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Meus encantos

Quem disse que os dias quentes de verão são insuportáveis, improdutivos? E que a correria dos dias das semanas que antecedem o tão esperado recesso de fim de ano precisa ser insuportavelmente terrível e estressante?

Quem escreveu que não podem ser criativos os últimos dias do ano? Afinal, não é sempre no fim de ano que os miseráveis assalariados recebem o décimo terceiro salário para começarem o ano novo endividados? Isso é criatividade ou atrevimento irresponsável? Creio ser doida criatividade e anarquia acentuada estimulada pelos comerciantes.

Claro que não faço parte dessa sofrida maioria! No verão compro roupas para o inverno e vice-versa. Assim coloco-me no grupo dos que não se endividam na conformidade das estações. Por isso sou visto como louco, mas tenho lá minhas boas razões.

O relógio comanda a rotina do dia recheado de reuniões. Represento e sou consultor jurídico de duas ONG, participo de audiências com juízes que se consideram, quase sempre, os “donos da verdade”; mantenho contatos com clientes nervosos, onde protagonizo o papel de purista, "advogado do diabo", ou perfeccionista que sempre cobra resultados positivos até dos desacreditados incapazes.

Isso é verdade: não admito derrota ante o direito líquido e certo. Recorro e recorrerei sempre, não para ganhar uma causa, pois dinheiro não me interessa, além do que possa ter para comprar a ração do Hulk e suprir minhas necessidades básicas, mas para mostrar aos iluminados do Direito que a justiça é cega!

Observem que ainda tenho que responder aos inúmeros “e-mails” de leitoras nervosas, mal-amadas, criaturas que têm em suas mentes o preconceito de que o bom para elas deverá sempre ser ótimo para mim... santa e malfadada ignorância!

Fim de ano (novembro e dezembro), mormente nas últimas duas semanas, é assim... as duas horas de almoço parecem suficientes para resolver as coisinhas da vida que correm fora do meu corre-corre.

O roteiro inclui: Banco (não pago minhas contas pela internet), almoço frugal, um pulinho na lojinha de alimentos para cachorros (o Hulk é mais seletivo do que eu e não come qualquer porcaria), supermercado rapidinho e, sobrando tempo, visita ao prédio das ex-brasileiras onde compro, igual a maioria dos brasileiros paraibanos, filmes piratas ao preço de bananas.

Mas, neste mês de novembro, não foi bem assim! Digamos que houve um desvio no roteiro... bato o ponto eletrônico, desligo o monitor, deixo a CPU ligada, saio ligeirinho de casa, que também é o meu escritório e sepulcral refúgio, espero o sinal fechar na rua mais movimentada de Campina Grande (Almirante Barroso) - ganha da Odon Bezerra desde que foi inaugurado o prédio da Ciretran - escolho o caminho mais curto para o centro, dou de cara com um amigo que me buzina e diz, em um gesto que não admite recusa... “Siga-me!”.

Aonde vamos? Onde ele quer parar? O tanque da “latinha” (esse é o apelido de meu carro) está cheio, meus documentos estão em dia, vou aonde ele quiser ir e minha competência de motorista puder me levar, mas é isso que eu quero?

E o cotidiano passeio de biscicleta e/ou moto que sempre faço? Posso abrir mão desse lazer tão gratificante? E a caminhada de 5 (cinco) Km que faço todos os dias no tempo de 40 (quarenta) minutos? Devo desistir desse salutar esporte?

Céu azul, ontem estava plúmbeo, nem um rastro de nuvem, mar verde-claro, calmo, reluzente, a minha espera; termômetro na casa dos 29° C; minha casa a 122 Km de João Pessoa-PB, esse paraíso de capital sem ser de povo capitalista que julgo merecer...

“Dia lindo! Será que amanhã vai estar assim? E o fim de semana? Pode não estar...”. Vou aproveitar... e, se puder, com a santa, que não aceita ser chamada de santa, que se acha meio palerma, retardada, inconseqüente... vou me encontrar.

Então esqueço os compromissos no Banco, a lojinha de alimentos para cachorros, o supermercado, o prédio das ex-brasileiras onde compro, igual a maioria dos campinenses, DVD pirata e outras quinquilharias a preços irrisórios.

Não! Não sigo o amigo... paro o carro na porta de casa, abro o portão cinza, fosco, correndo; olho para o lado, descubro que tenho novos vizinhos e que eles têm uma menininha simpática, sempre a minha espera no jardim de sua casa, jogo os documentos, as chaves, os óculos e o chapéu na mesa da cozinha...

Estou resfolegando... roupas espalhadas na cama, “short” a postos, praia, mar, céu azul, calor, mergulhos... , contemplação, mais mergulhos... sorriso largo, iluminado e convidativo da menina bonita; mais calor, outros mergulhos, alívio, agradecimento pelas benesses que Deus me deu: saúde, vontade de superar limites, salário certo, cervejas, vinhos, caipirinhas, sossego, sorriso bonito da criança Cecília, progresso acentuado, alma lavada.

Estou pronto para a segunda etapa da jornada...

Mas esqueço tudo isso e vejo apenas o sorriso cristalino da menininha rechonchuda, fofa, que não fala, apenas sorri com olhos melífluos, mas quando a chamamos pelo nome de Cecília... abre um largo sorriso infantil e parece dizer:

“Oi titio”! “Não vê que sou linda? Quem disse que poderá ir à praia sem me levar?” – Como essa doce criança soube de minha pretensão? Então decido sem medo de errar... não vou a lugar nenhum! Fico em casa e com a menina Cecília dos meus encantos ficarei a brincar.
Wilson Muniz Pereira
Enviado por Wilson Muniz Pereira em 11/11/2007
Reeditado em 27/11/2007
Código do texto: T732947
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Wilson Muniz Pereira
Campina Grande - Paraíba - Brasil
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Wilson Muniz Pereira