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Sem-Título (Homenagem a Augusto dos Anjos)

Sombria escorre a noite no firmamento,
Como sangue negro a verter duma ferida;
Revolve-se nos túmulos morte incontida,
Em vil escuridão fervilha ignóbil vida.

Tão palpável é meu terror, que chego a vê-lo;
Tem de um abjeto monstro o rosto hediondo,
Tortura-me com aguilhões no cerebelo,
Nas cavernas do hide aterrado me escondo.

Em charcos pútridos fermentam cemitérios
De mil condenados ainda em vã agonia,
Que ali sofrem os efeitos deletérios
Duma eternal culpa que jamais se expia.

Gélidos crucifixos de catedrais arcanas
São leitos frios de abandonado necrotério;
Cadáveres de bestas antedeluvianas
São devorados pelo corvo do Mistério.

Putrefam os corpos, dos vermes a dormida,
Escavando nas vísceras túneis profundos.
Pululam bactérias na carne apodrecida
De pulmões cheios de tubérculos imundos.

Fetos deformados por hidrocefalia
Desde a minudência rudimentar do celoma
Exibem-me sua horrenda anomalia
Mergulhados no eterno limbo do coma.

Subiram-me à garganta contrações de vômito;
Era a farta cornucópia de patologias
Oriundas do mundo mais negro e recôndito,
Saturnal da vermiforme antropofagia!

Palco das bacanais da taenia solium,
Enrola-se a massa mole dos intestinos,
Esfaceladas sobre o aberto ventre de um
Conhecedor do mais mísero dos destinos.

Sufoco; é a respiração que torna-se agônica,
Pelo odor do incenso de infernais acólitos
Que, compelidos por uma obsessão crônica,
Insanos executam rituais insólitos.

Pulsa-me o coração em ansiada sístole,
Estrangula-se em hemácias minha artéria
Coronária; estronda a involuntária diástole
Transformando-me o sangue numa coisa etérea.

Dos microorganismos o silêncio gutural
Atemoriza. É o apetite voraz que consome
Os tecidos vivos, com ardor sobrenatural,
E na terra úmida formam reinos sem nome.

É o espetáculo da demoníaca falange,
Do exército protozoário inexorável
Que sob todas as carcaças mortas range,
Imprimindo-lhes seu domínio incontestável.

De nojentos fluidos brotam filhos macabros
Da sempiterna perdição, dantescos súcubos
Que dilaceram com as garras os peitos glabros
Daqueles que descansam num leito de húmus.

Vejo a Morte e sua maldição sem preâmbulos,
Arrastando entre miasmas seus ossos inermes;
Meu espírito segue-lhe os passos sonâmbulos
Enquanto meu organismo é iguaria dos vermes!

Cynthia França
Enviado por Cynthia França em 16/09/2007
Código do texto: T654855
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Sobre a autora
Cynthia França
Recife - Pernambuco - Brasil, 34 anos
7 textos (185 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 15/12/17 05:02)
Cynthia França