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A VASSOURA E O PANO DE CHÃO

 Era uma vez uma vassoura que vivia atrás de uma porta. A coitada não era usada como antes. Estava velha e a dona da casa já não precisava tanto dela. Um dia, muito triste, a vassoura resolveu desabafar com o pano de chão que estava pendurado num prego.
- Pois é amigo! Um dia eu cheguei nesta casa e tinha muito chão para varrer. Lavava o imenso quintal, vasculhava as paredes, deixava quartos, salas e banheiros brilhando de tão limpos. Agora, meu amigo, eu sou nada. Veja o meu fim, a minha decadência.
- É, dona vassoura – disse o pano de chão – o tempo passa e chega o dia da aposentadoria. Olhe para mim, eu já estou quase me aposentando. Já estou desfiando nas laterais, tenho um pequeno furo no meio, estou encardido, logo serei substituído por outro novinho em folha.
- Não estou me referindo ao estado de conservação, estou falando de ser deixada de lado, de substituída por um tal de aspirador de pó, essa máquina infernal, barulhenta, sem história, sem tradição.
- Mas dona vassoura, isso não é bom? A senhora pode descansar, ficar quietinha aí no canto sem ter que trabalhar tanto.
- Não, meu amigo. Não posso parar. Tenho de cumprir a minha sina.
- Amiga, não fique angustiada. Ninguém pode negar o seu valor na história. Sabe que você representa o poder feminino de efetuar a limpeza de elementos negativos dos ambientes?
- Eu sei meu amigo. Por isso as minhas ancestrais eram feitas de ramos de louro, arruda, manjericão, alecrim, alfazema. As donas de casa juntavam todas as ervas ou escolhiam uma que amarravam em torno de um galho construindo uma vassoura perfumada para purificar o ambiente.
- Isso é tão bonito, dona vassoura! – exclamou o pano de chão comovido.
- É meu amigo, mas existe o lado oposto.
- Lado oposto? Que lado é esse?
- Antigamente diziam que nós, as vassouras, éramos avião de bruxas e que elas viajavam pelos ares montadas em vassouras. A partir dessa crendice a vassoura ficou com má fama.
 - Cruz credo amiga! Mas as vassouras faziam parte do folclore de alguns países, não verdade dona vassoura?
- Sim, meu caro! Dos romanos aos chineses. Éramos colocadas atrás de uma porta com o cabo para baixo para que a visita indesejável fosse embora rapidinho.
- Aposentadoria não é o fim do mundo, dona vassoura. Veja quanta coisa boa vocês fizeram, ao passo que o aspirador de pó não tem um currículo igual ao seu. Você ainda tem serventia.
 E o pano de chão deu uma risadinha ao ouvir a voz da dona da casa dizendo para a empregada:
- Maria hoje nós vamos limpar o quarto das crianças.
- Sim senhora. Vou buscar o aspirador de pó.
- Não. Traga aquela vassoura que está atrás da porta do quartinho e o pano de chão que está pendurado no prego.
- O pano de chão muito alegre disse para a vassoura:
- Viu dona vassoura? A nossa serventia não termina nunca. Aspirador de pó não pode lavar o chão como você nem secá-lo como eu.
 
 08/12/17
(histórias que contava para o meu neto)
Maria Hilda de Jesus Alão
Enviado por Maria Hilda de Jesus Alão em 08/12/2017
Código do texto: T6193341
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Sobre a autora
Maria Hilda de Jesus Alão
Santos - São Paulo - Brasil
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Maria Hilda de Jesus Alão