Presente de aniversário.

Malala, ainda no início da sua adolescência, pediu aos pais uma viagem como presente de aniversário, porém, no dia da comemoração eles lhe deram um pacote envolvido num lindo papel de presente amarrado por uma fita dourada cujo belo laço em forma de flor muito delicada era verdadeira obra de arte. Ela deveria ter ficado no mínimo decepcionada com o presente inusitado, mas não foi isso o que aconteceu, pelo contrário, ficou tão deslumbrada com o colorido do papel, o brilho da fita e a delicadeza do laço que, pelo menos naquele momento, até se esqueceu do passeio tão desejado. Sentou-se no sofá e, segurando com mãos cuidadosas, primeiro virou o presente de um lado para o outro e de cima para baixo, avaliou bem: era um embrulho pequeno em formato de retângulo que ela conseguia segurar só com uma das mãos, embora sempre usasse as duas, por precaução; na sequência aproximou do nariz o pacote e aspirou sobre o laço, profundamente, tentando descobrir algum cheiro peculiar na flor artesanal; por fim colocou o presente no colo e passou os dedos meigos suavemente sobre a tira dourada. Estava encantada; interiormente experimentava uma sensação tão diferente do normal que nem saberia explicar com palavras. Tinha nítida percepção do seu coração pulsando no peito, e sentia a temperatura do corpo mais quente, como na febre. Algo inexplicável dentro de si previa bons presságios. Não perguntou aos pais o que era aquilo que acabara de ganhar, tão pouco tentou especular. Mas não foi por falta de curiosidade, entregou-se a surpresa naturalmente porque estava confiante de que iria gostar fosse o que fosse o objeto misterioso em suas mãos. Pediu a mãe uma tesoura e cortou a tira dum lado e do outro do laço, para não desfazer a flor; colocou a tesoura de lado, entregou a fita para a mãe guardar e só então desfez o embrulho. Quando abriu o papel de presente, que logo cobriu suas pernas, no seu colo surgiu uma caixa de papelão colorida formada por duas peças idênticas. Percebendo que uma peça estava encaixada na outra Malala suspendeu o conjunto e balançou. Por pura vaidade desejava ouvir qualquer coisa que revelasse o objeto desconhecido antes que ele ficasse exposto. Como não houve barulho algum, restou-lhe controlar a ansiedade. Deitou a embalagem no colo novamente e, segurando com as duas mãos, sempre, uma de cada lado, ergueu vagarosamente a tampa superior. Finalmente, e para o seu próprio contentamento, deixou à mostra o conteúdo secreto empacotado com tão rebuscado bom gosto: um livro. Imediatamente sorriu com emoção, porque, apesar da sua pouca idade possuir um exemplar feito este era um antigo desejo seu, e exclamou: - Nossa! Um livro! Além do mais aquele presente inesperado logo lhe trouxe lembranças de um passado não muito distante, e despertou nostalgias de uma experiência inusitada que vivenciou na sua infância. Quando era ainda mais jovem, na tenra idade, um adulto, num evento, empunhando um calhamaço lera, para si e mais um grupo de crianças, uma estória mirabolante de um lugar onde não havia gente, apenas bichos que falavam uns com os outros. Animais que se comunicavam tal qual seres humanos. E as personagens repovoaram seu pensamento como num toque de mágica: lembrou-se da formiguinha zangada que trabalhava sem parar; da tartaruga lerda que demorava, todavia sempre conseguia chegar aonde queria; do leão, que era o mandachuva do pedaço... e vários outros. Recordou-se da dificuldade que cada um enfrentava na rotina do seu dia a dia, das suas discussões... e também, da festa que eles fizeram no final da narrativa. Evocou o contentamento vivido naquela ocasião e, agora, sentiu-se novamente feliz com essas recordações. Retirou o presente da caixa com muito carinho e desta vez, o ato de segurar o livro com as duas mãos, não foi mais pelo receio de deixá-lo cair, mas para tomar posse do que já era seu de verdade muito antes de recebê-lo dos pais. Emocionada ela beijou o presente, levantou-se e abraçou a mãe em agradecimento, disse em seu ouvido: obrigado, mãe; em seguida fez o mesmo com o pai. Finalizou dizendo a todos: Adorei a surpresa.

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O Talibã é um movimento fundamentalista islâmico nacionalista que se difundiu no Paquistão. Uma de suas leis fundamentalistas é a proibição imposta às mulheres de terem acesso ao estudo e ao conhecimento. A paquistanesa Malala Yousufzai, de 14 anos, amante dos livros e do conhecimento e cujo maior desejo é continuar seus estudos e se formar em Medicina, ficou conhecida por denunciar essas e outras violências em um blog. Sofreu atentado nesta segunda-feira 15/10/12, sobreviveu, porém o Talibã ainda a ameaça de morte. Seu estado é grave.

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Singela homenagem a essa brava guerreira. Força Malala!

Dilucas
Enviado por Dilucas em 15/10/2012
Reeditado em 03/02/2024
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