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SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN: 100 anos da magia escondida na realidade das coisas

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no dia 06 de novembro de 1919 na cidade do Porto e morreu a 02 de julho de 2004 em Lisboa como uma das principais referências da poesia portuguesa do séc. XX e a primeira mulher portuguesa a conquistar o desejado Prêmio Camões.

E como se tudo isso não bastasse, ela ainda conseguiu a façanha de impressionar o não menos impressionante João Cabral de Melo Neto (seu amigo) com o caráter franco, direto e objetivo de uma poesia “cheia de substantivos concretos”, como ele dizia.

João Henrique Andresen (filho de dinamarqueses) deu o sobrenome aristocrático Andresen da poetisa. Enquanto a mãe, Amélia de Mello Breyner, o não menos aristocrático Breyner, de origem austríaca, e que acabaria também por caracterizar a personalidade aristocrática da poetisa.

Ela foi a maior expressão literária feminina de Portugal da sua época, educada sob os mais rígidos e tradicionais valores da moral cristã; tendo inclusive participado ativamente de alguns movimentos que reuniam jovens católicos na Universidade de Lisboa – a qual não concluiu.

Sobre a personalidade de Sophia, o que se diz é que ela era “terrível!” Mas terrível apenas como defensora da liberdade da qual se viam privados os artistas, intelectuais e quem quer que se opusesse ao controverso período em que Portugal esteve sob o comando do ditador português Salazar.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN E A POESIA QUE VEM DO MAR

No ano de 1946 Sophia de Mello Breyner casou-se com o jornalista, advogado e político Francisco Sousa Tavares, com o qual teve cinco filhos.

Entre eles, o bastante prestigiado escritor Miguel Sousa que, assim como os demais, serviu como fonte de inspiração para alguns dos contos infantis mais importantes da literatura portuguesa.

Enquanto o seu marido ligava-se à social democracia do país, Sophia tornava-se deputada em 25 de abril de 1975, 11 anos depois de ter recebido o “Grande prêmio de Poesia pela Sociedade Portuguesa de Escritores” em 1964.

Além da sua atuação política, chamava a atenção também em Sophia os seus dotes como tradutora; tendo inclusive em seu currículo traduções de Shakespeare, Dante, entre outras contribuições que lhe renderam honrarias bastante expressivas.

Como a de “Doutora Honoris Causa (1998), o “Prêmio Rainha Sofia” (2003), a de membro ilustre da Academia de Ciências de Portugal, entre diversas outras condecorações.

Mas, de tudo isso, a sua maior conquista foi, sem dúvida, a produção de uma obra poética alicerçada nas imagens concretas, com uma firmeza e clareza de conteúdos que chegaram ao ponto de chamar atenção de alguns mestres que entendiam “um pouco” do assunto.

Mestres como os imortais Murilo Mendes, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, dentre tantos outros que ela conseguiu a proeza de impressionar pelo vigor de uma poesia “que dançava no papel”, sem utilizar os recursos das imagens ou do vocabulário extenso – apenas e tão somente a “dança das palavras” a conferir o ritmo necessário ao poema.

 

 

Cidade

 

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,

Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,

Saber que existe o mar e as praias nuas,

Montanhas sem nome e planícies mais vastas

Que o mais vasto desejo,

E eu estou em ti fechada e apenas vejo

Os muros e as paredes, e não vejo

Nem o crescer do mar, nem o mudar das luas.

 

Saber que tomas em ti a minha vida

E que arrastas pela sombra das paredes

A minha alma que fora prometida

Às ondas brancas e às florestas verdes.



AS CARACTERÍSTICAS DA OBRA DE SOPHYA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

Uma poesia “enxuta”, que foge às regras do obscurantismo e do “eu melancólico”, firmada em substantivos concretos (talvez um Fernando Pessoa às avessas), como uma fotografia do real, são apenas algumas das principais características da sua obra.

O seu livro de estreia foi “Da Poesia”, de 1944, custeado pelo pai, onde se nota perfeitamente as influências da cultura grega e de um cristianismo dos seus primeiros dias, ainda não conspurcado pelos dogmas e “correções” Constantinianas.

