Apontamentos e referências sobre maternidade e paternidade preta

Ensaio biográfico escrito para Escurecendo o Discurso 3

Tema: Ancestralidade, Maternidade e Paternidade Preta.

Realização: Núcleo de Anfrocentracidade, em 23/10/2021, via Zoom.

Por Oubi Inaê Kibuko* - texto revisitado e ampliado

RESUMO: Se partirmos dos principio que ninguém e nenhum povo é dono do planeta; de que ninguém nasce pronto e sábio, com manual de instruções, rotas definidas de partida, bússolas, GPS e pontos de chegada; de que não existe caminho único nem verdade absoluta. Se considerarmos que tempos sombrios e recorrentes, clamam exposições, posicionamentos, reflexões luminárias. Acima de classe, credo, etnia, gênero, ideologia, posição, região. Seja no plural, seja no singular, o indivíduo é coletivo, o coletivo pulsa no indivíduo e vice-versa circularmente. Os seres humanos, na sua diversidade, não são seres dissociados como corpo e espírito, bem e mal, certo e errado, feio e bonito, como pregam conceitos maniqueístas decorrentes de culturas dominantes, engessantes e relatividade quando não depreciada, tende a ser ignorada. Fatores que alimentam, sustentam, proliferam devastadoras crises existenciais e relacionamentos, via de regra, mais destrutivos que edificadores. 

Primeiramente quero agradecer esta oportunidade a Olorum, a Exu e aos Orixás e Yabás de todas as nações. Aos ancestrais maternos e paternos, e de todas as linhagens. Á memória dos meus pais e avós maternos e paternos. Aos meus mais velhos, aos mais novos e aos que virão. Aos meus filhos e filhas: Shalom, Charles, Fayoula, Kizzy Fatumbi, Selma Nyjingha, Kindaisha e Robson. As mães deles. Aos netos e netas presentes e que virão. Aos meus amigos, familiares, irmãos, sobrinhos, primos, colegas de caminhadas. A Todes que se empenharam na organização deste evento. Axé. Saúde. Longa Vida. Enfrentamentos. Questionamentos. Reflexões. Superações. Gratidão ao ator Marcelo Palmares – Instituto Pombas Urbanas, pela narração. Em dezembro/2020 contraí Covid-19. Desde então estou afônico e passível de fadigas, devido a sequelas.

Na humildade e com todo respeito, sou um ignorante em formação a caminho de 6.6 em outubro/26. Não venho na posição de mestre, e, sim, de aprendiz com mais perguntas do que respostas. Considero-me um ser humano do sexo masculino, com seus limites e infinitos, conhecimentos e desconhecimentos, fortalezas e fraquezas, descobrindo o mundo, por se dispor a sair cotidianamente de cavernas interiores e recorrentes. Afinal, cultura, história e sujeito caminham juntos. No entanto, existem lugares onde o negro entra e sua cultura e história afrodescendente ou de raiz ficam de fora. E existem lugares onde a cultura e a história afrodescendente e de raiz entram, mas o negro fica de fora. Um processo conjunto e conflitante de afirmação e apagamento; inclusão e exclusão; negação e reconhecimento; visibilidade e invisibilidade. Como descontruir e reconstruir esses e demais processos relacionados?

Venho procurando me ver e até me posicionar como uma pessoa antropológica e arqueológica frente aos muitos ainda por desfazer, fazer, saber, refazer em todos os cenários, quadros, sentidos construídos ou a serem edificados. Lugares em construção sugerem pessoas em construção. Contudo, é preciso ter em mente algumas questões. A própria ignorância e inacessibilidade do todo e do tudo que foi e tem sido feito, para o bem e para o mal podem serem também encaradas como formas de recorte seletivo, de proteção a preconceitos arraigados e ortodoxos nos processos de formação. Como ato intencional frente limitações existentes e parcerias possíveis com espíritos e mentalidades abertas e flexíveis. Lembro aquela dos Titãs: “Você tem fome de que? Você tem sede de que?” Serei cuidadoso com as palavras, meu aprendizado ainda não incorporou totalmente determinados linguajares e formas de tratamento. Se eu disser algo politicamente incorreto, peço que anotem e me corrijam, sem apedrejamentos. Sou um ignorante em formação.

EXPLICAÇÃO - Geni Mariano Guimarães

Não sou racista.

Sou doída, é verdade,

tenho choros, confesso.

Não vos alerto por represália

nem vos cobro meus direitos por vingança.

Só quero,

banir de nossos peitos

esta gosma hereditária e triste

que muito me magoa

e tanto te envergonha.

Salvo equivoco, a história das Artes, da Educação, das constituições familiares no Brasil e no mundo são as mesmas em linhas gerais. Começou por brancos burgueses, membros da realeza, do clero e seus meios sagrados, os ditos civilizados apenas para citar, nos cenários, classes, credos, gêneros e quadros existentes. Escravos, etnias não reconhecidas, menos favorecidos, defeituosos quando não eram negligenciados, mantinham-se com os os restos, com as migalhas e sobras.

Desse modo, atos, pensamentos e posicionamentos conservadores, preconceituosos e rançosos, de algum modo fazem-se presentes nos tempos atuais. Neste e demais contextos, considero-me um pai e ex-marido circunstancial e em estado latente, passível de aflorar em campos férteis. Os estéreis conheço de cor e salteado. Pego por referencias uma palestra da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, disponível no Youtube, intitulada: “O perigo de uma história única.” E a entrevista da mesma sobre o que ela entende e como exerce seu papel materno, explicado no programa Roda Viva. São lições recomendáveis de assistir, debater, refletir. Outra recomendação do programa Roda Viva é a entrevista do professor Silvio Almeida sobre Racismo Estrutural.

Antes do fim, voltemos ao começo. Consciente ou inconscientemente, a tendência de quem sofre abusos sexuais ou violências culturais, físicas, históricas, parentais, psicológicas, é a de repetir atos parecidos. Seja de forma direta, seja de forma indireta em quem estiver sob seus domínios. Sobretudo em situações de carência, dependência, fragilidades. Ou então portar-se de forma alienada e até afetuosa e super protetora ao extremo, como uma espécie de rota de fuga para não se confrontar com estas e demais situações conflitantes e passiveis de serem recorrentes às chamadas famílias disfuncionais.

Nasci em 1955. Os conceitos, opiniões e visões que tenho conjuntamente de família, maternidade e paternidade nas últimas décadas não são as mesmas que eu tinha, digamos, há meio século atrás. Tenho recordações pouco memoráveis de quando quis namorar uma garota da minha idade aos 16 anos e de quando fui pai assumido pela primeira vez aos 20 anos. Shalom é o nome da primogênita.

Talvez em 1975 tenha sido a segunda, caso boato de namoro relâmpago em 1974 seja verdade. Perdi contato com a família por razões adversas e diversas. Estava na passagem dos 18 para os 19 anos. Elza Regina de Souza é seu nome. Era prima do Oscar, sobrinha da Beth e ex-vizinha num cortiço onde eu, minha mãe e irmãos moramos na Vila Verde. Na época ela contava 17 anos. Um dia depois do nosso inesperado e intenso encontro a sós, a tia dela me abordou e disparou sem meias palavras: “Ela já vez dois abortos. O médico avisou que no terceiro ela fica na mesa.” Precipitado respondi: “Não se preocupe, Beth, se acontecer alguma coisa eu seguro.” O que acabou não acontecendo. Penso comigo ter assumido a segunda, por uma questão de moral para comigo mesmo, afins de não repetir ações e testemunhos que até hoje me incomodam, por mais consistentes que sejam os argumentos. Parafraseando aquela do Tim Maia: “Se me lembro faz doer”.

