lucro também o são. Imagino que empresas de ponta com funcionários muito bem qualificados (e disputados pelo mercado) se enquadram nesta situação.

Estes três casos que eu esperaria encontrar no experimento hipotético são bem reveladores. São casos em que o preço do produto se distancia do trabalho agregado à ele, mas são casos em que é difícil atribuir tal disparidade à mais valia, pois nestes casos o lucro da própria empresa não conspira para o baixo salário.

Entretanto através de observações empíricas é impossível negar um dever ser. Marx não diz que o trabalho determina o preço. Ele diz que o trabalho determina o valor (oculto) - o preço seria uma ilusão criada por capitalistas para mascara a Verdade. É como se o valor fosse a essência do preço (este, uma ilusão).

Ao fim faço o exercício de imaginar um mundo em que os preços fossem determinados exclusivamente pelo trabalho. Neste caso o lucro seria proibido (me pergunto qual seria o incentivo para criar um produto novo) e os preços seriam definidos por burocratas. Ainda assim restariam desafios: todo o trabalho seria remunerado ao mesmo dinheiro/hora? Se assim o for quem tem uma profissão altamente qualificada seria remunerado da mesma maneira que uma profissão muito pouco qualificada. A remuneração seria de acordo com a qualificação? Se assim o for quem vai decidir quem deve receber o quê? Mais uma atribuição para um corpo de burocratas determinar o que, de outro modo, seria atribuído entre as pessoas, através do mercado.

LIVRE MERCADO E A SOLUÇÃO DE PROBLEMAS
Sou muito preocupado com diversos problemas que assolam o mundo e o Brasil em particular: miséria, exploração destrutiva do meio ambiente, preconceito e discriminação (inclusive do próprio poder judiciário). Sou preocupado com estas questões, apenas não acho que uma teoria de valor responde a estes problemas.

CONCLUSÃO
Atribuir um valor correspondente à sua essência, isto é, ao trabalho ali investido, é um esforço dantesco. Impor este valor à população, isto é, obrigar que as pessoas paguem o preço correspondente a ele, só pode se fazer acabando com os acordos livres entre a população (acabando com o mercado livre). Acabar com toda a liberdade que as pessoas têm de transacionar entre si só pode ser feito através de uma ditadura - eis o motivo pelo qual todos os regimes que se dizem socialistas são ditaduras. Se alguém me mostrar uma maneira livre e democrática (alternativa aos mercados) para determinar valor posso considerar optar por ela, até isto acontecer continuarei defensor do livre mercado. Isto não quer dizer que sou defensor do mundo tal como ele é: miséria e destruição do meio ambiente me preocupam muitíssimo. Só acredito que acabar com o livre mercado não é a solução para estes problemas.
Chico Acioli Gollo
Enviado por Chico Acioli Gollo em 13/07/2020
Reeditado em 26/07/2020
Código do texto: T7004359
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Chico Acioli Gollo
Brasília - Distrito Federal - Brasil, 38 anos
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Chico Acioli Gollo