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                   A Formiguinha 



Meu pai era um cara sisudo e muito severo com os filhos, me lembro de apenas uma vez ter lhe dado um abraço. 

Ele, talvez por querer manter o respeito, mantinha 
distância dos filhos, não era chegado a carinhos, beijinhos e todas essas coisas. 

Minha sobrinha Rossanna de tres anos chega ao meu pai, pula no colo dele, e pede para que ele contasse uma estórinha da fumiguinha

Pego de surpresa, ele não teve tempo de esboçar nenhuma reação de afastamento, além do que ele nunca contou estorinhas para nós, nem sei se sabia alguma.. 

Mas entre surpreso e aturdido pensou...pensou e arriscou:: 

- Lá no sítio do vô tinha um carreiro de furmiga que tava cortando o café e o calípio que o vô plantou... 

Pensou... 

- Continua vô. Pedi a menina. 

- Bem . . . o vô chamou o Djarma e mandou tocá veneno nos oieiros. 

- E daí vô ?  

- Bom, foi uma beleza, no outro dia todas tinham morrido.
A menina cai em prantos e sai correndo para o colo da mãe gritando: 

- Mãe...mãe ... o vô matou todas a fumiguinhas....buááá...buáá 

Meu pai para consolá-la diz: 

- Se voce parar com essa maldita choradeira, amanhã cedo eu mando o Djarma ressuscitá as furmigas. 

Ela parou de chorar. 

Ele se levantou da poltrona, pegou o indefictível chapéu e saiu à rua resmungando: 

- Mais di tardi mando matá di novo ! 



* PS Quando crianca a gente vê as coisas por uma ótica diferente e só o tempo nos mostrará a verdadeira realizade e razão de ser das coisas. 

Nós, eu e minha irmã, naquela época tínhamos mais temor do nosso pai que própriamente respeito. 

Tínhamos até uma ponta de inveja dos primos aos quais o pais os abraçava, beijava, pegava no colo e os colocava nos joelhos. 

Pais que contavam estórias, brincavam e riam com os filhos. 

Nos mantínhamos duros e fortes, havíamos aprendido com nosso pai que devíamos ser fortes e não choraminangar pelos cantos à qualquer revés da vida, não deveríamos ser iguais a outras pessoas, deveríamos superar dificuldades e certos sentimentos eram apenas fraqueza de caráter. 

Com o passar do tempo, nos tornamos adultos, tivemos nossos filhos e passamos a entendê-lo. 

Com a compreensão passamos à admiração e aí com uma convivência mais próxima e amiúde, passamos a entender suas razões e maneira de ser. 

Dessa admiração, entendimento e respeito nada mais consoante que a inevitável transformação no mais nobre sentimento, o amor. 

Amor puro e verdadeiro consolidado na força do parentesco, da consanguinidade, da proximidade e do respeito mútuo. 

O amor está latente entre pais e filhos aguardando o momento de finalmente eclodir, uns demoram mais que outros, afinal cada qual tem seu tempo e esse processo 
deve ser natural e não de forma induzida. 

Isto tudo porque no íntimo de cada ser humano há intrínsico o desejo de amar e ser amado. 

Se ao este escrever, um lágrima teimar em descer, desculpe o teu filho ao qual ensinaste a ser durão, no entardecer da idade me faço sentimental. 

Ô meu velho . . . quanta saudade e quanta falta o senhor nos faz !

Ge Daun, 01/02/07
GDaun
Enviado por GDaun em 02/02/2007
Reeditado em 02/02/2007
Código do texto: T366821


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Sobre o autor
GDaun
Lupércio - São Paulo - Brasil, 76 anos
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