Num mundo capitalista ocidental e consumista, jovem tende a ser porra louca em atitudes, fases, processos de afirmação. O passado é questionável e o futuro é promessa duvidosa, por mais que os mais velhos desfilem exemplos experimentados e cicatrizes na própria pele. Cada caso é um caso, cada tempo tem seu tempo. Assim como as artes, as formações, as informações, as pessoas, os pensamentos, as políticas, as visões de mundo são frutos do seu tempo. Aos jovens, sobretudo periféricos ou urbanos, o importante é o presente, o aqui e agora, custe o que custar. E se acentua nos periféricos devido a falta de alicerces, de bases edificadoras, de bussolas norteadoras que proporcionem horizontes. A tendência do jovem periférico é a de viver eclipsado e ofuscado pelas classes dominantes. Num contexto geral, acima das diferenças de classe, o importante é experimentar com intensidade tudo que se apresentar nas descobertas do mundo. Ultimamente há quem defenda que o importante é chorar por ter feito e se prejudicado, a lamentar por ter amarelado e vive ruminando vontades e ignorâncias. Melhor as tempestades de fogo a redomas de gelo. Quem não esquece a sua juventude e permanece jovem no espírito, na mente, talvez entenda esta reflexão. Afinal, existem jovens velhos e velhos jovens; pessoas com nortes e pessoas desnorteadas. Pessoas que projetam e projetam pessoas; pessoas que se projetam fazendo outros de escadas e escalas.

Lembro de pessoas que me depreciaram, menosprezaram, sentenciaram imprestabilidades. Trago isto engasgado na garganta e pregado na memória. A meu ver convalesciam de catarata, estrabismo, miopia, cegueira interior. Pudera tirar histórias a limpo. Tanto que não pergunto nem imponho nada a ninguém. Limito-me a sugerir e motivacionar quando percebo possibilidades, potencialidades, querenças, talentos, vocações. Não tive quem conversasse esses assuntos comigo, além dos papos de galo e suas virilidades predadoras contando vantagens ou desabafos interesseiros, magoados, ressentidos, apenas para citar.

DO POVO BUSCAMOS A FORÇA - Agostinho Neto

Não basta que seja pura e justa a nossa causa.

É necessário que a pureza e a justiça

existam dentro de nós.

Dos que vieram e conosco se aliaram

muitos traziam sombras no olhar,

intenções estranhas.

Para alguns deles a razão da luta

era só ódio: um ódio antigo

centrado e surdo como uma lança.

Para alguns outros era uma bolsa

bolsa vazia (queriam enchê-la)

queriam enchê-la com coisas sujas, inconfessáveis.

Outros viemos.

Lutar pra nós é ver aquilo que o Povo quer realizado.

É ter a terra onde nascemos.

É sermos livres pra trabalhar.

É ter pra nós o que criamos

Lutar pra nós é um destino,

é uma ponte entre a descrença

e a certeza do mundo novo.

Na mesma barca nos encontramos.

Todos concordam - vamos lutar.

Lutar pra quê?

Pra dar vazão ao ódio antigo?

ou pra ganharmos a liberdade

e ter pra nós o que criamos?

Na mesma barca nos encontramos

Quem há de ser o timoneiro?

Ah as tramas que eles teceram!

Ah as lutas que aí travamos!

Mantivemo-nos firmes:

no povo buscamos a força e a razão

Inexoravelmente como uma onda

que ninguém trava, vencemos.

O Povo tomou a direção da barca.

Mas a lição lá está, foi aprendida:

Não basta que seja pura e justa a nossa causa

É necessário que a pureza e a justiça

existam dentro de nós!

A cor da nossa pele; o lugar onde moramos, nascemos, vivemos; por si, em situações adversas e diversas são atestados de espíritos anêmicos, de fracassos, de incompetências, de improdutividades, de reprovações, antes que possamos demonstrar capacidades. Seja no infantil. Seja no ensino médio e fundamental. Seja nos cursos técnicos. Seja nos cursos superiores. Seja na pós-graduação, mestrado, doutorado. Seja na ciência, comércio, indústria, tecnologia. Seja onde for. Quando ingressamos e concluímos algum curso, seja técnico ou universitário, carregamos de um a dez conosco. E quando abandonamos ou desistimos fechamos a porta para cem ou mais que estão na fila, atrás de nós. Os quadros tendem a mudar e podem se modificar na medida em que nos portarmos como ferrenhos abridores de latas. Tanto para nós quanto para os nossos e afins depreciados, desmotivados, desnorteados. Cultivo um pensamento: Não almejo nenhum topo. Contudo se tiver que ocupar algum, quero que seja acompanhado. Não quero subir nem liderar sozinho. Não sou autossuficiente. Sou interdependente.

Como a maioria dos jovens da minha geração, eu não tive educação sexual. E para ajudar não tive educação profissional. Fiquei órfão de pai a caminho dos quatro anos, em 1959. Edgard contava 25 anos. “Partiu antes do combinado”, como diz a velha guarda sambista, por afogamento. Por ser filho único fui criado por tias e tios maternos. E num ambiente majoritariamente matriarcal. A maioria, ensino primário, muitas autodidatas no que faziam. A maioria composta de empregados domésticos e operários braçais. Alienação parental e preconceitos familiares me privaram por anos de convivência mais estreita com a família paterna. Desde 1995 quando comecei a tomar conhecimento desses fatores divisivos venho procurando me reaproximar. Sou um desconhecido para eles e eles são desconhecidos para mim. Tenho tios e primos que desconheço e não sei quem são. Talvez já nos esbarramos nas avenidas, espaços, ruas, praças, transportes da cidade.

Em 1963, Dalva, minha mãe casou-se novamente e teve três filhos quase encarrilhados com Osvaldo Cardoso: Osvaldo, Izilda e Ariovaldo. Empurrada pela especulação imobiliária e por desemprego do meu padrasto que era motorista de caminhão comercial, a família mudou-se para a zona leste, Parada XV de Novembro, em meados de 1967. Devido a brigas, bullyngs, reprovações e necessidades, abandonei os estudos no terceiro ano primário, atual fundamental, aos 13 anos, em 1968. Até 1972 mudamos mais de casa do que sapatos. Trago na memória dois momentos de questões que ficaram sem respostas. Perguntei a familiares e vizinhos reunidos numa roda de conversa:

1) - O que é amor?

- Um dia você vai saber – responderam quase em coro afinado.

2) Tempos depois encontrei um preservativo aberto na rua. Pensando que era bexiga, peguei, mostrei, perguntei por quê o formato era diferente? Responderam que aquilo era coisa de adulto. Perguntei pra que servia? Desconversaram.

Instigado pelos amigos para provar ser amante da fruta, ato que encheu de satisfação familiares próximos quando tomaram conhecimento, minha iniciação sexual se deu aos 16 anos com uma prestadora de serviços íntimos. Ela atendia em casa. Uma residência simples de dois cômodos, como a maioria dos cortiços da região. A clientela a chamava dona Maria Quebra Galho. Contava mais de meio século. Ela não dispensava os menos afortunados. Acolhia a todos sem distinção e não exigia capacete. Apenas se lavava sem pudor e pedia que fizéssemos o mesmo. Antes e depois do ato. Com a maioria das prestadoras que se seguiram o procedimento higiênico e sem proteção foi igual, incluindo as primeiras orações com samaritanas. Décadas depois, vim a saber e fiz alusão com os movimentos do Amor Livre. Leiam verbete homônimo na Wikipédia.

Para o bem ou para o mal, durante anos fui muito crédulo. E além da conta. Raras foram as vezes em que liguei meu desconfiômetro. Tanto que me acredito tímido. Também pode ser intimidado. Talvez influências formativas cristãs católicas e mentalidades repressivas vigentes na época. Houve um tempo em que homens firmavam a palavra com fio de bigode. Afirmavam meus tios. Assim como também houve um tempo em que homens foram despidos, dobrados, fidelizados, silenciados em praça pública, a golpes de chicote. Período que remete a um pensamento de Jomo Kenyata: “Quando os missionários chegaram, os africanos tinham a terra e os missionários a bíblia. Eles nos ensinaram a orar com os olhos fechados. Quando abrimos os olhos, eles possuíam a terra e nós tínhamos a bíblia.” Nestes e demais contextos acreditei no diziam, por exemplo, sobre as consequências da masturbação. Acreditei em família Omo. Em amor eterno. Como fiz primeira comunhão, me esforcei em levar à risca os 10 Mandamentos. Respeitei virgindades. Tanto que desconheço que sabor tem uma mulher virgem. E questiono a idolatria masculina e religiosa que ainda reina em muitas crenças, famílias, sociedades a respeito deste hímen. No decorrer dos anos tenho tomado conhecimento não somente de pedofolias, como também de portas dianteiras que foram preservadas e traseiras utilizadas como rotas alternativas, incluindo tomadas de picolés, enquanto os noivos não chegaram aos altares.

