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SAMUEL CÂMARA - CALADO, MAS NEM TANTO

Presidente da igreja-mãe das Assembleias de Deus – a AD de Belém (PA) –, Samuel Câmara fala sobre sua vida ministerial, critica o continuísmo na CGADB e convoca o rebanho assembleiano para as comemorações do centenário da denominação

Seja por interpretação bíblica, ou puramente linguística, há quem ainda confunda o adjetivo “pródigo” com o “prodígio”, palavras de grafias bem parecidas e significados completamente diferentes. Quem conhece as Escrituras Sagradas, no entanto, não tem lá muitas dúvidas; afinal, a Parábola do Filho Pródigo (Lc 15.11-32) é bem clara ao ilustrar a volta do caçula à casa do pai depois de gastar toda a sua parte na herança. Samuel Câmara, presidente da Assembleia de Deus de Belém (PA) nunca foi um filho pródigo, mas prodígio. Nascido em lar cristão, aos sete anos ele já fazia parte do coral da igreja: primeiro tocando acordeon, depois escaleta, trompete, trombone, tuba, enfim, até se tornar maestro. Foi assim que começou sua trajetória evangelística, e hoje o pastor pode se orgulhar tanto pela aptidão musical e ministerial como pelo brevê de piloto privado conquistado décadas mais tarde à custa de muitas horas de voo. Duas atividades aparentemente antagônicas, mas que, no decorrer dos anos, tornaram-se seus principais instrumentos de evangelização – a música para edificar corações, e a aviação para alcançar povos sedentos por orientação cristã em comunidades de difícil acesso por via terrestre na Amazônia. “As distâncias eram grandes e a obra de visitação nos tomava muito tempo. Então, brevetei-me e Deus me usou para mobilizar a igreja até que comprássemos um avião – um anfíbio, aquele que aterrissa na água e em solo”, explica.

Adolescente ainda, ele deixou sua cidade natal, Cruzeiro do Sul (AC), para se ingressar no Instituto Bíblico das Assembleias de Deus, em Pindamonhangaba, munido pelo propósito de se preparar adequadamente para exercer a vocação ministerial. Tempos difíceis, sobretudo de adaptação, mas o sacrifício valeu a pena. Do interior paulista, ele retornou à região amazonense levando na bagagem o diploma de teólogo – um jovem teólogo. Posteriormente, concluiria os cursos de Filosofia, Pedagogia e Direito. Aos 23 anos, foi ordenado ao ministério pastoral pelo pastor Alcebíades Pereira Vasconcelos para atuar como auxiliar em Manaus, sendo em seguida designado para evangelizar na região ribeirinha do Estado, mais precisamente no vilarejo de Puraquequara. “Ele [Alcebíades] foi um exemplo de seriedade com obra de Deus, de apego à cultura, ao estudo e de apoio às gerações mais novas da igreja”, resume. Na mesma época, fundou o Instituto Bíblico da Assembleia de Deus no Amazonas (IBADAM) e constituiu família com Rebekah Joyce, cuja “corte” iniciou nos tempos de estudo. O casamento rendeu-lhe não somente uma companheira e conselheira, mas também três filhos, todos orientados de acordo com os princípios bíblicos apregoados pelo pai.

Como presidente da igreja-mãe das Assembleias de Deus, cargo que ocupa desde 1997, Samuel Câmara tem obtido grande êxito em ações sociais e em números: a quantidade de templos chegou a 474 só na capital paraense, contabilizando mais de 120 mil membros; ou seja, um em cada 11 habitantes da região metropolitana. No Estado, são cerca de 750 mil fiéis distribuídos em aproximadamente 4500 células. Satisfação? Em termos evangelísticos, total; nas questões estatutárias, nem tanto. “Como igreja a Assembleia de Deus é excelente, mas como instituição manipulada por convenções, ministérios e sindicatos de pastores é um desastre”, acusa, referindo-se, principalmente, a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), com a qual confessa manter uma ligação apenas formal, e que a possibilidade de uma nova candidatura presidencial – ele foi candidato em 2009 – independe de sua vontade. “O futuro a Deus pertence, e é ele quem sabe o que pode acontecer”. No momento as atenções estão totalmente voltadas para o centenário da denominação, a ser comemorado em 18 de junho. É o que garante o assembleiano, que se diz rigoroso consigo mesmo e muito calado. “Falo pouco e ajo muito”, sintetiza. Acompanhe e tire suas conclusões:

