O ESPÍRITO DE PORCO

Era uma vez há muito tempo atrás, num país remoto do planeta Terra, um senhor, membro da oligarquia rural, que possuía terras e empregados, dentre eles havia uma família de pai, mãe e cinco filhos. O pai fiel ao patrão era o seu capanga.

Desde pequenos os filhos começaram a ajudar o pai em seus afazeres de matador, sempre obedientes e humildes na defesa da propriedade alheia. Os filhos saiam pelo mato com suas espingardas para caçar passarinhos e pequenos animais que logo seriam levados à mesa e servidos como iguaria nos almoços da casa. De fome ninguém morria graças ao uso das armas e das hortaliças que a mãe plantava em seu pequeno quintal.

Entretanto a família sempre olhou com apreensão o filho mais velho que já ao nascer era chorão, chato e ranzinza. O pai que sempre ouvia o “coronel” chamando os empregados de “fâmulo” achava um nome bonito e, com o consentimento da mãe batizou o menino com esse nome. Como todos eram analfabetos nem teve a ideia de consultar um dicionário. Achava uma palavra que só os ricos conheciam e que por isso o filho seria um vencedor quando ficasse adulto. Enquanto essas crianças não conseguiam matricula na escola rural, trabalhavam ou brincavam de tiro ao alvo, pois o pai tinha orgulho de imaginar como os filhos iriam ser no futuro – valentões e enfezados postando suas armas para que tivessem medo e respeito deles. Seus “bacuris” eram a sua única riqueza, o seu bem mais precioso.

Mas tinha uma pedra no meio do caminho – seu filho Fâmulo era mesmo um pentelho, não deixava seus irmãos sossegados, sempre mandando e exigindo obediência. A gurizada da redondeza usava apelidos para irritá-lo – FÃ, UM e o mais cotado MULO. Ninguém aguentava suas diatribes. Porém, os mais velhos da região só falavam nele como “Espírito de Porco”, pois agia de forma desagradável, irritante, provocadora, sem levar em conta o sentimento ou a opinião alheia, se lixando em causar constrangimentos. Seus pais modestos morriam de vergonha do filho e ficaram aliviados quando o menino entrou para a escola.

No início teve dificuldade para se adaptar ao ensino das matérias fundamentais: empacava na linguagem, pois tinha o hábito de engolir sílabas e pronunciar certos fonemas de forma errada. Não dispunham de fonoaudiólogos para consertar seus frequentes erros. Com os colegas no recreio só aceitava brincar se fosse escolhido como líder. Falastrão e prepotente acabava vencendo pelo cansaço. Naquele tempo não se chamava “bullying”, mas os garotos mais velhos e fortes começaram a hostilizá-lo. Como “Espírito de Porco” não se deixou subjugar foi buscar ajuda com sua gangue de rua que andava armada e acuaram seus desafetos. Continuou a estudar mal e parcamente como um aluno medíocre que passava sempre com média baixa.

Com o passar dos anos foi ganhando fama de durão. Seu estilo “bad boy” firmou seu carisma em meio às turmas de boçais machistas. Andava com jovens desajustados fortalecendo sua liderança, seu sonho de menino. Já na idade adulta montou um pequeno negócio para treinamento de atiradores de elite e trabalhava num Clube de Tiro nas redondezas. Por essa época, com a personalidade firmada e sucesso financeiro tornou-se mais exagerado que antes querendo ser o centro das atenções, exibindo-se com sua aparência física, roupas cafonas e trejeitos faciais. No teatro teria até sucesso caso representasse personagens histriônicos apreciados pela plateia como tipos tragicômicos. Apesar de sua costumeira idiotice soube tirar proveito de seu jeito de ser: dissimulado e canastrão “em terra de cegos quem tem olho é rei”.

Nunca deixou de ficar incomodado com o seu nome de batismo, pois nessa altura da vida já tinha consultado um dicionário. Aí, falou com o pai que o orientou a procurar o coronel.

--Por que o senhor chamava os lavradores de “fâmulos”?

--Meu filho eu até achei engraçado o que seu pai fez com seu nome, mas agi errado. Pensa bem como é bom ter empregados subservientes ao patrão. Você pode ir longe. Sozinho já é um empresário. Imagino que tem relações com as máfias que traficam armas. Você é um desbravador com seu “espírito de porco”.

--Este apelido me deixa irritado, mas sei que gosto de destruir tudo que vejo pela frente. Comigo é na bala, só atiro para matar.

--Meu filho você terá sucesso. È o CARA! Veja bem os pobres na cidade moram em “cabeça de porco” lugares coletivos e sujos que esses vagabundos costumam ficar. Se trabalhassem como “fâmulos” seriam mão de obra na lavoura.

--Por que o senhor falou em “cabeça de porco”?

--Para lhe mostrar o uso das palavras. Se eu tirar o “porco” da jogada posso falar em “Espírito de Corpo”. Essa é uma expressão militar que se usa nos quartéis. Com seu apelido você chegou ao “Espírito de Corpo” com sua turma de atiradores que lhe tem uma devoção canina.

--É cheguei à conclusão que o senhor está certo. Vou aproveitar que sou o porreta e amplio meu negócio. Já começo a convidar o senhor para ser meu sócio na empreitada.

Levou a sério a conversa com o “coronel” que topou ser seu sócio e lhe deu o aval para arregimentar e treinar grupos de capangas a serem contratados pelos ruralistas.

Com os anos ganhou mais popularidade e usando práticas ilícitas se meteu em política e chegou a Prefeito da cidade próxima, que era o centro das transações empresariais do agronegócio. Nunca imaginou que fosse subir tão alto na vida. Agora assumia todos os seus apelidos e gostava até de Fâmulo, pois era o servo das elites rurais.

Quanto mais velho ficava mais se tornava intransigente e tirano. Gostava de exercer sua função como ditador cruel e sanguinário como nas “republiquetas das bananas” bem ao estilo dos romances de Gabriel Garcia Marques que um dia teve a oportunidade de ler. Mas que baboseira! Esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

ISABELA BANDERAS
Enviado por ISABELA BANDERAS em 14/11/2019
Código do texto: T6794886
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