VOCÊ É RESPONSÁVEL PELAS ALEGRIAS QUE PROVOCA - Geni Mariano Guimarães

Estou grávida, pensei com dúvidas.

Positivo, confirmou-me o teste.

Positivo, confirmei pra mim.

Afaguei-me o ventre, cresceu-me o coração.

Estufei a barriga, me soltei na cidade,

Espalhando a notícia e me justificava: Espero bebê.

Afaguei com carinho a cabeça de um engraxate que passava.

Fiz planos para o meu feto.

Seria na certa pessoa de bem:

Doutor, sapateiro, engraxate, lavrador,

Profeta, carpinteiro, jornalista,

Padre, político, gerente, maquinista,

Açougueiro, comerciante, orador.

Sonhei no meu sonho, gerando no ventre um homem de bem.

E o meu filho nasceu!

Inspirou o meu verso.

Enfeitou o meu quarto,

Dividiu meu olhar,

Duplicou minha vida,

Quebrou minha rotina.

Deu-me a graça suprema de sentir-se árvore.

Não pensei para o Cris, um momento sequer,

Um fruto incolor, semente estragada.

Não vi no meu filho um marginalizado,

Um jovem ladrão, vadio, assassino.

Não me vi dando ao mundo um filho viciado!

Filhos!

De todas as mães, de todas as cidades

De todas as vilas, de toda a Terra.

Se você não soube ser engraxate,

Doutor, sapateiro, lavrador,

Profeta, carpinteiro, jornalista,

Padre, político, gerente, maquinista,

Açougueiro, comerciante, orador;

Se você não fez nada.

Somente estragou sementes de amor.

Você não cabe nos planos de fé,

Não foi responsável.

Você não merece o ventre que o gerou.

A exemplo dos livros sagrados, antes de Gutemberg, vários deles foram produzidos de forma manuscrita sob a guarda e acesso para poucos letrados escolhidos. Muitos destes a interpretavam e externavam opiniões e posicionamentos conforme necessidades e interesses. Quem assistir ou ler O Nome da Rosa, entenderá. Recomendo também conhecer o acervo de livros raros na biblioteca da USP, fulana de tal e a biblioteca do Museu da Independência. Na Wikipédia, apesar de erros gravíssimos, alguns verbetes são recomendáveis conhecer, refletir, se possível debater em rodas de conversa e de preferência sem purismos fundamentalistas. Ou procurar despir-se deles o máximo possível. A saber: Amor, Casamento, Economia, Filosofia, Geopolítica, História da África, Mercado, Misoginia, Pedagogia, Política, Propaganda, Publicidade, Religião, Sexo, Sexualidade, Sociedade, Territorialidade.

Nestes e demais contextos é preciso sermos críticos, mas também autocríticos, analíticos e se for preciso, cirúrgicos. Segundo a Wikipédia, escravidão em África pelos árabes, data do ano 700. E quase setecentos anos depois o continente foi invadido, povoado, saqueado pelos europeus. Em ambos momentos tais atos se deram por pura expansão territorial, ganância financeira e projeto colonizador, fundamentados em escritos sagrados? Ou contou com a conivência e facilitação dos africanos, por disputas, guerras, interesses, insatisfações, enfim, por razões diversas?

Afetividade e união conjugal entre negros e povos originários não é somente ação e afirmação de amor. É também ação de identidade, de reconstrução, de sobrevivência, de fortalecimento, de resgate, de linhagem, de transmissão genealógica. Em resumo, é ato político, apreciemos ou não politica. Ativos, inertes, neutros, partidários, todas as ações humanas são políticas mesmo quando não nos comportamos politicamente. A própria negação da política é ato político. Não sou contra relação interracial. Apenas alerto que a pessoa não negra deve ter ciência do campo minado em que está pisando; das afirmações; das lutas e resgates que vem sendo travadas e carecem de espíritos solidários atuantes e participativos descondicionantes. Sobretudo se tiverem ou adotarem filhos com o perfil de pele compatível de quem pretender tal ato.

NEGROS - Solano Trindade

Negros que escravizam

e vendem negros na África

não são meus irmãos

Negros senhores na América

a serviço do capital

não são meus irmãos

Negros opressores

em qualquer parte do mundo

não são meus irmãos

Só os negros oprimidos

escravizados

em luta por liberdade

são meus irmãos

Para estes tenho um poema

grande como o Nilo.

Em 1972, por iniciativa própria, juntamente com exigência do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo (CDMSP), voltei a estudar e conclui o Ensino Primário pelo Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização). Sem base nenhuma, ato que remete aos documentários: Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho e Salve o cinema (Salam Cinema), de fulano de tal. Inspirado por Ray Charles, Elton John, Billy Preston, Artur Moreira Lima, Barry White, Quincy Jones, Herbie Hancock, o maestro Isaac fulano de tal deu na doida de estudar piano clássico. E conjuntamente: composição, produção e regência. Mas para tal era preciso ter primário, ginásio e colegial completos para estudar estas grades na referida instituição. O que acabou não acontecendo por dois motivos: 1) O antigo Madureza não aceitava egressos do Mobral. 2) Trabalhei empresas, cujo regime era de oito horas, algumas com expedientes aos sábados, até às 14 horas. O CDMSP não tinha aulas noturnas e aos sábados fechava às 13 horas.

Entre 1978 a 1991 conclui Ginásio e Colegial pelo Ensino Supletivo. Em 2004, graças a cursinhos populares, políticas de ações afirmativas, sistema de cotas e Prouni, ingressei num curso superior em Publicidade e Marketing/Fecap com bolsa 100%. Por indicação de um amigo e colega de curso, o Chocoboy, conclui em 2010 curso Audiovisual na Escola Livre de Cinema e Vídeo de Santo André. Insisto e teimo cursar Mestrado e Doutorado na USP Cidade Universitária. Motivos: a instituição foi criada na década de 1930, mesmo período em que nasceram meus pais. Minha mãe e muitas das minhas tias trabalharam para famílias, que se não eram formadas, seus filhos foram formados pela mesma. O filme Histórias Cruzadas e Mãos Talentosas, mais as biografias de Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus, que vieram de ambientes domésticos, mais o quase apagamento de outra escritora, a Maria Firmina dos Reis, primeira mulher escritora e negra brasileira servem de referências reflexivas, capítulos reparadores e espelhos superadores.

Em 1975 fiz fiz algo que não deveria ter feito da forma que fiz. Assumi vida conjugal por causa de filho. Quando poderia ter assumido o filho e deixado os caminhos da mãe livre. Onze anos depois a história se repetiu e agi da mesma forma. Simbolicamente as duas nasceram no mesmo mês, dezembro, e com diferença de um dia: Shalom no dia 18 e Kindaisha no dia 19. Refletindo posteriormente, percebi que a falta de pai, talvez não ter assumido a suposta paternidade com a Elza e uma vida familiar conturbada e desestruturada, me induziram a agir de forma precipitada. Algo que beira rota de fuga suicida ou excesso de confiança na aspiração de construir família diferente. Na primeira dispensei conselhos e na segunda, a sensação é de livramento. Resumindo: venho de famílias disfuncionais e de certo modo criei mais duas! Desse modo prejudiquei não somente a vida de duas mulheres, mas também a minha, dos filhos que tivemos e por extensão dos netos que temos e estão por vir. Hoje entendo, em partes, mães e pais solos.

Existem pais propensos a destinar ditos filhos imprestáveis e problemáticos aos matadouros, afins de livrarem-se deles. Um rap dos Racionais alerta: “(...) casar é negócio você vê quem é quem, só depois do divórcio.” Como e porque surgiu o ideal: “Juntos até que a morte nos separe”? Por extensão, questionemos: O que é maternidade? O que é maturidade? O que é paternidade? O que é prosperidade? O que é religião? O que é responsabilidade? O que é riqueza? A quem atende crédulos, mansos e obedientes rebanhos conjugais e filiais? Se tudo fosse flores os internatos de menores não estariam lotados.

Tomemos por exemplo um bairro ou vila em construção. Neles temos: um banco, um bar, uma escola, uma delegacia, uma igreja, um hospital, um mercadinho, uma prefeitura, um prostibulo, um teatro ou casa de diversão. São estabelecimentos. Contudo, são autônomos e edificados cada um a seu modo ou estão vinculados a visão de pão, circo, quartel e sanatório, desde tempos remotos?