JDM – Quais são as suas expectativas e como estão os preparativos para o centenário da Assembleia de Deus, em Belém?
PASTOR SAMUEL CÂMARA – Como berço das Assembleias de Deus, todos os anos a cidade de Belém celebra o aniversário da igreja em grande estilo. No centenário, isso não poderia ser diferente. Aliás, será especial, com uma programação à altura do tamanho da denominação. O pico principal será nos dias 16, 17 e 18 de junho de 2011, e a expectativa é de recebermos 450 mil pessoas. Estamos preparando a cidade, inaugurando a Avenida Centenário, um museu nacional e um centro de pesquisa da história da igreja. Haverá ainda um centro de convenções – também com o nome de Centenário – para as nossas celebrações. Será marcante, sim, e eu espero que o “vento” do poder de Deus possa alcançar o Brasil e encher os corações daqueles que aqui estiverem.

Como escritor e blogueiro, o que o senhor tem dissertado ultimamente?
Centenário. Basicamente, o meu assunto tem sido o centenário da Assembleia de Deus.

O senhor foi praticamente um “prodígio” em relação à música, tanto que na infância já fazia parte do coral da igreja. Como foi essa experiência, e o que o levou a fazer o curso de pilotagem?
Realmente comecei a estudar música muito cedo, mais precisamente aos sete anos: acordeon, escaleta, trompete, trombone, tuba, e assim por diante. Depois, tornei-me maestro da banda e do coral da igreja. O curso de pilotagem veio bem depois, aos 30 anos, pela necessidade de visitar as igrejas amazonenses. As distâncias eram grandes e a obra de visitação nos tomava muito tempo. Então, brevetei-me e Deus me usou para mobilizar a igreja até que comprássemos um avião – um anfíbio, aquele que aterrissa na água e em solo. Visitar as comunidades no grande Estado do Amazonas foi uma das experiências mais gostosas e maravilhosas de toda a minha vida.

O senhor assumiu a presidência da Assembleia de Deus de Belém em 1997, sucedendo o pastor Firmino da Anunciação Gouveia que, por quase três décadas, esteve à frente da igreja.  O que mudou de lá para cá e qual a avaliação que o senhor faz do seu trabalho evangelístico e ministerial?
Sem dúvida nenhuma que promovemos uma mudança de estilo, passando de uma administração mais centralizada para uma mais delegada. Graças ao fortalecimento dos trabalhos nos bairros e à intensificação de nossa força evangelística e atividade missionária, tivemos um crescimento significante no número de templos e de pessoas que se converteram e se tornaram membros da igreja em função dessa delegação. Realizamos um evangelismo mais aberto no sentido de valorizar e alcançar as diversas faixas etárias que compõem o nosso ministério, focando, principalmente, o público jovem.

É muita responsabilidade?
Claro, suceder o pastor Firmino da Anunciação Gouveia, com 29 anos de pastorado, e liderar a igreja-mãe das Assembleias de Deus no Brasil não foi e não está sendo fácil. Contudo, é sempre uma vitrine e uma grande satisfação ter começado esse trabalho e adquirido a confiança de tantos fiéis. Isso hoje é uma realidade.

Há alguma estatística atual sobre o número de templos e de membros da denominação?
Não há estatísticas muito apuradas, mas eu posso dizer que aqui em Belém temos 120 mil membros distribuídos em 474 templos. No Estado do Pará, são aproximadamente 4500 templos e 750 mil fiéis; já no país inteiro, eu estimo de um modo bem realista que os assembleianos somem 12 milhões e cerca de 90 mil igrejas.

