Entrevista com o Mutável Gambiarreiro

ENTREVISTA COM O MUTÁVEL GAMBIARREIRO:

Ladies and gentlemen do Recanto das Letras estou aqui audaciosamente a entrevistar o Senhor Mutável Gambiarreiro (Muta para facilitar) , ele que é o polêmico agitador influencer deste site tão pacato.

1- Muta, você poderia traçar uma auto definição só para quem não te conhece muito bem??

Inicio escrevendo e pode ser a síntese e resposta da pergunta, que não acredito em mim, porque sou gente; e por extensão, não acredito no Brezil, porque não acredito no brasileiro. No mais, parafraseando Belchior: "sou um qualquer, mineiro de nacionalidade brasileira, sem uma dólar furado no bolso, mas sempre Sócrates sentado em um banco de praça; espreitando a correria atabalhoada das formigas humanas".

Nota-se que por esta ínfima definição, vivo isolado, distanciado da massa, pois paulatinamente ouço, que sem dinheiro é impossível haver sobrevivência; o que contesto, óbvio, afinal, biologicamente o ser humano necessita só, e tão somente, de 1 razoável prato de comida e 2l de água. Nada mais.

Viu, sou fiel praticamente do minimalismo, aliás, existe um aforismo que diz: "o pouco com Deus é muito; e o muito sem Deus, é nada".

2- Existe alguém que te influenciou para que tenha este estilo descolado na linguagem? Quais os escritores que você curte?

Lia tudo. Cheguei ter uma biblioteca com mais de 1500 livros lidos. Doei a maioria, sobrando alguns, dentre eles a real e verossímil biografia de Tim Maia -do jornalista e escritor Nelson Mota - o mais irreverente e autêntico síndico do Rio de Janeiro; que a propósito era a cidade maravilhosa, com a morte do síndico, virou reduto do tráfico.

Sou amante aos cultos e indecentes de linguagem; e em certos ocasiões, venero Derci Gonçalves quando manda todo o mundo à PqP. Comparando-a com o Himalaia, taí porque viveu mais que serra.

Entendo que palavras e livros apenas instruem, mas é a cultura refinada adquirida, o poder de fundamentar-se a tese defendida, que transformam o leitor, o ser e o meio. Caso contrário, é indústria de intelectuais de pouca valia. Os nossos humanistas atuais não me deixa mentir, nunca; pois como disse Mário de Andrade, são heróis sem nenhum caráter. Nota-se pelo momento, tanto político, quanto humano que o país atravessa.

3- Como adquiriu esta paixão pela escrita?

Do nada. Minha Tia, a qual fui doado, gratuitamente, por minha mãe biológica com 1 ano, dizia que o "saber não ocupa lugar"; e eu cresci ouvindo um esporro atrás de outro, quando matando aula para jogar bola ou tomar banho nas lagoas: "vai estudar, bola é coisa de vagabundo e não dá futuro. Outra coisa: procure o que fazer, porque o vagabundo indolente nasce dentro de casa e não na rua, como dizem por aí."

Portanto, vês que o chicote estalava no lombo e a fila andava, cujo motivo e estímulo era para adquirir conhecimento. Quem leu a verdadeira biografia de JK (estive em Diamantina e visitei o museu dedicado a ele) vai associar que no tocante à formação educacional/cultural, somos relativamente parecidos. Ele pelo tio, e eu pela minha tia.

4- Porque este pseudônimo e porque mora no Azerbaijão que é tão longe ???

Não, não resido no Azerbaijão. Sou brasileiro e amo tanto o Brasil, que estou passando uma temporada em Monteiro Lobato, cidade homônima ao escritor.

Sabe, às vezes viro bicho com os meus pseudônimos, parecidos Curupira do mato, estão sempre pregando peças nos amigos, que claro, não merecem ser enganados. Sinceramente, exceto o protagonista de nome esquisito, torço que a Covid-19 abrace os meus pseudônimos, aí nunca mais eles enganam o leitor.

5- Queria saber da tua paixão pela "magrela" ( ele é ciclista, gente) e pela música pois sei que tem milhares de cd's.

Haha. Paixão à primeira pedalada. Aliás, sempre digo que sou Jesus Cristo dos dias de hoje e curto demais sofrer. Vivo com a bunda esfolada, as mãos e a cara suadas em bicas. Novamente, começou lá atrás quando destruía as bikes de meu irmão; e com uma perna entre o círculo da Caloi e a outra fora, girava meio pedal. Era tiro e queda, pá e pedal; e em poucos meses destruía tudo. Parecia ferrugem. E tome chicote, mas o que é uma surra à mais para um lombo cascudo? Sou como o vento e não tenho do medo escuro, muito menos do desconhecido.

Faço cicloturismo e já rodei Parque Nacional da Canastra, Aparados da Serra, Serra do Cipó, região de Prudentópolis, Guartelá, Aiuruoca, Vale Europeu, circuito do vinho em RGS e por aí segue a vida, ou melhor, as rodas da magrela a girar. Está aqui em minha frente feliz da vida, por elogiá-la. Um beijão magrela; Jesus te ama, seu algoz te também!