MINHAS FILHAS - Oubi Inaê Kibuko

Shalom, Fayoula, Kizzi Fatumbi e Nyjingha

Parque do Carmo, pipoca doce, viagens

Chocolates, brinquedos, pirulitos...

Shalom, Fayoula, Kizzi Fatumbi e Nyjingha

Quatro crianças cirandando num mundo

Pleno de celas, preconceitos, opressores...

Shalom, Fayoula, Kizzi Fatumbi e Nyjingha

Busco nos semeios da minha arte

Cultivar, lavrar, preparar caminhos

Cheios de afetos, alegrias, solidariedades

Sem armadilhas, falsidades, espinhos...

Shalom, Fayoula, Kizzi Fatumbi e Nyjingha

Minha face feminina clamando

Minha face feminina aprendendo

Minha face feminina ensinando:

Liberdade, Carinho, Amizade

Compreensão, diálogo, respeito

Pra vida delas ser mais bela que um lindo sonho...

Shalom, Fayoula, Kizzi Fatumbi e Nyjingha

Hoje, quatro meninas muito amadas

Amanhã, quatro mulheres bem armadas

Pra não serem cardume nas redes dos dita-dores

As ditas e invejadas classes abastadas e bem constituídas educacional, econômica, empresarial, política, profissional e territorialmente, apenas para citar, colocam filhos no mundo para continuar, manter, revitalizar projetos de poder. Pretos, pobres, periféricos, amigam, se casam, colocam filhos no mundo para que? Em função do que? Não tenho nada contra a criminalidade. Cada um com seu cada um. Todavia e de tanto ser marginalizado pelos poderes constituídos venho perguntando e gostaria de encontrar fontes explicativas: Qual é o projeto político e social da bandidagem e do crime organizado?

Quer mexer em casa de marimbondos nas instâncias e instituições políticas? Ouse argumentar, criar, defender, pilotar projetos de nação, a partir das famílias que constituímos. Nem todos os ambientes conjugais, familiares, maternais e paternais são democráticos. Muito pelo contrário, em sua maioria tendem a ser celeiros de pequenos e potenciais ditadores. Cada um a sua maneira autocrática. Temos e somos herdeiros de mentalidades escravizadoras e escravocratas. Quem em sã consciência pode garantir que estes espelhos possam vir a ser utilizados por nós mesmos para com os nossos, nas cadeiras, carreiras e corridas pelos poderes estabelecidos?

PARA UMA MORAL - Marcelino dos Santos

Não é que as coisas sejam fáceis.

Mas também não é ser fácil que é essencial.

O girassol gira com a luz, e isto não é fácil e é belo.

É tempo de compreender que maçala e malapa

crescem em árvore forte, na terra firme e não no lodo.

Continuar ou não continuar a estudar

não é problema teu nem meu – é nosso.

Um hospital para o povo, uma escola para o povo,

não é verdade, não é possível na nossa terra

sem cavar o chão da Revolução.

Querer arroz sem semear não é história de homem.

O segundo passo sempre vem depois do primeiro.

Faço caminhada fotográfica. Não tenho cão levo a câmera, documentários, filmes, histórias como referência e companhia. Vejo pelo caminho crianças gestando crianças. Vejo crianças amamentando crianças. Vejo crianças cuidando de crianças. Vejo crianças esmolando migalhas e até vendendo o corpo para sustentar crianças. Quando esta criança podia ser criança brincando de ser criança com outras crianças. Nesta jornada, conheci adolescentes que foram mães aos 12, 13, 14 anos. Muitas, quando não foram abandonadas, fizeram do sexo seu modo de ganhar a vida. O romance Seara Vermelha, de Jorge Amado, e alguns filmes ilustram estes cenários, a saber: Anjos do Sol, Rudi Lagemann, 2006; Iracema – uma transa amazônica, Jorge Bodanzky e Orlando Senna, 1975; Moolaadé, Ousmane Sembene, 2004, apenas para citar. O que mudou na exploração do trabalho infantil, na pedofilia étnica e social, edificadas em alicerces de argumentações e crendices duvidosas?

Nas caminhadas noturnas tenho presenciado e sido convidado para programas com excluídos de meios familiares, religiosos e sociais, por causa da sua opção sexual. Não encaro criminalidade e prostituição como solução ou caminho único. Apesar de cada calo ser um caso, acredito em possibilidades alternativas frente aos condicionamentos, imposições, limitações geradas e mantidas pelos preconceitos. No entanto, um fato vivenciado em 2002 na Parada Gay desfila ainda na minha memória. Fotografei uma pessoa na faixa dos seus 30 a 40 anos, toda paramentada e talvez escondida no meio da multidão festiva na Avenida Paulista para não ser reconhecida. Ao perceber, ela saiu do bloco e me abordou desesperada. Me deu seu telefone e pediu aflita que eu não mostrasse as fotos a ninguém, antes dela. “Posso confiar em você?” Já sabia de histórias de pessoas discretas e confinadas em armários, por situações adversas.

Algumas muralhas são maiores e mais resistentes que o Muro de Berlim. Num contexto mais amplo tenho comigo que não deve ter coisa pior no mundo, que a de viver amordaçado, enrustido e frustrado pelos cantos. Como se sente, em que estado fica interiormente uma pessoa nesta condição, quando é convidada para uma despedida de solteiro, para um chá de bebê ou numa cerimônia de casamento o buquê atirado, cai justamente nas suas mãos? Sou apenas um ser humano do sexo masculino e um ignorante em formação. Não me cabe julgamentos e sentenças. Condenar é fácil; compreender tende a ser complexo. Como a sociedade não que ter trabalho torna-se mais prático eleger advogados, juízes e promotores, e as instâncias que resolvam. Concordei e cumpri o solicitado.

Em 2019, um pai de primeira viagem, mentalidade conservadora, me apresentou seu filho a caminho dos três anos, todo orgulhoso como se empunhasse um troféu. Sem pudores, desfiou intenções, tamanho genital do garoto, possíveis virilidades caçadoras. Lembrei de uma conversa ouvida no ônibus, onde uma mãe comentava com possível amiga, no banco a frente do que eu me encontrava sentado, a proporção labial vaginal da filha de oito anos. Comentário este que me remeteu a uma foto documental exibida numa exposição fotográfica ocorrida no Shopping Iguatemi, cujo autor não me recordo. A imagem quase em close preto e branco, típica de plataformas e revistas eróticas, focaliza uma menina, muito provavelmente abaixo dos dez anos, de cócoras, sem calcinha. Suponho que tenha sido clicada no interior ou regiões remotas do Brasil. Habitualmente, não somente homens, mas também mulheres do norte e nordeste e povos originários, tendem culturalmente a sentar agachados e com as pernas abertas. Deixando a Antropologia de lado, mas sem perder o norte comportamental, rascunhei este poema:

SE EM VEZ - Oubi Inaê Kibuko

aguardado

esperado

comemorado

seu menino nasceu

cercado de amor

foi recebido com celeste carinho

vive envolto em cuidados

vive num jardim de alegrias

vive num pomar de afetos

ele doa e vende saúde

ele é o sol da casa

ele é a lua do lar

ele é o mel da família

ele é uma constelação de aspirações

seu menino chama a atenção

por ele faz todos sentirem-se borboletas

por ele faz todos sentirem-se mariposas

tudo é motivo para brincadeiras

tudo é motivo para cantigas

tudo é motivo para festas

tudo é motivo para fotos

tudo é motivo para risos

tudo é motivo para vídeos

esculpido em belezas

seu menino desponta

seu menino promete

é um colírio para os olhos

no banho ou vestido

onde ele passa provoca sinfonias de suspiros

quando seu menino crescer

descobrir o mundo

ver a si próprio nos espelhos

buscar assentar seus laços

querer assinar seus passos

haverá barreiras

todo afeto que recebeu

desde o dia em que nasceu será retirado

descerá ralo abaixo

ele ficará sem alicerces

ele ficará sem alimento

ele ficará sem chão

ele ficará sem cobertor

ele ficará sem escudo

ele ficará sem pilares

ele ficará sem porto

ele ficará sem raiz

ele ficará sem teto

as asas dos seus talentos serão amputadas

seus banquetes de possibilidades serão rejeitados

suas bússolas de potencialidades serão quebradas

ele será afogado em oceanos de fel

será descartado como fruto podre

será renegado pelo paraíso edênico que pintaram

o infinito do seu ser será reduzido a zero

se em vez de menina ele gostar de menino?

