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O ESTILO VAI SENDO CONSTRUÍDO, MOLDADO. Entrevista concedida por Luiz Carlos Amorim a Cissa de Oliveira

Luiz Carlos Amorim é natural de Corupá (SC), onde nasceu em 16 de fevereiro de 1953. É formado pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Joinville. Bancário aposentado, reside em Florianópolis. É fundador e coordenador do Grupo Literário A ILHA, que completa, no ano de 2009, VINTE e NOVE anos de existência e resistência – único órgão cultural a permanecer tanto tempo na luta. É editor das Edições A ILHA, com mais de 50 títulos já publicados, além do Suplemento Literário A ILHA, revista trimestral que reúne a produção dos integrantes do grupo, de escritores do estado, do país e até do exterior, com 28 anos de circulação e da revista Mirandum, da Confraria de Quintana. Tem 24 livros publicados, de poesia, de crônica, de contos, infantil e de história literária.
Luiz Carlos Amorim participou de dezenas de antologias no Brasil e quatro em outros países. Publica trabalhos em várias revistas e jornais no Brasil e exterior - tem trabalhos publicados na India, Rússia, Grécia, Estados Unidos, Portugal, Espanha, Cuba, Argentina, Uruguai, Inglaterra, Itália e outros, e obras traduzidas para o inglês, espanhol, bengalês, grego, russo, italiano - além de colaborar com vários portais de informação e cultura na internet.
 
1) Cissa de Oliveira: Luiz, é sabido que você é um pioneiro em lançar “novos espaços” para a poesia, como por exemplo o Poesia no Shopping, Poesia na Rua, Pacote de Poesia,  Poesia Carimbada, Poesia na Escola, etc. Poderia nos falar sobre eles quanto à dinâmica e se algum deles existe de forma ininterrupta?

Luiz Carlos Amorim: Pois é, Cissa, esses projetos foram surgindo com o tempo, com a necessidade de novas maneiras de divulgar a poesia. Começamos com o Varal da Poesia e o Recital de Poemas, nas praças, nas feiras, nas escolas, bares, etc. e nos anos 90 o varal transformou-se em Poesia no Shopping, pois os tempos assim o exigiam, já que a maior concentração de público passou a ser nos shoppings. Esse trabalho continua em alguns shoppings, em escolas e nas feiras do livro. O projeto Poesia na Rua é mais dispendioso, ele implica na produção de outdoors e no aluguel dos tapumes. Por isso, não tem uma periodicidade. Quanto conseguimos recursos ou uma pareceria com alguma empresa de out-doors, entra em ação o Poesia na Rua. O Pacote de Poesia é um livro de formato diferente: as páginas são folhas soltas dentro de um pacote pardo (tipo de pão), que se transforma na capa do livro. Já tivemos três edições e brevemente teremos outra. Poesia Carimbada é um projeto sempre em ação, onde o grupo vai ele pode ser aplicado. Apenas renovamos os carimbos com novos poemas de tempos em tempos. O projeto Poesia na Escola é o mais barato e um dos que dá muito retorno, pois como é uma apresentação com poemas de integrantes do grupo, ele pode ser enviado por e-mail e só depende dos professores usar o material ou não. Tem dado resultado, pois somos convidados para comparecer a algumas escolas para conversar com os alunos.
 
2) Cissa de Oliveira: “... os projetos foram surgindo com o tempo, com a necessidade de novas maneiras de divulgar a poesia...” Então, considerando que as pessoas aderem aos projetos, se poderia dizer que apesar do caos cotidiano sempre há espaço para a poesia. Na sua opinião, o que mais contribui para a criação artística: um mundo maravilhoso ou um mundo mais conturbado?

Luiz Carlos Amorim:  Sim, eu acho que tem que haver tempo para a poesia, ou então o ser humano ficará totalmente insensível, duro, muito mais do que é hoje. A poesia e a infância são nossas esperanças de salvação. Se soubermos educar nossos filhos, quem sabe o amanhã não será melhor? Eu diria que o que contribui mais para a criação artística é o fato de podermos ver – não só os poetas, mas talvez mais eles – que o mundo ainda é bonito, apesar do caos, apesar do desrespeito à natureza e ao ser humano. É a capacidade de ver essa beleza, olhar com olhos de poeta que faz com que tentemos mudar esse estado de coisas que torna o mundo um lugar tão perigoso de se viver. E ao mesmo tempo tão bom. Depende de nós.