E o tom político, sem dúvida, estava ali, de forma inquestionável, a ponto de servir como um dos instrumentos da Revolução dos Cravos, onde se gritava, em alto e bom som, que “a poesia estava nas ruas” – frase atribuída a Sophia, e com a ajuda da qual os protestos contra o “salazarismo” ganhavam mais em vigor e erudição.

A “aristocrata perfeita”, segundo o historiador e ganhador do Prêmio Camões, Alberto da Costa e Silva, também tinha uma “visão comovente sobre as coisas e as pessoas”.

O que também contribuiu para que ela produzisse uma poesia “ensolarada”, em harmonia com o mundo, com versos claros e precisos, bastante ligados ao mar e talvez mais preocupados em encontrar esse momento em que a palavra poética consegue, talvez a muito custo, encontrar o seu significado real.

 

Mar

 

i

 

De todos os cantos do mundo

Amo com um amor mais forte e mais profundo

Aquela praia extasiada e nua,

Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

 

 

ii

 

 

Cheiro a terra as árvores e o vento

Que a Primavera enche de perfumes

Mas neles só quero e só procuro

A selvagem exalação das ondas

Subindo para os astros como um grito puro.

 

E ainda como uma poetisa que “falava de si mesma”, como bem ressaltava a escritora Dulce Maria Quintela. E, mais que isso, falava do seu passado, das coisas concretas que viu e que viveu – mas sempre como uma poetisa “inspirada”.

Sim, uma poetisa que não tinha vergonha de confessar que, nela, a poesia simplesmente surgia – “lhe acontecia” – , como ocorria com Pessoa; e como se até fora o produto fino e acabado de um “aparelho poético” localizado em algum lugar que não se sabe onde no corpo.

Um aparelho formidável, que lhe ajudava a traduzir em versos as lembranças da infância, a rotina dos pescadores que ela observava, ainda criança, a aventurarem-se sobre o “desconhecido”; assim como Pessoa avistava o “paquete” se aproximando, “pequeno, negro, claro” e deslumbrante.

Em uma poesia de reminiscências! Vertigens! Silêncios! Sensações que só podiam ser traduzidas em forma de poesia! Quando a alma, e somente ela, consegue expressar o que os olhos reais e concretos estão vendo para além da concretude do objeto observado.

 

 

“Apesar das ruínas e da morte,

Onde sempre acabou cada ilusão,

A força dos meus sonhos é tão forte,

Que de tudo renasce a exaltação

E nunca as minhas mãos ficam vazias”.

 

 

A CIDADE, O TEMPO E O PASSADO NA SUA OBRA

Um dos temas mais marcantes na obra da autora é a cidade. Poemas como “Há Cidades Acesas” (1944), “Cidade” (Livro Sexto, 1962) e “Fúrias” (Ilhas, 1989) são apenas alguns dos exemplos.

E aqui, a “cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas”, é uma fortaleza intransponível, que sufoca, com as suas muralhas de pedra, suja e hostil, onde os homens se amontoam e se consomem.

Enquanto as montanhas, florestas, morros, montes, cachoeiras, córregos e cascatas quase que imploram pela contemplação desses homens que permanecem insensíveis diante de tamanha beleza e esplendor.

Já o tempo na sua poesia é, por um lado, o tempo rígido e duro da eternidade. Tempo absoluto, Conservador, que não se rende a novidades no campo da moral e da estética; que deve permanecer ali, intocável, como referência e norte.

Enquanto, por outro lado, é o tempo do indivíduo, da solidão, do desamparo, do medo; o tempo que se vai com os ponteiros do relógio, ansioso por aproximar os homens da morte – a única verdade que intuímos e que nos causa medo.

 

 

HÁ CIDADES ACESAS
 

Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.

 

 

Já o passado na obra de Sophia de Mello Breyner não é só o passado da infância, é o passado também da literatura clássica e das tradições da Grécia Antiga.