Para não ser taxado de corporativista, baseado em conversas e relatos, e pesquisando sobre o tema, encontrei o depoimento de uma mulher, que me remeteu aos filmes: Desobediência, 2017; Meninos Não Choram (Boys Don’t Cry), 1999; Pária (Pariah), 2011; Moonlight, 2016; Saturday Church, 2017; Direito de Amar, 2009; Paris Is Burning, 1990; Corpo Elétrico, 2017; A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl), 2015. A lista é maior que os títulos aqui citados. Vale conferir. Afinal, dizem que a arte imita a vida. No anonimato podemos pedir ajuda e orientação. “O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, e-mail e chat 24 horas todos os dias.” O atendimento é pelo número 188, sem custo de ligação, caso quem estiver lendo este ensaio encontre-se em situação parecida:

"O grande dilema é que eu me envolvi com uma menina da universidade e estou muito apaixonada! Isso já fazem alguns meses. Juro que já fiz de tudo pra tirar ela da minha vida, até oração. Minha família é cristã, muito moralista e eu não quero ser lésbica. Não consigo me imaginar nessa vida. Mas eu não consigo me afastar dela. Estou sofrendo muito. Com remorso do sofrimento que vou causar ao meu namorado que é uma pessoa maravilhosa e sem saber mais o que faço pra tirar essa menina da cabeça. Já pensei até em me matar, porque não aguento mais viver assim. Só não faço porque meus filhos precisam de mim. Mas constantemente venho me dopando pra adormecer e esquecer um pouco minha realidade."

A primeira vez em que fui ao Aparelha Luzia, situado entre o metrô Santa Cecília e Marechal Deodoro, passei por uma situação calça-curta ou como naquele filme: O Homem Pelado. Sou cavalheiro, um dinossauro em extinção. Quem me conhece mais intimamente, sabe que tenho o hábito de cumprimentar mulheres com beijo na mão. Incluindo minhas filhas e familiares femininos. Ato que nesses tempos pandêmicos está proibido. E djavaneando “Faltando um pedaço”. Fui apresentado à Erica Malunguinho, idealizadora do espaço. A caminho de repetir o habitual costume, baixou a autocensura ou meu instinto preventivo estava de plantão. Uso o termo “terceiro sexo” para quem não é hetero. Ainda não sei como me portar diante da sigla LGBTPQI+. Como as relações com este público está em processo de letramento e várias atitudes heteronormativas encontram-se em discussão e até de retaliação, optei a meio caminho pelo usual aperto de mão. Ato segundo viajados, brasileiro. Na Europa e Estados Unidos, as pessoas evitam se tocar. Como tirei passaporte, mas ainda não estreei, devolvo o peixe no preço que me venderam.

Tem quem defenda que os filhos devem sustentar os pais. Que tais fatos são consequências decorrentes de xerecas esfregando-se na cara da geral. Homem tem que comparecer para não ser taxado de bixa. Num mundo que prega e se pretende cristão e masculino, nem que seja a força, pergunto: O que é ser homem? O que é papel de homem? Um ser do sexo feminino, um ser do sexo masculino, se define anatomicamente? Quais as origens do feminicídios e da misoginia? Gosto de escrever. A palavra é a minha amada, megafone, porta-voz, terapeuta. Mas a palavra em si define, expressa, representa, significa, simboliza todos e tudo? O que é tudo bem? Que tamanho tem tudo bem? Quem não se enquadra nas caixinhas, regras, réguas, rótulos religiosos e sociais é o que?

VOZES-MULHERES - Conceição Evaristo

A voz de minha bisavó ecoou criança

nos porões do navio.

ecoou lamentos de uma infância perdida.

A voz de minha avó

ecoou obediência

aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe

ecoou baixinho revolta

no fundo das cozinhas alheias

debaixo das trouxas

roupagens sujas dos brancos

pelo caminho empoeirado

rumo à favela

A minha voz ainda

ecoa versos perplexos

com rimas de sangue e fome.

A voz de minha filha

recolhe todas as nossas vozes

recolhe em si as vozes mudas caladas

engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha

recolhe em si a fala e o ato.

O ontem – o hoje – o agora.

Na voz de minha filha

se fará ouvir a ressonância

O eco da vida-liberdade.

Como disse, hoje me vejo como um pai circunstancial. Não renego minha prole. Basta o mundo que age assim com ela, como agiu comigo, como agiu com os meus e muitos dos nossos antepassados. Vejo homens negros arrotando virilidades. Penso que ainda somos escravos reprodutores abastecendo açougues. Mesmo nos tempos atuais: passado e presente se entrelaçam e se repetem. Que futuro de fato praticamos? O Brasil, a Humanidade, o Mundo não tem projeto para africanos e afrodescendentes diaspóricos. As conquistas afro americanas, por mais instigantes e motivacionais que representem, não servem de receitas genéricas, de softwares livres. Compete-nos criarmos na base do Nós Por Nós Mesmos Produções, por todos os meios necessários.

Hoje admito, se dependesse do meu aprendizado, em tudo que se baseasse no meu histórico pessoal, eu não teria nenhum. Num mundo caótico, genocida, pobre de espírito, de oportunidades e tóxico, faço coro ao Brás Cubas, descrito pelo bruxo Machado de Assis: “Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa miséria.”

Como a vida não depende e não se limita a minha vivência e vontade, penso alto e sem pudor o que me vai por dentro. Ironicamente, ontem eu não sabia nada. Hoje, sei de coisas que não posso sequer falar. Mártires negros foram mortos por negros cooptados, a mando do sistema. Mas a exemplo de sociedade, o sistema também somos nós, direta e indiretamente. Assim, quero crer que a solução está em cada um de nós. Não apoio abandono, aborto, caderneta de poupança ou investimento em promissória filial. Sugiro prevenção e meios colaborativos. Em tese, filho não pede para nascer.

Caso seja verdade o boato com a Elza e venha a encontrar este filho desconhecido e perdido, na faixa dos 47 anos, não nego que será submetido a exames de DNA. Assim como pessoas mais calejadas, cansadas de serem vistas e tratadas como mero objetos, vem colocando pretendentes a prova. Cito 509-E: "Mesmo no inferno é bom saber com quem se anda. Se não embaça, vira, desanda." Penso que independente da opção sexual, deve-se fazer o mesmo antes de assumir maternidade e paternidade. Afinal, a única lei e processo que funcionam no Brasil é a de pensão alimentícia e partilha de bens, confirmada a gravidez. Uma cena alusiva encontra-se no filme A Hora da Estrela, 1985, de Suzana Amaral, baseado no livro homônimo da Clarice Lispector. Versa sobre uma estelionatária emocional, golpista em homens casados, puladores de cerca, simulando gravidez para extorquir-lhes dinheiro e outras vantagens propícias em promessas conjugais. Outro filme nacional, cujo título não me lembro, versa sobre uma garota que faz sexo com pretendentes no primeiro encontro e fica sozinha. Até o dia em que toma consciência, muda sua atitude e protela para depois, afins de ser conhecida e a relação engata.

Na caminhada venho tomando conhecimento de filhos, irmãos, netos, primos, sobrinhos, que exploram, sugam vampirescos seus responsáveis familiares. Aproveitam-se das carências, crenças, conflitos, deficiências, erros passados e tornam-se verdadeiros parasitas dessas relações parentais. Desse modo, via de regra a pavimentação de famílias desestruturadas persistem. Irmãos de Sangue (Clockers), EUA, 1995, de Spike Lee, é sessão obrigatória, seguida de debate em roda de conversa. Oxalá tivéssemos cineclubes na Cidade Tiradentes ou online nas plataformas. Cineclube canal é necessário não somente para cinéfilos, mas também para forma de público crítico. Cinema pode ser cadernos e livros sobre lições de cidadania.

