XAME DE FEZES

Cheguei aos 55. Estou naquela fase em que o cidadão, muito pouco ou quase nada, consegue estimular uma competição entre os planos de saúde para conquistar seu cadastramento, o que ocorre em igual proporção quanto aos planos funerários.

Daí, resolvi enfrentar a agonia das filas do nosso sistema de saúde e fazer um  check-up.

Levantei às 06h00, peguei três filas para apanhar três ônibus e cheguei ao hospital por volta de 08h00. Ao meio dia (que rapidez), eu já estava de volta com uma consulta marcada para a semana seguinte.

Na outra semana, repeti os três ônibus e após esperar umas duas horas na recepção, a atendente me encaminhou para uma tal de Dra. Sandra, que nem precisava me receitar nada,  ela, em sí, já era um santo remédio. Loira, olhos verdes, um decote generoso que dava total liberdade aos seus lindos seios, pele bronzeada, um sorriso lindo...

Nem sei bem o que ela me falou. Só ouvi a última frase:

_ O senhor vai fazer todos esses exames e trazer o resultado para que nós possamos fazer uma avaliação.

No caminho de volta, tentei ler alguma coisa no pedido. Não entendi nada. Letra de receituário é uma literatura muito restrita aos farmacêuticos. Preferi guardar o pedido e tratar de coletar o material para  os exames e ir ver aquela gostosona de novo.

Nem tudo é como a gente quer. Eu tenho problemas com intestino preso e se a vontade não chegar, meu amigo, nada feito.

Esperei dois dias. No terceiro dia resolvi dasafiar o organismo e decidi: vai ser amanhã!

Levantei mais cedo do que de costume, fiz alguns exercícios de ralaxamento que aprendi com a minha professora de contação de história e fui pro banheiro. Estendi um papelão no chão (não sou muito bom de mira e não iria acertar aquele potezinho no ar, nunca). Agachei e dei início à empreitada. tentei, pelejei, nada! Insisti! A vontade até que empurrava tudo tripa abaixo, mas na hora "H" se desfazia em borbolhas ou num~" pum" estridente, cujo som e fedor, corriam todo o banheiro, avançavam cozinha afora e ia dar no meu quarto, de onde a minha mulher gritava:

_Êta ferro! Ocê vai acordar todo mundo!

Mas eu sou homem de desanimar? Não, não sou.

Respirava fundo, prendia a respiração, trincava os dentes e tentava de novo, entre gemidos que pareciam estar saindo de uma calorosa relação sexual. Meia hora depois, a vitória. Consegui soltar sobre o papelão uns três ou quatro caroços de razoável tamanho e de insuportável fedor. Era o bastante!

Gastei mais quinze minutos de rara habilidade numa operação de alta precisão para conseguir, com aquela pazinha pequenininha,  fazer com que os caroços fossem do chão até o potezinho.

Mas tudo bem! Lá fui eu, em jejum, e com aquele constrangedor conjunto de fezes e urina, envoltos numa sacola de plástico de súpermercado onde se lia em grandes letras:  PROMOÇÃO DO DIA!

 Cheguei ao laboratório e peguei na recepção a ficha de nº 267. Duas horas depois me chamaram pelo número no guichê dez.

Quando cheguei lá, outra linda mulher me atendeu. Pegou documentos, pedidos e perguntou solícita:

_  O senhor trouxe o material?

Lembrei-me do meu esforço, (graças a Deus, consegui)desfiz o embrulho da sacola plástica e, colocando tudo sobre o balcão, respondi com um certo ar de triunfo:

_ Claro! - E coloquei os dois potes em cima do balcão. Coisa constrangedora...

A gentil senhorita deu uma olhada pra mim, desviou o olhar  para o material, tornou a olhar os pedidos de exame e disse:

_ Bem, a Dra. Sandra só pediu exames de sangue e urina. As fezes o senhor pode voltar com ela?

Como assim? "Voltar com ela..."  A médica não houvera me dito "todos os exames"? Que merda era essa agora?

Pensei em destampar o pote ali mesmo, despejar os três caroços em cima do balcão e mandar a atendente enfiá-los onde melhor lhe aprouvesse. Mas dizem que essa merda, "quanto mais mexe mais fede". Resolvi deixar pra lá.