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Almas gêmeas

                                     
 Ah! A solidão mata... Foi assim pensando que Alfredo, um cinquentão bem apessoado, descasado há muitos anos,cansado de frequentar saunas com os amigos, entrou  no piano bar “Alone again”, em Ipanema.
          Já nem se lembrava quantas vezes  tinha estado lá à procura de um alguém. Alguém que realmente o completasse a quem ele pudesse dedicar todo o amor de toda uma vida vazia.
         Após sua separação, havia estado  com outras mulheres,por pouco tempo, mas por um motivo ou por outro, acabava  se cansando e a separação era sempre inevitável.
         Recentemente havia lido um livro no qual a "alma gêmea", o grande amor de uma vida, sempre existiu. A única questão era como e quando encontrá-la.
         Ah! Quanta insatisfação ! Palavras de amor que só o álcool conseguia por em sua boca, e que com o despertar da manhã,  fazia esquecer.
         Após o 3º uísque, o olhar que corria vago e tímido, agora aguça os  sentidos  como uma fera que espreita uma presa.O torpor em que Alfredo estava de repente é  sacudido pela abertura da porta do bar, que por instantes parece a do Olimpo.
        Adentra, Aline! Reencarnação da índia Potira,uma beleza morena de cabelos longos e pretos que brilhavam, mesmo à luz mortiça do ambiente.Sua presença parece ter criado um vácuo absorvendo a voz dos freqüentadores do bar.Aos  poucos o burburinho das vozes foi se transformando em murmúrio e aumentando gradativamente de volume até que os homens se acostumassem à sua presença.
       Alfredo, sentindo o coração saindo pela boca,vence a timidez e ato contínuo se precipita sobre ela,antes que um outro gavião solitário assim o fizesse.   A partir daí sua vida já não seria a mesma.O que parecia impossível, agora se materializava.A sua alma gêmea,tinha certeza, acabava de entrar por aquela porta de bar.

      - Prazer, Alfredo.
- Encantada, Aline ...

       A cada minuto de conversa mais Alfredo se encantava com Aline.Viúva desde há um ano e saindo agora do luto, viera a este barzinho para espairecer um pouco,não tanto por ela mas pela insistência de uma amiga. E aquele sotaque paulista,que ele tanto ridicularizava com os rr de “porrta”, “torrta”,agora soava como música aos seus ouvidos.
    De fato, Aline mexia estranhamente com todos os sentidos de Alfredo.Um homem já tão vivido parecia que agora , como um menino,  descobrira pela primeira vez a paixão  ou o que  pensava dela.
      Tarde da noite, levando-a para casa, um belo prédio de apartamentos na Barra, Alfredo,  excitado pelos  uísques ,tenta resgatar em minutos todos os afagos que sua carência afetiva pediam.Ela tímida, um pouco indefesa recua...A viuvez justifica a sua recusa.
      - Por favor, vamos a um último uísque em sua casa ? Ou então na minha ?
      Aline, como o inconsciente de Alfredo talvez quisesse , nega...
      Apesar dos tempos de liberalidade uma aventura passageira nunca virá a ser um grande amor.
    - Não, hoje não.Coisas de mulher, você sabe...Calma,o mundo não foi feito em um dia.
     Alfredo que no fundo sempre pensou que não podia entrar sócio de um clube que o aceitasse como sócio concorda resignado valorizando a conduta moral de Aline.
      Assim, era exatamente assim que ele queria sua alma gêmea.Vivida porém recatada, insinuante porém discreta, tímida  deixando antever um vulcão queimando dentro do seu  corpo de deusa.
     De fato, estava cansado da rotina do “vamos logo”. Façamos o que tem de ser feito como dois animais no cio...
   Muitas vezes as mulheres lhe causavam estranha insatisfação.Com Aline seria diferente.Entregava agora, as rédeas do seu tão desiludido  coração, para aquela que o guiaria pelo caminho da felicidade.Jurava que agora seria a última vez...
     Afinal,estar com Aline se tornou o objetivo maior de Alfredo.Conviver com ela,conhecendo-a melhor deixando que esta relação amadurecesse podendo assim colher  frutos mais doces.Se vingando agora do tão amargo passado que certamente deixara marcas profundas em ambos.

      A partir daí, foi aquela cara, porém deliciosa rotina.Jantares , cinema, teatro.Roupas novas,novos programas.
     Um amigo , seu confidente ,quando o  viu tão excitado perguntou:
     - E daí ? Ela é boa de cama ? , conhecendo o vivido cinqüentão.
     - Não, essa não é como as outras.Nem transei ainda.Essa é honesta.Estamos esperando o momento certo...
      Entre abraços sufocados,beijos desesperados,com os corpos clamando pela solução final, Aline e Alfredo programam um fim de semana em uma praia solitária.Não em qualquer uma, mas sim onde os dois pudessem ter  o apogeu  da flor que espera ser colhida após o tempo da semeadura.

     Santo Antônio de Itaboraí, no litoral fluminense, foi onde Alfredo alugou  uma casinha de pescadores dentro da praia, para consumar com seu amor a morte da solidão.
    Naquela praia os encantos do mar os  envolviam cada vez mais, fazendo com que os futuros amantes previssem as  loucuras que estavam por vir.
    Aline sai da cabana e,com uma roupa branca esvoaçante, corre em direção ao mar  fincando duas velas brancas  na areia.Perante a curiosidade do amante:
- Uma para pedir compreensão ao falecido e outra, para Iemanjá, agradecendo por ter te encontrado,meu amor ! Êpa hêi Iemanjá !.
    Almas gêmeas...Ela é espírita, ele também...
    Após algumas garrafas de vinho,tristezas da infância, juras de amor, lágrimas,desejos...
    - Meu maior sonho seria poder ter um filho teu.Com esta tua carinha de safado...
    Alfredo confessa nunca ter tido filhos.Nunca os quis.Achava que atrapalhariam o casamento.é obrigado a confessar uma vasectomia recente, às custas da desilusão com outras mulheres e também por já ter 4 filhos,com mulheres diferentes.Ah! Se arrependimento matasse...
    Duas lágrimas, simultâneas, rolaram na face de ambos.Lágrimas simultâneas, almas gêmeas...
    E assim os corpos se encontraram, sofridos e maltratados pelo destino na ânsia louca do amor e do prazer.Aline busca Alfredo e Alfredo busca Aline ; lábios, mãos,excitação máxima.Pernas, peitos, coxas ,loucura.Aline procura Alfredo e Alfredo procura Aline,e acha...
    Ela era...ELE! ! !


     Aline, digo Alinelson Silva de Jesus, 23 anos, solteiro, carioca,natural de Pau Grande,Estado do Rio,reservista de 1a categoria da Marinha,dá entrada,no pequeno pronto socorro de Santo Antônio de Itaboraí morto,vítima de uma violenta garrafada na cabeça.
     Ah ! O amor é cego...e a solidão mata ...

         "Quando o amor acontece a gente esquece o que sofreu um dia..."
                                                                                      (João Bosco)
         “Quando Deus fez o sapo, fez também a sapa "
                                               (provérbio popular)



                                                                                                                             
Pedro Luiz Cipolla
Enviado por Pedro Luiz Cipolla em 11/09/2019
Código do texto: T6742676
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Sobre o autor
Pedro Luiz Cipolla
Amparo - São Paulo - Brasil
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