Como aquela do Claudinho e Bochecha: "Só love, só love, só love, só love..." Acredito na afetividade construtiva. Aos escritos e íntimos confiáveis, admito sem subterfúgios, como aquela frenética da Rita Lee, sem reclamar recuperação e salvação: "É uma neurose/Uma overdose/Sou dependente do amor!" Não parece, mas por mais autônomos que sejamos, de algum modo somos interdependentes. Busquemos nos amar, nos conhecer pra lidar com nossos pontos fortes e fracos. Apesar de comercial, o filme Jumanji - Bem-vindo a selva (Welcome to the jungle), 2017. Os aficionados em videogame encaram esta produção como um jogo. Eu a vejo como Análise SWOT Pessoal e Teste Vocacional para melhor nos situarmos perante nós mesmos frente ao mundo. seus espaços, mercados e desafios. A começar pela nossa saúde. Monitore-a sistematicamente. Negras e Negros são candidatos ao: Alcoolismo, AVC, Câncer, Depressão, Diabetes, Enfarto, Glaucoma, Pressão alta, dentre outras. Super Homem e Super Mulher existem só na ficção e são vulneráveis a kryptonita.

Não nego influencias midiáticas, ontem e na atualidade. Talvez estes espelhos decorram de um casal de tios maternos falecidos: tia Olga e tio Milton. Ela, dona de casa e yalorixá de umbanda. Ele, vidreiro. Ambos comungavam um gosto em comum: escolas de samba. Quando não era passista, compunha a ala das baianas; ele tocava agogô e tamborim nas escolas de terceiro grupo. Meu primeiro contato com estes mundos na companhia deles, se deu na Escola de Samba Primeira de Santo Estevão, nos anos 1970, sediada na Vila Carrão e nos terreiros de umbanda e candomblé existentes no entorno da Parada XV. Não vejo este quadro como caminho ou solução; vejo possibilidades potenciais, considerando formação, talentos, visão de mundo e vocações de cada um. Lembro de um casal de amigos, cujo pensamento a mim foi comungado: “Eu e o José Carlos temos projetos, após a criação e emancipação dos nossos filhos.” Pela primeira vez algo mais intimo me foi dito com sinceridade seminal. Acima de etnia, classe, gênero, posição, cito algumas referências:

- Abdias Nascimento e Elisa Larkim;

- Casal 20 – série televisa;

- Casal Denzel Washington e Paulleta Person e o filho John David Washington;

- Casal Eliane Dias e Mano Brown e filhos Jorge Dias e Domênica Dias;

- Casal Glória Menezes e Tarcísio Meira e Tarcísio Meira Filho;

- Casal Jada Pinket e Will Smith e os filhos Jaden e Willow;

- Casal Nicete Bruno e Paulo Goulart e Família;

- Jair Rodrigues e os filhos Luciana Mello e Jair Oliveira

- Lázaro Ramos e Taís Araújo;

- O casal Neide Lopes e Sidney de Paula Oliveira – escritores;

- Os irmãos Emicida e Fióti;

- Os Waltons – série televisiva;

- Wilson Simonal e os filhos Simoninha e Max de Castro;

Lembro os tempos de faculdade, onde um professor, vez ou outra citava um ensinamento do pai: “Sempre que fizer o número dois, antes da descarga, pense no que comeu e veja o que você fez.” Companheiras, companheiros e filhos de militantes costuma ser uma relação complicada por razões diversas, quando estes fogem da militância. Os filmes “Eles Não Usam Black-tie; “Sarafina”, “Indomável Sonhadora”, “Mãos Talentosas”; O Menino Que Descobriu o Vento”, Malcon X, sugerem reflexões. Faça uma pesquisa de campo com filhas e filhos de militantes, colete depoimentos. Com certeza você ouvirá cobras e lagartos a respeito. Sobretudo por parte de quem teve aspirações burguesas ou almejava família margarina. Não condeno. Crítica e autocrítica fazem-se necessárias e parte dos processos. Que família almejamos e podemos construir quando discutimos maternidade e paternidade preta? Cito novamente dois pensamentos oubinianos: 1) Lugares em construção sugerem pessoas em construção. 2) Toda opção tem preços e promissórias; escolhas gratuitas não existem.

DÚVIDA - Esmeralda Ribeiro

Se a margarida flor

é branca de fato

qual a cor da Margarida

que varre o asfalto?

Sugestão de exercício pessoal. Caso se permitam façam um exercício, a titulo de sugestão: Coloquem as mãos, a esquerda fechada na cabeça, acima da testa e a esquerda no tórax. Feche os olhos, respire pelo nariz e solte pela boca bem devagar. Através das suas mãos em ambos os pontos indicados, sinta profundamente as minas existentes em você. Perceba suas fortunas. Carregamos riquezas. Cada um a seu modo e com seu devido valor. Se não as cultivamos a nosso favor, há quem as explore em benefício próprio. Depois não reclamemos quando somos largados depois de sugados, cadavéricos, empobrecidos, inválidos.

Abra os olhos. Na dúvida, pesquise e relacione a Lei dos Sexagenários com tratamentos à terceira idade menos favorecida em termos de classe e de etnia. Com a massa desempregada. Com moradores em situação de rua. No período colonial tais atos exploradores, parasitas, sugadores, foram aplicados sobretudo de forma física, psicológica, religiosa, que apoiaram e sustentaram teses cientificas e sociais. Agora estamos na Sociedade da Informação. Assim como dinheiro, conhecimento é poder. Facebook, Google, Rede Globo, Silvio Santos, não chegaram onde chegaram ignorantes. Pense quantas vezes ao procurar emprego ou postar algo nas redes sociais. Nossas forças de trabalho e postagens servem de chaves, mas também de guilhotinas. Os impostos que pagamos e os trilhões que geramos precisam ser aplicados também em nós e voltar para nós através de círculos internos, em Movimentos Black Money. Se não me vejo, não compro. Precisamos criar mercados próprios e fortalecer empreendedores negros.

NÃO VOU MAIS LAVAR OS PRATOS - Cristiane Sobral - excerto

Não vou mais lavar os pratos.

Nem vou limpar a poeira dos móveis.

Sinto muito. Comecei a ler.

Abri outro dia um livro

e uma semana depois decidi.

Não levo mais o lixo para a lixeira.

Nem arrumo a bagunça das folhas que caem no quintal.

Sinto muito.

Depois de ler percebi

a estética dos pratos,

a estética dos traços,

a ética,

a estática.

Este semestre estamos estudando na SP Escola de Teatro a Semana de Arte Moderna de 1922. O termo antropofagia e o Manifesto Antropofágico tem norteado nossas discussões e proposições. Salvo equivoco ao meu ver a antropofagia está presente no Movimento Funk, no Movimento Negro, no Movimento de Mulheres, no Movimento 60+, no Movimento LGBTQIA+, nos Movimentos dos Povos Originários, nos Movimentos de Moradia, nos Movimentos Periféricos, apenas para citar. Manifestos e Movimentos estes que me remetem ao mestre Raulzito, em Metamorfose Ambulante: “Eu prefiro ser esta metamorfose ambulante. Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.” Se ontem houve campo fértil, quero crer que na atualidade não há mais espaço para verdades absolutas. As resistentes em trincheiras conservadoras e extremistas estão com dias contados. Se a Humanidade foi de fato gerada a partir do continente africano e se espalhou para o mundo, aceitemos ou não, gostemos ou não, todas as crenças, culturas, filosofias, nações, povos, riquezas, são afrodescendentes e também pertencem aos autodeclarados em África e diáspora negra. Se transcendermos essas e demais questões perceberemos que de algum modo temos praticado não somente disfuncionalidades familiares, mas também filicídios e fratricídios, a exemplo de feminicídios e de genocídios. Chega de fomes, gentrificações, penúrias, sangue derramado. Compartilhem, compartilhemos todos os banquetes, espólios, fortunas, identidades, territórios apropriados existentes. É desse modo quilombola que acredito na socialização do capital.

