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Entrevista com RICHARD FOXE


Estou muito feliz por essa entrevista com o querido pesquisador e poeta Richard Foxe. Eu sou Espírita e tenho minhas ideias e convicções próprias, mas acima de tudo prezo a observância da liberdade religiosa e filosófica como base de uma sociedade justa, sadia e harmônica em seu funcionamento. Richard é pessoa extremamente culta, que jamais demonstrou desrespeito em nenhum artigo escrito.
   Estou de acordo com o que acredito,e pensando bem, não divergimos tanto em várias questões...existem muito mais convergências que divergências, porém se o contrário acontecesse, o respeito prevaleceria.
   Segue a entrevista com nosso querido Richard Foxe, muito interessante e que nos oferece o descortinar de uma personalidade ímpar, perquiridora,instigante e extremamente inteligente.
         " Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da humanidade." -
                          .........................
1) Quem é Richard Foxe? Como se define???

Richard Foxe é uma pessoa simples e desambiciosa que adora a Ciência tendo desenvolvido pesquisas em ambiente universitário durante mais de 35 anos seguidos, tanto na Europa como no Brasil. Autor de mais de 70 trabalhos publicados em revistas internacionais, foi pioneiro no estudo da radioatividade ambiental no Nordeste brasileiro e por isso recebeu a Cidadania de Honra dum importante município nordestino.

 

2) Sua relação com o Brasil começou de que forma? Domina o português por completo, apesar de ser italiano...

Comecei justamente por motivos de trabalho e a cooperação continuou durante muitos anos seguidos até que os meus principais colaboradores se aposentaram (uns infelizmente faleceram). Estudei português sozinho e reforcei as minhas competências durante as minhas estadias na sua terra.

 

3) Teria um tema em especial que o interessa, um assunto que desperte atenção mais intensa?

Agora que estou aposentado e que não frequento mais os laboratórios, continuo tendo interesse por tudo que é científico, principalmente a Física e a Matemática, que para mim são duas formas de me aproximar à verdade. Mais recentemente focalizei o meu interesse sobre assuntos relacionados com a metafísica e a religião. Quem acompanha os meus textos no Recanto das Letras sabe que publiquei um bom número de artigos sobre esse tema (reunídos no E-livro “Viagem ao centro do Cristianismo”). Uma aproximação superficial ao meu pensamento pode levar o leitor à conclusão que sou ateu e materialista, mas isso não corresponde à verdade. Embora não simpatize com as religiões, em particular com as abraâmicas, me considero uma pessoa atraída pela espiritualidade que, na minha modesta opinião, é superior à qualquer religião e se alguém me perguntar o qual a minha religião, respondo com as palavras do filósofo espanhol Miguel de Unamuno: “Minha religião é buscar a verdade na vida e a vida na verdade, mesmo sabendo que não hei de encontrá-las enquanto viva”

 

4) Quem é Deus na sua visão pessoal?

Para poder dizer quem é Deus teria que ser Ele, pois apenas Ele se conhece perfeitamente. O que a gente pensa sobre a natureza de Deus jamais corresponderá à verdade; seria como se uma formiga tentasse entender os enigmas da mecânica quântica. Eu não sei o que é Deus, mas não duvido da sua existência, apenas não sei como defini-lo. Decerto existe algo que está no início de tudo e esse algo eu o chamo de Deus, mesmo que se trate do tal do “vazio quântico”. O que não aceito é o Deus do Antigo testamento e a tal da Providência. O primeiro é pouco mais que uma divindade tribal sedenta de sangue, a segunda representa a interferência da divindade nos assuntos cotidianos no âmbito de uma metafísica fundamentada sobre o dualismo. Tanto a espiritualidade do Hinduísmo como a metafísica de Plotino voam bem mais alto do que essa imagem simplória e relativa. Nas Upanishads lemos que o Ser supremo, o Braham, é o tudo (igual o Um de Plotino) e cada ser vivente carrega dentro de si uma fracção desse tudo, chamada de Atman. A relação entre o Atman e o Brahman é a mesma que existe entre uma gota de água salgada e o oceano e tudo o que acontece no Universo, tanto no sentido de gerar como no de destruir, faz parte do Brahman. Portanto, trata-se duma visão não-dualística que os filósofos indianos chamam de Advaita Vedanta e que estava à base de toda a manifestação poética de Cecília Meireles. Não pense, agora, que pretendo defender a teoria da reencarnação, na qual não acredito. O meu pensamento metafísico é ainda mais arrojado e original.

