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A arte de ser povão

Ser povão é padecer no purgatório, sempre tendo fé na luz no fim do túnel, mas cuidado que pode ser gato! Ser povo é uma ciência,nascem sob o signo do "se vira" mesmo sem saber pra onde, o povo pode ser resumido ao "Vardinho", figurinha carimbada da comunidade, todos o conhecem, sempre com um sorriso no rosto marcado pelo tempo implacável, trajado com uma camisa surrada do flamengo de 85, bermuda produzida a partir de uma velha calça jeans, sandálias de couro, óculos de Ronaldo e corrente banhada em ouro. Vardinho só descobriu que se chamava Oslvaldo quando foi convidado a ser padrinho de casamento da prima Creuza, porque foi solicitado um registro de identidade do distinto cavalheiro, a cerimônia foi bonita, mas só foi realizada no fim do ano porque o barracão da comunidade estava em reforma. Como manda o figurino a festa foi embalada pelo guaraná morno servido num tacho pela comadre Mirtes que se dispôs inclusive a trazer a concha de feijão para facilitar a distribuição do mesmo. Os quitutes foram carinhosamente alcunhados de "drops" devido ao seu tamanho singular, quando chegou a hora do tradicional "leilão da gravata", Juarez consegui arrecadar nove cruzados e dois botôes de casaco.
 Todo mundo tem uma história do Vardinho pra contar, o Belarmino do espetinho se emociona ao lembrar que sem a ajuda do vizinho ele nunca teria conseguido terminar a laje do seu "puxadinho", já o seu Beiçola recorda que quando cortaram a luz no barraco dele Vardinho teve a caridade de fazer um rabicho impedindo assim que Beiçola gastasse seus preciosos compensados que escoravam a barraca de tubaína para fazer uma fogueira dentro de casa.
 Mas os grandes momentos são os pagodes na casa do Vardinho, esta é a única oportunidade onde ele consegue reunir seus 72 sobrinhos, não raro algum vizinho espírito de porco chama a polícia para acabar com a folia, a solução é encostar o Escort "tunado" do Bilé na frente do barraco, abrir a porta do bagageiro e ligar um funk no último volume, no interior do recinto, decorado com imagens do Preto véio, quadros do flamengo, miçangas e um quadro dos pais do Vardinho, circulam os figurões da comunidade: A segunda esposa do Vardinho com seus quatro filhos do primeiro casamento, os outros quatro filhos do Vardinho, o Magrão, Bigode, o Pipoca o Gringo e o xirú, somente a nata da vila "Xambré do escorrega lá vai um".  Vardinho assiste sossegado do quintal ao lado da churrasqueira a festa que já vai tarde adentro, isso se a trajana (cadela do Vardinho) não roubar os espetinhos na brasa primeiro...
Boca
Enviado por Boca em 26/09/2007
Código do texto: T669009

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Sobre o autor
Boca
Curitiba - Paraná - Brasil, 31 anos
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