O lamento de um obreiro

Hoje já não escrevo tanto quanto na juventude. Semana que vem completo 45. De vez em quando tenho uma ideia e registro. Mas, dos 13 aos 20 e poucos, escrevia compulsivamente. E gostava de explorar o universo poético, procurando meu estilo. Acabei criando o gosto justamente pela constante busca, não me fiando a nenhum estilo em particular. Tanto a poesia clássica quanto a moderna me satisfazem, posto que não escrevo pelo resultado, mas para melhor expressar meus sentimentos, é realmente uma necessidade "espiritual". Daí que preferi, ao longo do tempo, não ter um único estilo. Mas lançar mão de todos os estilos que julgasse coerentes com a melhor expressão poética de cada ideia que me atravessasse a mente. Nesse exercício de longo termo, não só experimentei estilos de autores consagrados como também criei alguns. Aqui abaixo um exemplo, que chamei de "rimas dissonantes". O exercício surgiu da observação dos plurais metafônicos como ovo/ovos, povo/povos etc. A partir daí aglutinei rimas usuais e rimas metafônicas (que soam "dissonantes"). A forma sempre me foi secundária, vale o conteúdo, primordialmente. Mas é inegável que a forma é capaz de sublinhar ou atenuar a própria expressão do conteúdo, a ele se agregando. A linguagem da natureza ensina que há valor no que é belo. A beleza que agride é que vem desvinculada de essência, a beleza fútil. Mas a beleza elaborada em conjunto com um valor da vida, essa é sempre bem-vinda. É o que tento fazer, com muitas deficiências, mas cheio de boa-vontade.

*O lamento de um obreiro*

Quisera eu gostar do que não gosto,

quisera que meu gosto fosse um poço

no qual pudesse tudo o que não posso,

Mas o espelho não mudará meu rosto,

Se eu não mudá-lo antes, aposto.

O que eu não escolho é a contragosto,

Da fruta que cuspiram, herdei o caroço

E de uma vez, então, me emposso

Tomo o que me pertence, o meu posto,

E trabalho, não reclamo, não me encosto.

Esta queixa não me faz vadio, mas o oposto,

Labutei deveras, já não sou tão moço,

Troquei muito suor pelo pão nosso,

Mas minha vida já passou de agosto,

No meu sonho vejo um divã... e recosto.

(weber)