É correto dizer que praticamente todas as cidades brasileiras têm, ao menos, uma célula da Assembleia de Deus? Se não, essa é ainda uma meta a ser alcançada?
A Assembleia de Deus é a mais ramificada e capilarizada igreja do país, tanto que está em todas as vilas, ruas, estradas, aldeias, nos lugares mais simples que se possa imaginar. Entretanto, ainda há muito que fazer, principalmente nos locais mais sofisticados e de classes sociais mais elevadas.

Ultimamente, tem se observado numa maior adesão da Assembleia de Deus aos meios de comunicação como ferramentas de divulgação da Palavra. Como a igreja faz uso desses recursos e qual é a importância desse aparato tecnológico para a causa evangelística?
Pois é, a Assembleia de Deus sempre foi muito arredia e tímida no uso das comunicações de massa, tanto que no passado chegou até a demonizar e excluir membros que se valiam desses recursos. Atualmente, há profissionais de rádio, televisão e outras mídias, como membros ou líderes de muitas igrejas no norte do país, sobretudo no Amazonas e no Pará. Entretanto, não há nenhuma iniciativa nacional apoiada pela Convenção Geral. Sei que ainda há muitos tabus a serem quebrados, mas os meios de comunicação ainda não se firmaram como usos característicos da denominação.

Na época da última eleição para a presidência da CGADB, realizada em 2009 em Vitória (ES), houve um imbróglio envolvendo algumas centenas de votos, desconsiderados por questões estatutárias. O que, de fato, aconteceu? Se não fossem desconsiderados, esses votos poderiam ter alterado o resultado das eleições?
Desde 2005, no Rio de Janeiro, quando eu me elegi vice-presidente da entidade contra a vontade daqueles que lá estão há 20 anos, que a liderança da nossa igreja tem passado dificuldades em conduzi-la. Na verdade, não tivemos notícia de nenhuma grande conquista em termos denominacionais. As eleições têm demonstrado um grande esforço dos nossos irmãos em liderar um continuísmo na CGADB, mantendo-se no poder e asfixiando qualquer “sopro” novo que venha a ser levantado por Deus ou por um grupo de pastores para sucedê-los. Sobre as eleições de Vitória eu prefiro não comentar, mas muitas manobras e manipulações ocorreram e ocorrem com a finalidade de manter, mesmo que ilegitimamente, os que continuam no poder. Só que uma coisa é a Convenção Geral e outra são as igrejas, autônomas, independentes e que não admitem intromissão convencional.

Desde então, ficaram algumas arestas? Como é seu relacionamento com o pastor José Wellington Bezerra da Costa, atual presidente da CGADB?
É um relacionamento protocolar e fraterno no sentido de irmãos. Quanto a sistemas de liderança e metodologia, nós somos totalmente diferentes.

Qual é a sua ligação com a CGADB atualmente?
Minha ligação com a Convenção Geral é também bastante formal, sem grande apego. Creio, contudo, que a entidade tem se distanciado de sua finalidade.

O senhor tem a intenção de se candidatar novamente à presidência?
Embora eu me manifeste completamente decepcionado com a metodologia – escondida ou secreta – da Convenção Geral acerca seus membros e de sua forma de eleição, sinceramente eu não sei se me canditaria novamente no futuro, mesmo porque o futuro a Deus pertence, e é ele quem sabe o que pode acontecer.

Como o senhor vê a participação das igrejas em atividades sociais e comunitárias?
Claro que a igreja não pode desvirtuar de sua grande prioridade, que é a evangelização e o cuidado espiritual, atividades que nenhuma outra instituição consegue fazer com tamanha propriedade. No entanto, a participação social também é importante e as igrejas devem cooperar com os órgãos públicos, participando ativamente de ações em favor das comunidades e dos necessitados.