Lembro ter dito a uma das minhas filhas, a Selma Nyjingha, quando ela me comunicou ingresso no curso de Pedagogia, não houve inscritos suficientes para formar turma no curso de Assistente Social, que ela sonha e pretendia fazer: Procure ter a mente o mais aberta e democrática que puder. Sem perder as noções de atenção, civilidade, humanidade, respeitabilidade. Você vai se deparar com pessoas e públicos diversos. Guarde para si seus conservadorismos e aproveite para colocá-los em xeque perante ocorrências ou situações que exigem empatia, malungagem, sororidade. Ou seja: se colocar no lugar do outro e outro se colocar no seu lugar. A metodologia e obra do mestre Paulo Freire têm mais propriedade a respeito. Para ela não perder o norte inicial, informei que segunda graduação, na área de Administração, Comunicação Social, Educação e Humanas, é possível e com menor duração, no curso em que parte substancial da grade já cumprida está inclusa no curso pretendido. Em alguns casos é preciso ter em mente o espaço-tempo decorrido na conclusão de um para início de outro afins de usufruir este bônus. Algumas instituições estipulam prazo abaixo de dez anos, incluindo as EAD. A Univesp é uma delas. Se eu tivesse ingressado nela em 2018, puxaria somente dois anos de Licenciatura em Letras, em vez de quatro, por ter me formado em Publicidade na Fecap, em 2009.

CARTA DE LUIZ GAMA AO SEU FILHO

Meu filho, Dize a tua mãe que a ela cabe o rigoroso dever de conservar-se honesta e honrada; que não se atemorize da extrema pobreza que lego-lhe, porque a miséria é o mais brilhante apanágio da virtude.

Tu evitas a amizade e as relações dos grandes homens; eles são como o oceano que aproxima-se das costas para corroer os penedos.

Sê republicano, como o foi o Homem-Cristo. Faze-te artista; crê, porém, que o estudo é o melhor entretenimento, e o livro o melhor amigo.

Faze-te o apóstolo do ensino, desde já. Combate com ardor o trono, a indigência e a ignorância. Trabalha por ti e com esforço inquebrantável para que este país em que nascemos, sem rei e sem escravos, se chame Estados Unidos do Brasil.

Sê cristão e filósofo; crê unicamente na autoridade da razão, e não te alies jamais a seita alguma religiosa. Deus revela-se tão somente na razão do homem, não existe em Igreja alguma do mundo.

Há dois livros cuja leitura recomendo-te: a Bíblia Sagrada e a Vida de Jesus por Ernesto Renan.

Trabalha, e sê perseverante.

Lembra-te que escrevi estas linhas em momento supremo, sob a ameaça de assassinato. Tem compaixão de teus inimigos, como eu compadeço-me da sorte dos meus.

Teu pai Luís Gama.

A quem possa interessar indico algumas reportagens sobre Paternidade Preta, na Internet, a saber:

1) Paternidades pretas em pauta – Desafios e perspectivas. Por Luciano Ramos: “É muito difícil ser pai preto, pois além de todos os desafios que um pai encontra normalmente, eu ainda preciso educar meus filhos para conviverem com o racismo.” (relato de um pai participante de uma oficina sobre Paternidades e Cuidado em 2019).

2) Paternidade negra: ser pai negro significa ter cuidado redobrado. Por Mayara Penina: 'Josimar Silveira: “Nossa maior preocupação é desenvolver neles a autoestima através principalmente da representatividade, colocando-os em contato com um universo negro positivo, bonito, inteligente, grande. Bonecas, super heróis e artistas negro por exemplo, estão sempre presentes em nosso dia a dia”.

3) Racismo “científico” (origens das teses racistas na modernidade). Série Para não ser "idiótes": "O tamanho do cérebro define as raças “inferiores”. É nessa estupidez “médica” (como veremos detalhadamente mais abaixo) que residem as origens do “racismo científico” (do princípio do século XIX). Se até hoje vemos manifestações racistas em todas as classes sociais no Brasil é porque existem idiótes herdeiros dessa tese absurda que nunca ficou (nem nunca seria) comprovada: que os europeus e os norte-americanos brancos (“os superiores”) teriam o cérebro maior que o das outras raças, “as inferiores”.

4) Paternidade preta e a realidade desafiadora de pais viúvos. Por Alê César: “O cinema sempre contou histórias de superação e de relacionamento entre pais e filhos, que fizessem chorar como o inspirador ‘Em Busca da Felicidade’ (2016) ou provocar boas risadas como a comédia leve ‘Uma Família de Dois’ (2016). Embora protagonizados por atores negros, ambos não tinham como personagem central a paternidade preta e seus desafios. Paternidade (Netflix) já nos emociona desde o início, Matt (Kevin Hart) se vê viúvo e com uma filha recém-nascida após sua esposa Liz (Deborah Ayorinde) falecer por complicações no pós parto, em uma cena angustiante e de encher os olhos de lágrima.”

Os termos em voga e com bandeiras alusivas hasteadas são: autonomia, empoderamento, enfrentamento, ocupação, pertencimento, superação. Concluí que para conviver comigo, seja quem for, tem que estudar, trabalhar, ter um projeto de vida. Comparo cada ser como uma empresa que requer ser bem administrada, afins de cumprir o seus propósitos com longevidade e sem abrir pedidos de falências. Vi gigantes caírem. Vi reis destronados. Vi quem não sabia o preço de um absorvente recomeçar a vida praticamente do zero. Ou fez chantagem emocional com dependentes e devedores, e os sugou até tutano como se estes tivessem obrigação de amparar. Se antes já pensava e agia assim, depois que li Sun Tzu e seu A Arte da Guerra, assisti um docudrama baseado no citado livro, demais documentários e filmes emblemáticos relacionados, juntei casos presenciados ou relatados ao longo dos meus anos e percebi que não estava sendo impositivo nem viajando na maionese:

1) Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild), 2012. Sinopse: Hushpuppy tem seis anos e vive no delta de um rio na Louisiana, em uma comunidade isolada, com seu pai Wink. Sua mãe desapareceu há algum tempo. Quando uma tempestade levanta as águas ao redor de seu vilarejo, Wink subitamente adoece. Logo a natureza se altera e criaturas pré-históricas despertam de suas sepulturas congeladas, os aurochs. Ela vê seu harmônico universo em colapso."

2) Vida Maria, animação. Sinopse: "Conta a história de Maria José, uma menina de 5 anos de idade que é levada a largar os estudos para trabalhar. Enquanto trabalha, ela cresce, casa, tem filhos, envelhece." Disponível no Youtube.

3) A Arte da Guerra (Dublado) - History Channel. Disponível no Youtube. Sinopse: Documentário sobre as escritas de Sun Tzu, um general e estratégia chinês. Apesar de ser escrito como fonte de ensinamento na área da estratégia militar, é adaptável ao mundo dos negócios.

4) Baixio das Bestas, 2006. Sinopse: Na Zona da Mata pernambucana, região de canaviais que movimenta trabalhadores rurais e caminhoneiros, vive Auxiliadora, jovem de 16 anos explorada por seu avô, Heitor. O homem tem um discurso moralista mas não pensa duas vezes antes de exibir a neta nua por dinheiro em um posto de parada de caminhões. Na cidade mora o estudante Cícero, de família de classe média, que passa os fins-de-semana envolvido com álcool, drogas e orgias sadomasoquistas com as prostitutas de Dona Margarida, comandadas pelo doentio Everardo. Cícero vê Auxiliadora no posto e imediatamente a deseja, passando a segui-la pelas ruas. No campo, a moça chama a atenção do humilde Maninho, mas, apesar dela também se interessar por ele, o rapaz é afastado pelo avô e se ressente disso. 5) Eles Matam Mulheres, 2020. Documentário. TV Cultura. Disponível no Youtube. Sinopse: (...) produzido pela repórter Vanessa Lorenzini. A produção percorre quase 40 anos de luta contra a violência de gênero a partir das histórias de 13 mulheres. O especial destaca casos anônimos e também relembra crimes que chamaram a atenção da mídia. As sobreviventes de tentativas de feminicídio relatam suas vivências em primeira pessoa, enquanto as vítimas fatais ganham voz através de amigos e familiares. Os julgamentos são detalhados pelos promotores e advogados de acusação e defesa. Já especialistas analisam diversos aspectos relacionados ao feminicídio, como, por exemplo, o menosprezo à condição da mulher.

