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Fogo da vingança

Ubaldo até que era um coroa enxuto. Sempre muito falante e exibicionista, Não se conformava com a perda da juventude que não podia mais agarrar. Desta forma, passou a agarrar as vizinhas mesmo... 

Das Dores, sua esposa, a sombra necessária em sua vida, era quieta, pensativa, não expunha seus sentimentos. Ela sofreu muito com aquele homem e, quando pensava que as coisas iam acalmar, lá vinham suas suspeitas aterradoras.
 
O casamento se mantinha por anos a fio. Primeiro, eram os filhos, depois, o costume. Aquela célebre frase: Ruim com ele, pior sem ele. A rotina trilhava calma. Esposa cega, mas sábia e marido arisco, mas companheiro. Não lhe faltava nada. Era melhor não futucar para não saber as verdades.

Até o dia em que Das Dores pegou a “doença”. Para ela era mais que a doença “da vida” – era a doença da morte. 

“Tudo, menos isso. Aquele desgraçado vai pagar caro!”. Não havia jeito de o médico confirmar suas suspeitas, mas ela era esperta e procurava se informar. As possibilidades eram enormes.

Das Dores chegou em casa, abriu a boca do marido e botou uns comprimidos:
“Toma, miserável e vai se tratar”. Era o máximo que ela conseguia dizer. Em seu casamento nunca houve diálogo e ela vinha de uma educação muito repressiva, onde não havia espaço para a voz feminina.

Ubaldo, sem saber do que se tratava, simplesmente engoliu a seco o remédio como uma criança obedecendo à mãe.

Ele já tinha umas ziquiziras lá em baixo e estava piorando vertiginosamente. Nem conseguia vestir as cuecas sem gemer de dor. Naquele momento, vestiu a carapuça e não falou mais nada.

Dormiram em silêncio, como em silêncio foram todos aqueles anos - o grito calado, o protesto sufocado, o olhos fechados, e a vida seguia.

Ubaldo procurou em vão todos os especialistas, os mais renomados, para se tratar daquele troço. Não faltaram gastos com medicamentos - pomadas, comprimidos, ungüentos, uma verdadeira farmácia em casa.

Por dentro, ela estava adorando ver seu sofrimento (e havia motivos).

Apesar de sua formação religiosa não permitir, ela procurou um pai de santo. Magia negra mesmo, daquelas pesadonas. E fez o “serviço”.

Seja lá como for, sendo por “santo” ou pela sua raiva, as coisas não caminhavam bem com o seu companheiro. Dava até dó de ver... Todo dia ela servia sua comida, passava sua roupa, organizava as meias. Uma companheira exemplar, entretanto misturava culpa e prazer em seus pensamentos.

Até que chegou o dia de lavar a roupa suja e colocar pendências em pratos limpos. Ele confessou:

-“Foi a Judith, filha. Aquela mulher me seduziu. Não tive culpa. Você estava brigada comigo e eu tava lá na casa dela, pregando o armário na parede, aí... Você sabe da fama dela!”.

Ela pensou em retrucar: Pregar um armário não dava direito a outras marteladas, mas quem disse que saía a voz? Afinal, foi ela mesma quem insistiu pra ele ajudar “aquela piranha, vagabunda de uma figa, amiga traidora”.
 
“Isso só pode ser praga dos céus”, falou o marido arrependido.

Das dores omitiu o trato com o feiticeiro: que ele só ficaria bom quando se arrependesse. Ficou com pena, mas não podia dar o braço a torcer.

- “Vai procurar um macumbeiro!”, disse ela, num tom de acusação e revolta.

Ele estranhou, porque a esposa era carola demais pra estar recomendando tal coisa, mas achou excelente idéia - “Os tempos mudam...”.

Nosso amigo procurou um caboclo porreta que dava jeito em tudo. Lá chegando, o poderoso mandou que ele tirasse as calças e mostrasse a paisagem.

Ubaldo não entendeu nada. Era uma consulta médica ou espiritual?! Não dava pra voltar atrás. Ele cedeu e abaixou a cueca.

O velho olhou de cabeça baixa, muito sério e deu um risinho maroto:

- “He, he, he, mizi fiu! Isso tá parecendo praga de mulher - O fogo da vingança...”.

