Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Dos escombros da guerra patriótica

Estou escondido. Eles estão lá fora. Ouço explosões. Há comunistas em cada esquina. Não consigo mais dormir direito. Tudo está chegando ao fim e em breve a liberdade novamente será apenas um sonho.

A verdade não importa mais. Os comunistas dominaram a verdade e contarão a história do jeito que quiserem. Meu Capitão será lembrado como um ditador genocida qualquer.
Essa nação estava envolta no caos antes dele chegar. Ele tomou as rédeas, eleito democraticamente, porém nunca o deixaram governar e fazer o que tinha que ser feito: Finalmente trazer para o povo brasileiro a liberdade e a democracia.

O tempo todo infernizaram sua vida.

Quando a pandemia começou, ele tentou alertar sobre o perigo de pararmos com a economia através do absurdo isolamento horizontal numa tentativa vã de nos isolar do vírus. O Capitão foi massacrado pela extrema-mídia, que é toda comunista ultra-radical-intolerante e faz parte da conspiração globalista — como agora já deve ser de conhecimento geral.

O Capitão foi chamado de insano, despreparado e genocida.
Então ele fez ainda mais: Apresentou a cura! Um medicamento que diminuía consideravelmente os efeitos do vírus e que nos daria a chance de lutar para manter a economia viva, mesmo se contaminados.
Novamente, a extrema-mídia comunista tratou de desacreditá-lo e ridicularizá-lo. Logo “surgiram” estudos desconsiderando a cura. Meu Deus. Quantas vidas poderiam ter sido salvas se tivessem tratado os infectados desde o início! Como essa gente é assassina…

Criaram escândalos atrás de escândalos, mentiras, absurdos, fake news, a fim de desestruturar o Capitão e abalar a nossa fé em seu trabalho. Mas a gente já havia sido alertado de que isso poderia acontecer. Tínhamos nossa própria rede de informações confiáveis. E nossa fé se manteve inabalável depois de tudo.

Assim como o outro Messias, ele também foi traído. Várias e várias vezes. Quase todos ao seu redor estiveram secretamente conspirando junto aos comunistas para derrubá-lo. Até mesmo o juiz herói, que tanto protegemos, revelou sua verdadeira face e suas pretensões eleitorais.
Foram traições chocantes, mas foi algo bom, pois em pouco tempo pudemos ver até onde esse mal oculto se estendia. Até mesmo os outros Poderes estavam corrompidos. Somente nosso Capitão permanecia na causa da Justiça e da Liberdade. E TODOS estavam contra ele. Porém, ele não estava sozinho.

Não aguentamos ver nosso Capitão ser tão massacrado e, mesmo em meio a uma pandemia, fomos às ruas! Só isso já deveria bastar para mostrar ao mundo de que lado estava a Verdade. A voz do povo clamava pela verdade e pelo direito do nosso representante maior finalmente poder exercer suas funções.

Também começamos a ser atacados. A liberdade de expressão deixou de ser um direito. Os outros Poderes mostraram suas garras negras, e todos que apoiavam o Capitão passaram a ser perseguidos. Casas foram revistadas, inocentes foram presos, a Constituição rasgada e jogada no lixo.

Nossas fontes confiáveis repetiram mil vezes que tudo ficaria bem, que tudo era apenas uma estratégia — fingir o fracasso para em seguida contra-atacar. Muitos deles acabaram apagando seus canais e saindo do país. Era uma debandada. Em pouco tempo estávamos sozinhos, o povo e o Capitão.

Continuo escondido. A perseguição se acirrou. Não se pode mais pronunciar o nome do Capitão. Hoje amanheci ouvindo explosões perto. Muito perto. Estão festejando. Liguei na Globo-Lixo, pois foi o único canal que a ditadura comunista deixou impune.

Na tela estão vários engravatados sorrindo e pulando sob um placar.
Estão segurando cartazes com os dizeres em verde e amarelo:
“ACABOU, PORRA”.
Lucrécio de Souza
Enviado por Lucrécio de Souza em 08/07/2020
Reeditado em 08/07/2020
Código do texto: T6999568
Classificação de conteúdo: seguro


Comentários

Sobre o autor
Lucrécio de Souza
Adamantina - São Paulo - Brasil, 39 anos
9 textos (1894 leituras)
1 áudios (219 audições)
1 e-livros (31 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/08/20 07:03)
Lucrécio de Souza