 

5) Poderia explicar como é este seu pensamento em linhas gerais?

Antes de tudo é necessário fazer uma premissa importante: na cultura ocidental, profundamente influenciada pelo pensamento judaico-cristão, o tempo é tido como linear, com um início absoluto (alfa) e uma fim definitivo (ômega). Isso leva a um impasse porque fica difícil imaginar um universo que existe desde sempre e, disso, vem a necessidade de conceber um Criador incriado. Mesmo assim não se resolve o problema, apenas ele se desloca sendo que, nesse caso, surgiria outra pergunta: “De onde vem o Criador?”. Afirmar que Deus existe desde sempre na eternidade é apenas um artifício retórico pois ninguém sabe dar uma definição analítica da palavra eternidade e não seria muito diferente dizer que o Universo existe desde a eternidade. Entretanto, tudo ficaria mais simples se o problema fosse encarado com base na ciclicidade do tempo, como se fazia na filosofia oriental ou naquela grega na época de Platão. Então vamos partir do único dado concreto e seguro que temos, ou seja, a existência nossa e do Universo. Esse universo é estruturado igual uma pirâmide: à base temos o hidrogênio, depois as estrelas, os planetas, a biomassa, os seres viventes e, enfim, os seres pensantes caracterizados pela consciência. É como se a consciência fosse a finalidade de toda essa imensa construção evolutiva, mas acontece que, com a morte dos seres humanos a consciência termina e toda a pirâmide, que demorou mais de treze bilhões de anos para se desenvolver, desmorona e fica sem sentido. Em outras palavras, é como se algo ou alguém tivesse feito as coisas pela metade. No entanto, se o Eu individual sobrevive à morte, já entrevemos a solução do problema. Afinal, o próprio Roger Penrose, um eminente físico ateu, forneceu evidências que a informação contida em nosso cérebro, sendo de natureza quântica, não pode ser destruída. Pessoalmente imaginei que bilhões e bilhões dessas consciências quânticas se possam juntar, assim como ocorre com os neurônios, para originar uma estrutura de ordem superior que podemos chamar de Deus. Em seguida, esse Deus dá origem ao Universo estabelecendo as lei oportunas para que dele possa surgir a vida orgânica e a consciência. É evidente, porém, que isso só se torna possível se o tempo for de tipo circular onde não existe nem um “início” e nem um “fim”. Sei que esse meu raciocínio pode parecer esquisito, mas um filósofo oriental o entenderia perfeitamente e, se você refletir bem, descobre que funciona sem gerar contradições. Esse é apenas um resumo sintético e quem estiver interessado poderá ler o meu artigo intitulado “Universos Pessoais” publicado na minha escrivaninha aos 24/03/2019 onde abordo também a questão da vida no além, de como poderia e deveria ser.

 

6) Como lida com agressões gratuitas no mundo literário na parte da religiosidade que expressa em artigos teológicos?

Infelizmente a maioria das pessoas não está em busca da verdade, apenas aceita o produto confeccionado que lhe é oferecido pelas igrejas e pelas religiões, pelo simples motivo que isso não requer nenhum esforço e o coloca num âmbito, num rebanho, onde inúmeros outros fiéis compartilham o seu sentimento e isso gera segurança. Quem nasce no mundo ocidental será necessariamente cristão porque essa é a cultura dominante que vem sendo inculcada desde a infância quando a criança aprende a falar. Em seguida ela é reforçada na escola, na paróquia, nos meios sociais, nos programas de TV e no cinema. O mesmo acontece nos países islâmicos ou em Israel: trata-se duma verdadeira lavagem cerebral da qual fica extremamente difícil se livrar em seguida. Portanto ser de uma ou outra religião é apenas uma questão de geografia: por exemplo, na ilha de Chipre, dividida em duas partes (norte muçulamano e sul cristão ortodoxo), dois meninos que nascem a poucos metros de distância terão duas religiões diferentes. O mesmo vale para nações como Paquistão, Líbano, Índia, etc. Aqueles que me atacam são pessoas que não querem se questionar, que não querem crescer e buscar o seu próprio caminho interior porque isso, como falei antes, significa largar o que lhes transmite segurança. Já ler os meus textos requer um pouco de coragem pois eles estimulam a crítica e a reflexão mostrando que as bases do cristianismo são de tipo mitológico e não histórico.