Pobre Ubaldo, pobre pintinho. Estava mesmo um fogo terrível nos países baixos e olha que o que não faltou foi água. Ele tinha acabado de ver pela manhã um pimentão igualzinho na mercearia e em melhores condições!

A saga de Ubaldo durou 7 semanas, 7 banhos ao dia, durante 7 minutos cada um e lhe mandaram rezar 7 vezes a Ave Maria a cada banho. Um cerimonial. O número 7 já fazia parte do seu dia a dia.

Das Dores, pacientemente, fervia 7 ervas para o banho e torcia para o homem ficar logo bom.

Ele melhorava consideravelmente, e chegou o grande dia da estréia do novo pimentão (com das Dores, claro...). Foi uma noite inesquecível, como muitas outras adiante.

Ela pensou, então, que tudo estava resolvido, que se redimira de seu pecado, mas não se deu por rogada:

- “Olha, Uba (na hora do sexo havia até apelido agora), desta vez passa, mas se houver uma próxima, vai ser que nem pomada pra calo: endurece, apodrece e cai”.

O marido estava tão satisfeito que não deu ouvidos (Abstinência dá surdez...). O sujeito era impossível. Assim que começou novamente a sair de casa, já estava de olho nas boazudas das redondezas.

Uma lá era demais. Uma bunda que dançava ao sabor dos passos. Um reluzente colo. Uma morenaça de nocautear qualquer um.

“A Das Dores já teve este alcolchoado. Agora tá murchinha”, lamentou ele.

Não prestou: Deu mole, o Ubaldo compareceu!

Na casa da moça a coisa estava toda arranjada para um encontro casual. Ele se preveniu desta vez. Já tinha em casa um monte de camisinha de todos os modelos, que a esposa o obrigou a usar. Ela nunca usou antes, mas estava em tempo de aprender. Por outra ela não passava.

A dona sentou em cima dele e começou a gritar: “Me faz suar, me faz suar!”. 

A princípio, ele pensou em desligar o ar refrigerado para fazer o clima... Só que o ex-pimentão não colaborava - um sono total. Aquilo dava nervoso até de ver. Aquela mulher em cima dele rebolando como uma odalisca e ele a vendo como uma naja. E o seu legume reformado nem se manifestava...

- “O que tá acontecendo, Baldo ?” (Ela também apreciava apelidos). Quantos anos você tem?”.

A nossa vítima não se dava conta do deboche da pergunta e respondeu o mais rápido possível, para ver se algum diálogo surtia o efeito desejado:
 
- “Setenta e bem vividos!”.

A ninfa insaciável soltou uma gargalhada:

- “É isso! Cê tenta, cê tenta e nada!”.

Ele estava tão decepcionado que nem ligava para as palavras cruéis da nova namorada e só vinha à sua mente o número 7.

Explicado!!! Era o 7 da vingança, o 7 maldito dos infernos. O FOGO DA VINGANÇA agora afetava as bases de sua dignidade.

Foi fácil sair dali. O difícil foi voltar pra casa e olhar para sua esposa. Aquela feiticeira, que ele alimentava por tanto tempo, agora o fazia comer nas suas mãos.

O tempo urgia e ela poderia desconfiar. Teve que apelar de novo para a macumba.

O curandeiro riu ao o ver voltando, pipetou seu cachimbo para esconder a graça e adivinhou: 

- “Vós micê tá pensandu qui aqui é só teu expurgatório? Agora tu vai tê qui si virá lá fora”.

Ele não alcançou o nível da mensagem e saiu de lá com uma série de obrigações a cumprir, que, claro, desistiu de manter, uma vez que sentiu que o seu caso era pra psicólogo ou mesmo, para um alquimista.

Até hoje Ubaldo está à cata de sua cura. Ele não comeu mais ninguém, desde então. Nem a Das dores ...

Leila Marinho Lage

Leila Marinho Lage
Enviado por Leila Marinho Lage em 02/11/2007
Reeditado em 19/01/2011
Código do texto: T719888

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Sobre a autora
Leila Marinho Lage
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 59 anos
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Leila Marinho Lage

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