3) Cissa de Oliveira: Você já publicou em Grego, Bengalês, russo, grego, italiano, inglês, espanhol, entre outros idiomas.  Estas publicações são de obras avulsas ou todos são livros, a exemplo do “The Color of the Sun”, a versão inglesa do seu livro “A cor do Sol”?
 
Luiz Carlos Amorim: Livros tive apenas três publicados lá fora: Esse que você citou em inglês, a versão dele em espanhol e “The Poet”, também publicado pela IWA – International Writer Association (USA), do qual faço parte. No mais, são poemas e textos traduzidos para outros idiomas que são publicados em jornais, revistas e portais pelo mundo.
 
4) Cissa de Oliveira: É longa a sua trajetória literária; mais de trinta anos. Você pôde se dedicar exclusivamente à sua vida de escritor ou isto foi algo paralelo com outras atividades profissionais?
 
Luiz Carlos Amorim: Há quase dois anos estou aposentado, então posso dizer que me dedico exclusivamente a ler e escrever. É claro que tenho atividades como dança, tai-chi, hidro, musculação, caminhada,  edito duas revistas e faço a manutenção/atualização do portal Prosa, Poesia & Cia. do Grupo Literário A ILHA, mas posso me dedicar muito mais agora a escrever, tanto que colaboro com centenas de jornais, revistas e sites no Brasil e pelo mundo afora. E posso, também, me dedicar mais aos meus livros, procurar editoras para publicá-los. Até me aposentar, para ler e escrever tinha que dividir muito bem o tempo, roubar um pouquinho do tempo com a família, que do trabalho não havia como prescindir. Mas valeu a persistência, porque hoje, graças a Deus, sou reconhecido e respeitado no meio.
 
5) Cissa de Oliveira: Eu li uma crônica sua onde você fala sobre a “doação de livros”. Você acredita que se a condição financeira dos brasileiros fosse outra elas comprariam mais livros?
 
Luiz Carlos Amorim: Quero acreditar que sim. Digo isso porque quando há coleções literárias à venda nas bancas de revistas e jornais, vende tudo. Os sebos vendem muito livro, principalmente os mais atuais, que muita gente compra, lê e depois vende para o sebo, pois muitas vezes não têm onde guardar. Então acho, sim, que se a condição financeira dos brasileiros fosse melhor, comprariam muito mais livros, até porque a educação e a cultura também seriam mais apuradas, o que por si só já significa mais leitura.
 
6) Cissa de Oliveira: “Mirandum” é uma publicação que você coordena e edita. Você poderia falar um pouco sobre esta que é a Confraria Mário Quintana?
 
Luiz Carlos Amorim:  Os editores da Mirandum, na verdade, somos eu e a Maria de Fátima Barreto Michels, de Laguna. Ela teve a idéia e eu a adotei, pois sou admirador inconteste do poeta Quintana. A Confraria de Quintana é uma tentativa de reunir numa mesma publicação todos aqueles escritores que são leitores do grande poeta. É uma reunião de gente que gosta do que Quintana escreveu e que escreve sobre a obra dele e sobre ele, também para combater aquele mania de alguns "formadores de Opinião" ou "críticos de literatura" que insistem em colocar em dúvida a grandeza de Quintana. Então a Confraria de Quintana existe e publica a Mirandum para dizer ao mundo que Quintana é, sim um dos maiores, senão o maior poeta do Brasil.
 
7) Cissa de Oliveira: Na sua opinião o estilo é algo mais ligado à decisão do escritor ou seria o resultado da soma de fatores como a cultura, experiência e amadurecimento de cada um?
 
Luiz Carlos Amorim: Penso que seria o resultado da soma de fatores como a cultura, experiência e amadurecimento de cada um, pois o estilo é uma coisa que raramente está definida na primeira obra do escritor. O estilo vai sendo construído, moldado, com a prática.
 