 

 

7) Em algumas poesias o planeta Marte aparece com destaque. Existe uma explicação?

Marte é um planeta parecido com a Terra, mas mais “velho” e também a Terra, daqui a muitos séculos, será igual a Marte. Estar em Marte pra mim significa que já não estou mais na parte melhor da minha vida, que já estou me aproximando ao fim. Olho com um pouco de tristeza à minha juventude, mas não temo a morte pois, na pior será como um eterno sono sem sonhos e o lado positivo é que, com ela, acaba toda qualquer forma de sofrimento. Também os Antigos, para não falar nos Orientais, tinham essa mesma atitude e acho uma falta de dignidade a forma como os crentes se apegam à vida se humilhando diante de estátuas e imagens que jamais salvaram alguém do nosso destino comum. O que importa é evitar ou minimizar os sofrimentos que precedem a morte.

 

8) Para se inspirar e compor seus textos existe alguma forma elaborada ou não?

Penso que está se referindo aos poemas. Adoto vários estilos, com ou sem rimas. Considere, porém, que a maioria deles foi escrita durante um período de mais de dez anos e mi inspirei em poetas como os italianos Montale, Ungaretti e Quasimodo ou Garcia Lorca, Emily Dickinson e Cecília Meireles.

 

9) O que o aproximou mais especificamente de Cecília Meireles?

Conheço essa poetisa desde que aprendi a falar português muitos anos atrás, mas só esse ano tive a oportunidade de aprofundar o pensamento dela quando resolvi escrever um longo artigo para uma revista daqui. Embora no Brasil ela seja lida nas escolas, poucos entendem o verdadeiro significado de seus poemas que representam em versos o seu percurso espiritual em busca do Absoluto. Cecília admirava os místicos da Europa medieval, mas conhecia também a metafísica de Plotino e, acima de tudo, os textos sagrados da Índia clássica como as Upanishads e a Bhagavad Gita. Devo dizer que aprendi muito enquanto redigia o artigo sobre essa maravilhosa poetisa.

 

10) O lado romântico de Richard Foxe. Como vê o amor, sentimento abordado por excelência na arte de um modo geral?

É importante esclarecer aos leitores que os meus poemas raramente refletem situações pessoais. Eles são apenas uma ferramenta para me expressar e, como dizia Fernando Pessoa, “O poeta é um fingidor”. Quanto ao amor, considero-o um sentimento de importância extrema, e quando digo amor não me refiro apenas ao amor entre dois amantes, mas falo do amor pelos seres humanos em geral, uma manifestação de não-violência que recusa qualquer forma de sofrimento infligida a seres sencientes, inclusive aos animais.

11) Porque o fascínio pelos gatos?

Porque são animais carinhosos, discretos, limpos e inteligentes. Os gatos têm uma dignidade que não vejo nos cachorros. Se você bater num gato ele vai embora para sempre; se castigar um cachorro ele se acovarda e se submete ainda mais. Os gatos merecem todo o nosso respeito e a nossa admiração.

Termino lhe agradecendo por ter me dado a oportunidade de falar um pouco não sobre mim, mas sobre o meu pensamento, que é o que realmente importa. Obrigado pelas belas palavras e os sentimentos de admiraçࣥão que aparecem no cabeçalho da entrevista. Permita-me apenas discordar da citação de Kardec o qual põe a fé acima da razão. Foi a razão que fez grande a Antiga Grécia e Roma, que nos livrou do abismo de ignorância no qual o mundo havia afundado durante a Idade Média e que ainda hoje representa a arma mais importante para nos defender da intolerância, do racismo e do fanatismo religioso dos integralistas islâmicos. Namastê!

 



Maria Ventania e Richard Foxe
Enviado por Maria Ventania em 25/08/2019
Código do texto: T6728656
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Maria Ventania
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 49 anos
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Maria Ventania