Tradições tão bem retratadas em “Os Gregos” (de 1972), “O Rei de Ítaca” ( 1977), “Soneto de Eurydice”, “Crepúsculo dos Deuses”, entre tantos outros poemas que evidenciam a sua admiração pela pátria de Homero.

E, por fim, por mais paradoxal que possa parecer, cabe aqui um parêntese para ressaltar a sua ligação quase que visceral com a obra de Pessoa, especialmente pelo aspecto de infinitude da existência.

Mas também pelo tão famoso “sebastianismo pessoniano”; a espera por um Messias (que nem se sabe ao certo quais características possui); entre outras confluências de estilos que tornam poetas tão diferentes ao mesmo tempo tão iguais.


A MORTE

Aos 2 de julho de 2004 Sophia de Mello Breyner Andresen falecia na cidade de Lisboa, no Hospital Pulido Valente, como uma verdadeira “ilha de claridade, até nos contornos sombrios, e uma referência ética”, segundo o Diário de Notícias.

Alguém cuja “sensibilidade de poeta oscila entre o modernismo de expressão e um classicismo de tom, caracterizado por uma sobriedade extremamente dominada e por uma lucidez dialéctica que coloca muitas das suas composições na linha dos nossos melhores clássicos”, na opinião de Álvaro Manuel Machado.

Hoje, como uma das várias homenagens feitas à poetisa, permanecem à disposição dos visitantes, no Oceanário de Lisboa, algumas das suas mais belas composições ligadas ao mar.

E, como legado, ela deixa uma obra poética reflexiva, profunda e com uma simplicidade comovente. Uma poesia franca, musical, ritmada, onde percebe-se, claramente, uma comunhão com o humano – sem fugas, revoltas, dramas ou vacilações.

Apenas e tão somente o esboço desse microcosmo (chamado Terra) incrustado no macrocosmo, com as suas idiossincrasias e peculiaridades que deveriam, na visão da poetisa, ser descritas em sua inteireza – e, dessa forma, revelar a magia que pode existir no real.

Como a inexorabilidade da vida e da morte; assim como também a realidade dessa comunhão entre o céu e a terra, o homem e o universo. Em uma realidade descrita, desconstruída e reconstruída; com novas cores, novos sons, significados e simbolismos poéticos.

Para que, dessa desconstrução, surja novamente a realidade. Agora tornada outra coisa. Nem melhor, nem pior, apenas outra cosia.

 

 

Passavam pelo ar aves repentinas,

O cheiro da terra era fundo e amargo,

E ao longe as cavalgadas do mar largo

Sacudiam na areia as suas crinas.

 

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,

Era a carne das árvores elástica e dura,

Eram as gotas de sangue da resina

E as folhas em que a luz se descombina.

 

Eram os caminhos num ir lento,

Eram as mãos profundas do vento

Era o livre e luminoso chamamento

Da asa dos espaços fugitiva.

 

Eram os pinheirais onde o céu poisa,

Era o peso e era a cor de cada coisa,

A sua quietude, secretamente viva,

E a sua exalação afirmativa.

 

Era a verdade e a força do mar largo,

Cuja voz, quando se quebra, sobe,

Era o regresso sem fim e a claridade

Das praias onde a direito o vento corre.

 

 

“Paisagem” (do livro“Poesia”1944)

 

 

Fontes:

http://www.ufjf.br/darandina/files/2010/01/Alexandre-Bonafim.pdf

https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=296

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/04/poesia-de-sophia-de-mello-breyner-andresen-e-redescoberta-no-brasil.shtml

https://www.portaldaliteratura.com/autores.php?autor=296

https://pt.wikipedia.org/wiki/Sophia_de_Mello_Breyner_Andresen

https://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=02053

https://cultura.estadao.com.br/noticias/literatura,sophia-de-mello-breyner-andresen-usa-estetica-da-natureza-para-abordar-a-sociedade,70002286705

http://www4.crb.ucp.pt/Biblioteca/Mathesis/Mat10/mathesis10_59.pdf

 
Erânio
Enviado por Erânio em 06/11/2019
Reeditado em 10/11/2019
Código do texto: T6788828
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Erânio
Salvador - Bahia - Brasil, 43 anos
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