Sei que não devo generalizar. Cada caso é um calo. Como conheço admiráveis e inspiradores portadores de necessidades especiais de nascença ou em decorrência, digamos, de infortúnios e que me lembram um samba do mestre João Nogueira, pego-os por referência, incluindo atletas paraolímpicos:

O HOMEM DE UM BRAÇO SÓ - João Nogueira

Com um braço só,

Já fiz o que você não faria

Acho que era covardia,

Eu ter dois braços também

Neste e demais sentidos, eu não quero ficar na aba de ninguém, nem quero ninguém na minha sombra. Neste pensamento aplico a parábola bíblica do Gênesis 35:11. “Deus afirmou a Jacó: Eu Sou o Deus Todo-Poderoso. Sê fecundo e multiplica-te! Uma nação, uma assembleia de nações, nascerá de ti e reis estarão entre os teus incontáveis descendentes.” Conheçamos, frequentemos, pesquisemos ensinamentos e fundamentos filosóficos presentes no Candomblé, na Umbanda, nas religiões de matrizes africanas. Vejamos o que é possível aprender e apreender com elas nos contextos em que vivemos. Reza um provérbio africano: “Enquanto os leões não aprenderem a ler e a escrever, as histórias de caçadas continuarão a serem contadas pelos caçadores.”

Artes, cinema, cotidiano, música e literatura são minhas referências. Este ensaio não esgota questões neles levantadas, mas pretende ajudar e colaborar na pavimentação de horizontes, como diria Malcon X: "Por todos os meios necessários." Quando acordamos diariamente sãos e salvos, as arquitetas e os engenheiros do universo já fizeram a parte que lhe compete. Fomos levados até o meio do caminho. O restante do percurso cabe a nós concluirmos. Assim, Djavaneio em Soweto:

Kinshasa, Beirute, Maranhão

O negro que lute

Pra poder sonhar

Em mudar isso aqui

O poder tem tantas mãos

E só sabe mentir

Quanto mais se diz

E mais o povo quer eleição

Ninguém esperava ver

A terra estremecer

Com o apartheid

Deus salve Soweto

Carência e calor dos guetos

De cada canto do mundo

Meu amor

Com tantos assuntos

E eu a te adorar

Absurdo seria

Não pensar que é normal

Se armar todo dia

Para combater o mal

E o povo votaria

E assim eu amarei

A serra, a maré, o litoral

Deus salve Soweto

Subtrai de governos

Os que traíram esses não

Já tem gente demais a querer mandar

O povo quer florescer e ganhar a vida

Há muito - os Castigos a Adão e Eva e a Maldição de Cam - precisam ser revisionadas e parar de se perpetuarem reprodutoras e destrutivas em outras instâncias e relações. Histórias e referências reparadoras, afrodescendentes e de outros povos não nos faltam. Espero estar ajudando a pavimentar horizontes. Se cuide, nos cuidemos, Riquezas. Voe! Click, Click, Click

Oubi Inaê Kibuko (@oubifotografia), Cidade Tiradentes para o mundo, outubro/2021.

#afroafetonet; #afroeducação; #cabeçasfalantesblog; #letraspretas; #nóspornósmesmos; #oubifotografia; #oubisolidário; #pedagogiapreta; #somosmalungosinterdependentes; #vidasevozesnegrasimportam;

Texto disponível na integra em:

1) Cabeças Falantes blog: http://tamboresfalantes.blogspot.com/2021/10/apontamentos-e-referencias-sobre.html

2) Comunidade Recanto das Letras: https://www.recantodasletras.com.br/artigos-de-educacao/7369294

CONTATOS

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REFERÊNCIAS CITADAS:

- Amor Livre. Verbete. Wikipédia. Em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Amor_livre

- NETO, Agostinho. Poeta e presidente angolano. Do povo buscamos a força, poema.

Fonte eletrônica portal Marxists: http://www.marxists.info/portugues/neto/ano/mes/povo.htm

- RIBEIRO, Esmeralda. Dúvida. Poema. Cadernos Negros.

Literafro: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/29-critica-de-autores-feminios/246-o-politico-e-o-literario-na-escrita-de-esmeralda-ribeiro-critica

- TRINDADE, Solano. Negros. Poema. Portal Geledés: https://www.geledes.org.br/solano-trindade/

- SOBRAL, Cristiane. Poema. Fontes: Cadernos negros 23 - poemas afro-brasileiros, 2000.

Literafro: http://www.letras.ufmg.br/literafro/24-textos-das-autoras/932-cristiane-sobral-nao-vou-mais-lavar-os-pratos

- GUIMARÃES, Geni Mariano. Explicação. Fontes: Balé das emoções, p.74.

Literafro: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/29-critica-de-autores-feminios/269-geni-guimaraes-uma-escritora-negra-critica

- EVARISTO, Conceição. Fontes: Poemas de recordação e outros movimentos, p. 10-11.

Literafro: http://www.letras.ufmg.br/literafro/autoras/24-textos-das-autoras/923-conceicao-evaristo-vozes-mulheres

- GUIMARÃES, Geni Mariano. Terceiro Filho - poemas e pensamentos, Editora Jalovi, 1979.

- LEE, Rita. CARVALHO, Roberto de. On The Rocks. Em: https://www.letras.mus.br/rita-lee/68844/

- NOGUEIRA, João. O homem de um braço só: https://www.youtube.com/watch?v=lcOVukHQuU8

- 509-E. Oitavo Anjo. Dexter. Rap. Fonte: https://www.letras.mus.br/509-e/369962/

- Djavan. Soweto. Canção. https://www.letras.mus.br/djavan/85914/

- RAMOS, Luciano. Paternidades pretas em pauta – Desafios e perspectivas. Texto e foto ilustrativa.

Em: https://promundo.org.br/paternidades-pretas-em-pauta-desafios-e-perspectivas/

- PENINA, Mayara. Paternidade negra: ser pai negro significa ter cuidado redobrado.

Em: https://www.geledes.org.br/paternidade-negra-ser-pai-negro-significa-ter-cuidado-redobrado/

- GOMES, Luiz Flávio. Racismo “científico” (origens das teses racistas na modernidade). Série Para não ser "idiótes".

Em: https://professorlfg.jusbrasil.com.br/artigos/254945905/racismo-cientifico-origens-das-teses-racistas-na-modernidade

- CESAR, Alê. Paternidade preta e a realidade desafiadora de pais viúvos.

Em: https://mundonegro.inf.br/paternidade-preta-e-a-realidade-desafiadora-de-pais-viuvos

- KIBUKO, Oubi Inaê. Minhas Filhas. Publicado originalmente em Canto à negra mulher amada, poemas, 1986. Revisitado e ampliado em 2015.

- SANTOS, Marcelino dos. Para uma moral. Poema. ANDRADE, Mário Pinto de. O canto armado. Antologia Temática de poesia africana. Sá da Costa Editora, Lisboa, 1979, pg. 98 à 108. Acervo e formatação para esta página: Oubi Inaê Kibuko.

Em: https://www.recantodasletras.com.br/poesias-patrioticas/34439

- GAMA, Luís. Carta de Luís Gama a seu filho.

Em: https://pt.wikisource.org/wiki/Carta_de_Luis_Gama_a_seu_filho

- MOREIRA1, Raquel. Tenho namorado e sou lésbica??? Mundo Psicólogos. Fevereiro, 2018. Em: https://br.mundopsicologos.com/comunidade/tenho-namorado-e-sou-lesbica-22778

- BROETTO, Nicole. 35 filmes com a temática LGBTQ+ que você precisa assistir. Dicas de Mulher. Reportagem eletrônica em: https://www.dicasdemulher.com.br/filmes-lgbtq/

- RIBEIRO, Stephanie. Portal Geledés. 6 filmes para entender por que a prostituição infantil é um problema no Brasil. Indicação comentada e com sinopses. Em:https://www.geledes.org.br/6-filmes-para-entender-por-que-prostituicao-infantil-e-um-problema-no-brasil/

* Oubi Inaê Kibuko. Nasceu em São Paulo, capital, bairro Tucuruvi, zona norte, em 26/10/1955. Empurrada pela especulação imobiliária, a família mudou-se para a zona leste, Parada XV de novembro, em 1967. Desde 1988 reside na COHAB Cidade Tiradentes. Graduado em Publicidade/FECAP e formado em Audiovisual/ELCV, é fotógrafo, escrevinhador, mentor e editor do blog Cabeças Falantes - arte, cultura, publicidade social. Negro em movimento solidário colabora com indivíduos e coletivos da região, atuantes no cenário educativo-sócio-cultural. Atualmente cursa Técnicas de Iluminação Cênica na SP Escola de Teatro e Licenciatura em Letras/Univesp. Almeja mestrado em Antropologia das Artes, Antropologia Cultural ou Antropologia Audiovisual.

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