Ao longo de sua gestão pastoral, quais os principais trabalhos de ordem social que têm sido realizados pela Assembleia de Deus em Belém do Pará?
Por 14 anos ininterruptos, nós mantemos um programa chamado “Missão contra a Fome”, antes mesmo que qualquer governo tivesse uma iniciativa dessa natureza. Diariamente, é distribuído o equivalente a 1500 quilos de alimentos – mais de 500 mil quilos anualmente –, levados diretamente às casas ou às praças onde as pessoas estão passando fome.

Qual o papel que as igrejas devem desempenhar na conjectura política do país? Nesse sentido, é correto misturar religião com política?
A democracia é liderada por representantes da população, e a igreja é um grupo social, uma comunidade. Eu acho absolutamente legítimo que a “instituição” igreja seja representada perante todos os segmentos de poder. Não precisa fazer nada mais do que isso, mas ela também não deve ser omissa, sem participação nenhuma nos poderes executivo, legislativo e judiciário. Não creio que isso é misturar religião com política. Afinal, temos todos que fazer valer o sagrado direito de voto e escolha.

Qual é, então, sua opinião sobre certos pastores-políticos que se utilizam dos púlpitos para angariar votos em épocas de eleições?
Cada um de nós deve cumprir a missão que recebeu do Senhor. Se for para pastorear, então que o pastor se dedique a isso. Todavia, acredito que Deus levanta pessoas dentro da igreja com vocação parlamentar, de liderança executiva e jurídica. Assim como apoiamos um professor para que ele seja bom no que faz, a igreja também deve prestar seu apoio aos que têm afinidade política para que exerçam essa atividade e também glorifiquem o nome do Senhor. Sei que às vezes alguns erram e mancham o Evangelho de Cristo, mas isso ocorre em qualquer segmento. É claro que o púlpito deve ser usado para a proclamação do Evangelho e não para fazer política, mas é um lugar onde podemos também orientar os irmãos no bom exercício da cidadania.

O senhor se vê como um pastor mais conservador ou liberal?
Eu me considero um pastor moderado e equilibrado: não sou radical nem liberal, acredito nos fundamentos da Palavra de Deus, que são imutáveis.

Em sua opinião a chamada “teoria da prosperidade” é condizente com os princípios bíblicos?
Eu creio q o Evangelho deve ser pregado completo e a sua essência é a comunhão do homem com Deus. E isso tem reflexo no seu bem-estar e na sua vida econômica. O Senhor quer que todos vivam bem e que ajudem a realizar a sua obra na Terra, mas esse propósito não pode ter objetivo mercantilista e confundir a cabeça das pessoas, fazendo-as pensar que bênçãos espirituais podem ser compradas com ouro e prata

Como o senhor projeta o futuro da Assembleia de Deus?
Como igreja a Assembleia de Deus é excelente, mas como instituição manipulada por convenções, ministérios e sindicatos de pastores é um desastre. Os irmãos são uma bênção, mas há líderes que procuram separar, esquartejar e dividir a igreja. Quanto ao futuro, está nas mãos de Deus.

O senhor quer deixar alguma mensagem para os milhões de assembleianos que, em 18 de junho, estarão comemorando o centenário da denominação?
Quero convocar todo o Brasil para participar da celebração de um movimento que nasceu aqui em Belém, que abençoou e continua abençoando milhões de pessoas. Quero enaltecer minha confiança em Deus e no assembleiano, que é um povo aguerrido, cheio de fé e corajoso.  Minhas orações são para que as instituições de pastores, ministérios e convenções, criadas para apoiar as igrejas, não atrapalhem e não intrometam em suas vidas. E deixem o povo de Deus marchar em paz.

Fonte: Revista Exibir Gospel - Edição 16

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José Donizetti Morbidelli
Enviado por José Donizetti Morbidelli em 15/06/2011
Reeditado em 15/06/2011
Código do texto: T3036581
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