Eu sei preparar um feijão delicioso.
 
Sou bastante rápido nessa preparação. Se uma pessoa normal gasta cerca de uma hora e meia ou duas horas, eu imagino que, com trinta minutos, o assunto já deve estar resolvido.
Além dessa diferença, não uso as folhas verdes.
A inspiração dos gafanhotos geralmente adotada não me seduz.
 
Eu uso apenas um tempero básico (tomate, pimentão e cebola), nada mais! Não esqueço o charque o qual precisa ser bem aferventado antes de acrescentar à panela.
Usando algumas rodelinhas de calabresa, bastante extrato de tomate, uma panela de pressão que funcione, sabendo verificar o sal, teremos um feijão muito interessante.
 
O toque especial de Ilmar (o toquemar) está no caldo do bife.
Preparando alguns bifes, gosto de derramar o caldo no feijão.
Já experimentaram o meu feijão pessoas enjoadas, difíceis de elogiar, meticulosas, exigentes demais. Elas ficaram maravilhadas.
Todas lamberam os beiços e pediram bis.
 
Ultimamente eu “perdi a mão”, nunca mais acertei preparar esse feijão, porém não estou escrevendo para chorar as mágoas do feijão que não consigo repetir.
Nada disso!
 
Desejo citar alguém que conheci o qual superava minha criatividade.
Meu pai também sabia fazer um feijão gostoso.
Eu não arriscaria dizer que era mais saboroso do que o meu, no entanto ele cozinhava diariamente e jamais frustrou o estômago alheio.
 
O meu feijão exige um certo ritual de preparação.
Sem os ingredientes ou sem o caldo do bife, eu fico desorientado.
Painho não ligava para rituais culinários e sempre dispensou os bifes.
Quando faltava um ingrediente, ele usava o velho provérbio:
Se não tem tu, vai tu mesmo!
 
Um detalhe importante era o tempo gasto.
Trinta minutos, na concepção de painho, parecia demorado.
No final, saindo do fogo, tão excitante quanto os corpos femininos, nós provávamos um feijão inesquecível e capaz de enganar a fome.
 
Sempre engraçado e esbanjando ótimo humor, meu pai escolheu um nome para o feijão o qual preparava.
Ele dizia que o feijão dele era o caiduro.
Certa vez, uma namorada de um dos meus irmãos, faminta, adentrou a cozinha e encontrou o meu pai sorridente.
_ E aí, sogrão! Tem alguma coisa para comer?
_ Hoje eu somente preparei um caiduro, querida!
 
Mais tarde, meu irmão, procurando a namorada, percebeu que a gata havia sumido misteriosamente.
A sincera informação sobre o caiduro, fornecida daquela forma jovial e espontânea, espantou a moça.
Talvez ela tenha pensado assim:
“Caiduro? Esse velho deve ser louco!”
 
Jamais retomaram o namoro, meu irmão não entendeu nada, meu pai passou a narrar essa história, aumentando os seus sensacionais causos os quais eu adorava escutar e hoje posso transformar em textos.
Faltando inspiração, contando com minha pouca habilidade literária, roubo as aventuras do Velho Tonho e tento ganhar uns pontinhos.
 
Certamente o mundo ficaria menos inquieto se as pessoas pudessem provar os caiduros da vida. Existindo vários caiduros, seria bem melhor!

Após a partida de painho, o planeta perdeu uma alma fascinante e não apareceu outro indivíduo que soubesse fazer um caiduro.
Sabem cozinhar feijoadas ou feijões simples.
Eu talvez ainda acerte preparar o meu feijão especial.
 
Mas a receita do caiduro meu pai levou com ele.
Que pena!
 
Um abração!
Ilmar
Enviado por Ilmar em 24/09/2014
Reeditado em 24/09/2014
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