8 - Cissa de Oliveira: Algum autor em especial influenciou você durante a sua trajetória de escritor?
 
Luiz Carlos Amorim: Quando comecei a escrever, lá pelos quatorze, quinze anos, eu lia, ainda, apenas os clássicos da literatura brasileira. Logo em seguida comecei a ler os grandes clássicos universais e os grandes contemporâneos. Descobri, também, Quintana, Coralina, Pessoa, Amado. Então, acho que querendo ou não, Quintana e Coralina me influenciaram. E Urda e Dr. Enéas Athanázio também, pois sempre os li, desde que começaram a publicar.
 
9) Cissa de Oliveira: Atualmente, com a internet, temos oportunidade de conhecer os textos de inúmeras pessoas, principalmente as poesias. Isto poderia ser um indicador de que as pessoas gostam sim, de poesia? Então porque será que poesia não vende tanto quanto os romances?
 
Luiz Carlos Amorim:  A Internet é uma vitrine democrática, onde qualquer um pode colocar a sua produção, seja ela boa ou não. O que não significa que vai ser lido. Nem tudo é lido. O que é bom se destaca, ganha mais visibilidade. É óbvio que com o advento da internet, a poesia é muito mais lida do que se ela não existisse. Mas quem gosta mesmo lê na internet, até copia para ter e ler mais vezes, mas compra livro também.
 
10) Cissa de Oliveira:  Ainda com relação à pergunta anterior, a gente poderia pensar que muitas destas pessoas escreveriam poesia apenas como um meio de extravasar os seus sentimentos, conversar com o papel. Pessoalmente eu acho cansativo ler três, quatro, cinco poesias sentimentalóides. Será que esta característica é o que afasta os leitores e compradores de livros de poesia?
 
Luiz Carlos Amorim:  Sim, você tem razão, há muita gente que escreve pensando que está fazendo poesia, mas na verdade não está. Muita vez é prosa em forma de verso, e prosa ruim. E não é nada agradável ler um poema que não é poema e não contém poesia. E nem sequer é uma boa prosa. Isso pode afastar o leitor. Eu imagino um leitor que não costumava ler poesia, tentando aderir a ela e ter o azar de lhe cair às mãos, logo de cara, uma coisa ruim. Esse leitor vai voltar para o romance, para o conto, etc e não vai querer mais saber de poesia.
 
11) Cissa de Oliveira: Na sua crônica “Para Gostar de Ler” você fala sobre a importância de haver livros em casa, despertando a curiosidade da criança, e também do papel da escola neste processo de amor aos livros e aos descobrimentos implícitos a eles. Não é segredo que grande parte dos o jovens e crianças de hoje não conseguem ler, além de poucos serem aqueles capazes de interpretar um texto, além de escreverem errado. Na sua opinião, a que se deve este fiasco na Educação atualmente?
 
Luiz Carlos Amorim: Esse fiasco tem muitas causas. A educação de nossos filhos mudou muito, de umas duas ou três gerações para cá. Então deixamos nossos filhos fazerem o que querem, para não nos incomodarmos, não lhes damos muitos limites e a liberdade excessiva faz com que eles façam escolhas erradas ou não muito saudáveis. E a escola vai pelo mesmo caminho. A educação está cada vez mais fraca e as crianças, às vezes, passam de ano sem merecer. Os pais e os professores já são das gerações permissionistas, da liberdade exagerada, da televisão em demasia, da internet, dos jogos, etc. Então é um círculo vicioso.
 
12) Cissa de Oliveira: Parabéns pelo lançamento do seu "Livro de Natal", que ele faça muito sucesso, para o bem dos leitores e que sejam muitos! Fale sobre o lançamento deste livro tão especial.
 
Luiz Carlos Amorim: O "Livro de Natal" teve a sua segunda edição lançada neste final de 2008, ampliada com novas crônicas e novos contos, e foi muito bem recebido pelos leitores. Não é comum um livro de autor da terra vender bem em feira do livro, mas Livro de Natal vendeu vários exemplares. Agora vou partir para a composição de um livro só de contos de Natal, para o próximo ano. O tema é cativante tanto para quem escreve como para quem lê.
 