Sobre música, cresci ouvindo sertanejo, que infelizmente chamam de raíz, porque os modernos curtem "sertanojo universotário". Arrghh! Uma frase gera 5 min de bate-lata; mas manda a lei de boa conduta que respeitemos as diferenças, mesmo que essas sejam retrocesso cultural no tempo. #hasteg; geração miojo lamen, que segue. Viu: "radicalizo mesmo". Embora continue curtindo o que de melhor há no sertanejo e samba, certa ocasião trabalhando em boteco, cansado de ouvir porcarias para entreter bêbados e assim meter a mão no bolso dos indigentes - lição primeira do patrão português; e é regra sempre no comércio - girei o botão do rádio, indo parar numa rádio alternativa que, extravagantemente tocava uma caralhada de MPB, Folk, Blues, New Age e claro, rock pedradas. Naquela tarde rolava "Light my fire" dos Doors, banda do desvairado Jim Morrison. Não pensei duas vezes: " vou atrás desta merda, digo, pérola, amanhã". E comecei.

Tendo apurado quase tudo sobre rock clássico, parti para o Progressivo; porém Progressivo muito além das bandas comuns. Essas que os bazés estampam em camisetas.

Acompanhei projetos musicais fodidíssimos no Sesc Pompéia, Masp, Sala Cinemateca, Museu da Imagem e do Som, teatros alternativos. Infelizmente, não temos mémória, tanto cultural, quanto artística e lembro como se fosse ontem a inauguração do Memorial da América Latina; espaço culturalmente nobre, que terminou sob um incêndio devastador. Lá ouvi Mercedes Sosa, Milton Nascimento, Beto Guedes, Cruzes da Argentina, grupos de folclores latinos, e muito mais. Sempre optei pelo alternativo e raros; em tempo, esse era o nome do programa de rádio que eu fazia na comunitária da Universidade. Tocava um foda-se geral no CA (Centro Acadêmico).

6- Como o Muta está enfrentando a quarentena?

Fora o terror que os incompetentes apregoam, onde estou não há a Covid. Só se houver é em ninhos de pássaros, águas correntes de cachoeiras, pastagens de bovinos, equinos, etc. Sobre esse bordel da tia Babilina que se tornou o país, reverencio a Natureza para dizer por mim:

Corona, inexorável Corona,

Que de tuas veias,

O Covid nos humanos semeia,

Tinha eu que ser convidado pela sua filha,

Para a morte?!

Afinal, a inegociável Morte é como agiota, e não investe onde não tem dinheiro.

Cada dia mais convicto que a Natureza é um tanto quanto inocente, dando alimento, gratuitamente, para as víboras.

7- Já foi criticado por certas controvérsias... isso influi de certa forma ou você prefere ignorar???

Viche!! Prefiro nem responder; mas pergunte para vários escritores que se acham donos da razão. Ventania que varre sonhos, detesto, odeio, abomino palavras não exequíveis, tanto quanto a hipocrisia; e no Recanto tem os montões de senhores politicamente corretos, apoiando partidos políticos, quando na verdade, o líder que o representa é um baita (Neto, o baita apresenta-dor da Band) charlatão; ou ainda não se tocaram que o que levou o país ainda mais à falência foram os mega-eventos. Na época, atuava como engenheiro e profetizei para quem quisesse ouvir que após a famigerada Copa, o Brasil perderia até a cozinha, quanto mais a despensa. Taí, entubando doentes em estádios. Mas os charlatães ludibriam e manipulam o povo semelhante; pois contrário do conceito físico, os iguais se unem.

Nota do entrevistado:

Ignorância, Ego e Poder: com ou sem a bola nos pés, o trio ataca, ferozmente, mais uma vez.

"<strong>Não se faz Copa do Mundo em hospitais</strong>". - quem disse essa aberração, certamente é um oportunista, que egoisticamente, usufrui das benesses dos esquemas de suas escolhas e preferências.

Ao transformar estádios e arenas em hospitais, será que conseguiram enxergar que o acontecimento atual, é o reflexo dos investimentos anteriores, prioritariamente, em futebol; que é esporte de emoção, apenas.

Seja em inglês, em alemão, em francês, espanhol, coreano, ou em...; a mídia, a arte, a cultura e os jornais são opiniões formadoras tão indesejáveis, que não são usadas nem em banheiros públicos; em contrapartida, são valorizados e necessários ao alienamento inveterado da geração atual.

Até quando a estúpida cegueira permanecerá castigando as vistas da massa bruta ignorante?

Azulay, não decepcione-se, não, porque o irônico Machado de Assis (21-06-1839 - 29-09-1908) em seu tempo, escreveu: "mas, esse capítulo não é sério". Fato é que a falta de seriedade na fala e ações de Gente Grande desonesta é vírus mutante que perpetua no tempo.

O que não foi seu caso, pois os cartuns, os desenhos educativos e os capítulos escritos por você na arte do país, foram admiráveis, sérios e comprometidos com a formação humana. Portanto, não sinta-se decepcionado se sua contribuição educacional e labor cultural foram dispendidos à massa bruta errada.

Para aqueles que não valorizam e desconstroem o passado, em detrimento de Poder e status, os canalhas, os brutos, os omissos e mercadores de corrupção, também perecem.

E o que a súcia de indesajáveis ainda não desconfiou, é que ficando pelos desvios dos caminhos, precocemente, a maioria deles não serão agraciados pelo Tempo de respirarem longos anos de Vida.

Quero agradecer muito ao Mutável Gambiarreiro por esta entrevista, ele foi muito gentil e respondeu todas as perguntas, assim ficamos conhecendo um pouco mais deste escritor originalíssimo.