PACU NA BRASA OU UMA PESCARIA NO MATO GROSSO

Fui convidado para pescar no rio Miranda. Não sou versado nem fanático, mas aceitei acompanhar um grupo de dez conhecidos na aventura.

A viagem levou vinte e seis horas ininterruptas, metade do tempo num carro velho e a outra metade num caminhão de marca e origem desconhecidas.

A perseguição ao destino foi frenética. Constitui ofensa a sugestão para almoçar ou jantar. As paradas, poucas e rápidas, são destinadas a lanche ligeiro e breves visitas ao toalete.

A escolha do lugar para acampar a beira do rio é demorada, pois as opiniões são conflitantes. Por fim, os veículos são efetivamente imobilizados num lugar que me pareceu igual a todos os outros.

As tralhas são descarregadas e montam-se as barracas. Sou, então, apresentado ao cozinheiro. Venho a saber que não participa das despesas da viagem mas nos acompanha com a incumbência de cuidar do “rango”.

Desde a chegada ele desdobra-se procurando montar a cozinha do acampamento e fazer imediatamente o jantar porque todos reclamam de fome.

Não levou muito tempo para ficar pronta a comida. Compreendia um arroz do tipo "unidos venceremos" com uma carne azulada que fora trazida pronta e, um espaguete semi-cru com molho feito com puro extrato de tomate.

Estou acabado, pensei com meus botões. Sempre é bom perder alguns quilos, mas não estava preparado psicologicamente para fazer dieta neste fim do mundo. Ainda mais, no meio de uma quantidade maluca de mosquitos.

Foi quando vislumbrei, desgarrada e escoteira no meio daquela parafernália culinária, uma apetitosa latinha de sardinhas. Degustei-a, lenta e concentradamente, sem desperdiçar sequer as crocantes espinhas, com duas divinas fatias de pão de forma.

Salvo, com o estômago já calçado, tive uma idéia genial. Com certeza, não precisaria conformar-me com este jejum forçado. Ao contrário, bem poderia deslocar-me à cidade mais próxima para realizar algumas compras. E assumir a função de "chef de cuisine" improvisado já que lidar com anzóis e minhocas gosmentas nunca fora o meu forte.

Foi o que fiz. No dia seguinte, bem cedo, fui a uma pequena cidade que ficava a cerca de uma hora de viagem e comprei o que julguei necessário.

No outro dia todos puderam deliciar-se com uma esplendorosa feijoada completa. Porque era quarta-feira e, de peixe, ainda ninguém vira a cor.

Na quinta, o prato do almoço foi bacalhoada tradicional. Gratinada ao forno, com batatas, pimentões, cebolas e azeite português extra-virgem. O arroz que a acompanhava, solto como uma criança. E alvíssimo, como de rigor.

Na noite do mesmo dia, todos já empanturrados de tanto comer, optei por algo mais leve. Um caldo, cremoso, de ervilhas com bacon.

Até então, não se pescara nada. E, esta aventura, pensei, acabará por transformar-se numa excursão gastronômica.

Foi quando, já por volta das dez horas da noite chegou o Zé. Retardara-se na tentativa de pescar qualquer coisa na barranca do rio.

“Não peguei nada”, disse. “Mas estou com uma fome de doido. Sobrou alguma coisa para comer”, perguntou.

Não esperou resposta. Dirigiu-se ao fogão, abriu o forno e dele tirou uma travessa.

“Pô!” exclamou. “Tem, ainda, feijoada de ontem!” E serviu-se, de forma generosa, quase completando o prato fundo que trazia às mãos.

Remexeu nas panelas por sobre o fogão. “Legal”, disse. “Sobrou bacalhoada do almoço”! E, sem titubear acrescentou algumas grandes colheradas ao prato.

Ao rebuscar, finalmente, as caçarolas, deparou com a sopa. E, virando-se para mim, que a tudo, silente, observava, perguntou: “Que é isto?”

“Sopa creme de ervilhas com bacon”, ousei responder.

“Jóia!” comentou. E recobriu tudo com o líquido já frio, de um caldo que fora, ao fumegar, deslumbrante.

Sentou à mesa, misturou tudo, e pôs-se a ingerir a gororoba que fizera. Com uma colher de sopa, é claro, pois outro talher não serviria. Só parou depois de engolir tudo o que o prato continha. E, com um sonoro arroto de satisfação deu por encerrada a sessão degustativa.

Levantei-me e, calmamente, participei a todos que não iria mais cozinhar.

Tenho a firme convicção de que ninguém entendeu minha inexplicável decisão. Também não me dei o trabalho de justificá-la.

Na realidade eu é que estava errado. O cozinheiro que levaram na aventura, com seu arroz empapado e macarrão cru, era o chefe certo para comandar a cozinha.

Entretanto algo surpreendente aconteceu no dia seguinte. Por volta das dez horas um dos pescadores compareceu exibindo, glorioso, dois pacus, cada qual com aproximadamente três quilos.

Os olhos do cozinheiro se acenderam e com alegria estampada no rosto, deles se apoderou. Com perícia abriu-os ao meio no sentido do comprimento, cortou suas cabeças, retirou as vísceras, as nadadeiras e a extremidades internas da barriga que são as partes mais gordurosas. Depois temperou-os com sal e regou-os com abundante suco de limão.

Acompanhava atento seu trabalho e vi-o com extrema habilidade preparar uma boa quantidade de molho vinagrete, picando tomates, cebolas, salsa e misturando tudo com sal e vinagre.

Acendeu a churrasqueira e quando se formou aquele bonito braseiro colocou ambos os peixes na grelha com o lado das escamas voltado para o fogo. Assim os deixou por algo em torno de meia hora quando ganharam uma belíssima cor dourada, a carne começando a rachar.

Nesse momento, com um garfo retirou os maiores espinhos e, em seguida cobriu-os com o molho preparado. Outros trinta minutos se passaram.

Os peixes, aos poucos, começaram a desprender uma levíssima fumaça branca, envolvente, extremamente perfumada que invadiu a floresta, como a convidar os comensais para o almoço.

Que não tardaram a chegar para degustá-los.

Acompanhei-os, pois também estava com fome. E não me importei com o arroz grumoso nem com a farofa esturricada. Pois o peixe estava com a textura correta, aroma e sabor divinos, a dispensar qualquer acompanhamento, que não o estupendo molho que o recobria.

Senti, mais uma vez, que sempre estivera errado. Pois corretíssima fora a escolha do cozinheiro.

Porque nenhum dos pescadores pensou encontrar comida cinco estrelas no mato e a beira do rio. Só queriam peixes. E apenas precisavam alguém que soubesse prepará-los.