13) Cissa de Oliveira: Uma pergunta curiosa, em função da época e do seu livro: eu tenho conhecido pessoas que dizem "não acreditar em Deus". O estranho é que elas arrumam presépio no Natal, os filhos casam na Igreja e até fazem promessa. Será que declarar "não acreditar em Deus" traz alguma forma de status nestes tempos atuais?

Luiz Carlos Amorim: Eu não tinha pensado nisso, mas acho que você pode ter razão. Dizer que não se acredita em Deus causa polêmica e que melhor maneira de se manter em evidência do que provocar polêmica? Deve ser muito difícil não acreditar em uma força superior, não importa o nome que se lhe dê. Porque há que haver uma força superior que rege o universo, isso é inegável.
 
14) Cissa de Oliveira: Luiz, o que você mais gostaria de fazer, em termos literários, em 2009?
 
Luiz Carlos Amorim: Os planos literários para 2009 são muitos. Como já tinha mencionado, pretendo escrever mais contos de Natal para compor um livro só de contos sobre o tema. Também quero publicar dois livros infantis, um livro de poemas (antologia da minha produção), um livro de crônicas e pretendo conseguir uma editora para a segunda edição do livro "Escritores Catarinenses e o Grupo Literário A ILHA", que talvez passe a se chamar "A Nova Literatura Catarinense". Meio exagerado, talvez. Mas pretendo trabalhar para cumprir essa meta. Se não der para fazer tudo, já terei planos para mais adiante. O importante, mesmo, é continuar trabalhando. Além das metas individuais, pretendo continuar com a revista e o portal do Grupo Literário A ILHA, proporcionando espaço para escritores de toda parte e também a revista Mirandum, em parceria com a Fátima de Laguna, para continuarmos a agregar admiradores de Quintana.
 
15 – Cissa de Oliveira: Você gostaria de deixar alguma mensagem especial para os seus leitores?

Luiz Carlos Amorim: Sim, que lessem, lessem muito, de tudo e também e principalmente, conheçam os escritores da terra de cada um, os escritores que estão perto. E se gostarem, deem livros deles de presente para amigos que gostam de ler.
 
16- Cissa de Oliveira: Obrigada Luiz, pela sua entrevista... Fique à vontade para acrescentar qualquer coisa que eu tenha me esquecido de perguntar.
 
Luiz Carlos Amorim: Fico muito lisonjeado por ser entrevistado por você, por ter a oportunidade que você dê a conhecer um pouquinho de mim aos seus leitores. Sou um cara simples, que gosta da família, da natureza, de ler e escrever, de conhecer pessoas, de conhecer novos lugares. Que não se preocupa muito mais com horários, mas que não perde a hora para fazer tai-chi, hidroginástica, musculação, dança de salão. Para caminhar, ler e escrever, não há necessidade de agendar hora. Vou dedicar um bom tempo, isto sim, a revisar meus escritos e adequar tudo à nova ortografia. Mais sobre mim e o meu trabalho pode ser encontrado no portal PROSA, POESIA & CIA., em http://br.geocities.com/prosapoesiaecia , nas páginas Escritores de SC e Grupo Literário A ILHA.
 
Cissa de Oliveira é o pseudônimo literário de Maria Sileuda Moreira de Oliveira que é cearense e moradora em Campinas – SP. É bióloga, doutora em Genética e Biologia Molecular e atua na área da Saúde e da Educação. A autora foi premiada com a publicação do seu livro de crônicas “A pontinha das páginas” (2007) no concurso “Prêmios Literários Cidade de Manaus”. Além de possuir livros de poesias, crônicas e infantis registrados na Biblioteca Nacional (inéditos) a autora participou de oito antologias no Brasil e no exterior, a mais recente, “Dez Rostos da Poesia Lusófona na XX Bienal Internacional do Livro em São Paulo”, 2008.cissa.oliveira@gmail.com
 
Entrevista realizada entre dez/2008 e Jan/2009
Cissa de Oliveira
Enviado por Cissa de Oliveira em 01/12/2009
Reeditado em 18/10/2013
Código do texto: T1954050
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Cissa de Oliveira
Campinas - São Paulo - Brasil
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Cissa de Oliveira