Fingindo que dormia, Maria Emília descobriu o rosto,  tentando  compreender o que pensava a amiga a respeito dos monstros  apresentados às crianças como inofensivos brinquedos.
— Não existe monstro bonzinho — disse a boneca de pano — todo monstro que faz o bem, apresenta-se como justiceiro. Faz o bem a uma pessoa e o mal a outra em nome da justiça.  Conte uma estória para me fazer dormir!

— Posso contar a estória do Turco?
 — Não! O turco rapta crianças para vender na feira.
E  Ravenala desenhou uma ovelha gorda  numa folha de papel.
— Conte carneirinhos...
— Esta ovelha anda devagar. Devagar demais! O rebanho já passou...
Então Ravenala desenhou um rebanho pastando às margens da ribeira.
— Tens agora muitos carneiros e ovelhas. É só tocar para o redil, e contá-los na passagem da porteira. Todas branquinhas, bem branquinhas...Vá contando...
— Já  contei 99 e ainda não consegui dormir.
— É porque uma desgarrou-se! Não dormirás enquanto não encontrares a ovelha perdida. 

A noite avança. Entre um e outro piscar de olhos, Emília refaz na mente o diálogo que presenciara entre   Ravenala e Robert: “O livro não pode ser escrito apenas  com a lembrança assustadora de quando  o pé ficou preso entre o vão da plataforma e o trem.”  “Pense positivo, Robert! Posso tecer um conto na alça do intestino de outro...  amarrar uma crônica no rabo da saia de outra crônica... Quebrar estruturas, refazer caminhos, reconstruir estradas, enfim, estabelecer aliança entre a ficção e a realidade. Tornar realizável o impossível, porque o possível é meta dos acomodados. Ouça a voz do vento. Ele fala da rosa, e nada diz dos espinhos.”
Emília se mexe na caixa de sapatos em que dormia.
— Ainda acordada, Maria Emília?
— Não consigo dormir.
— É porque não encontraste a ovelha perdida. Se há uma ovelha desgarrada,  o pastor não dorme. Encontre a ovelha, antes que ela seja apanhada pelo lobo.   A ovelha afastou-se do caminho apontado pelo pastor. Deve estar ferida! Desenha um cajado. 
— Quero um cajado com uma curva enorme!...
Ravenala rabiscou um cajado com a curva bem longa.
— Tome teu cajado. Puxe a ovelha que está à beira do abismo.
— Emília, Emília...
— Zzzzzzzzzz...

A boneca  dormiu e sonhou. Viu o paraíso perdido. E chorou: o mundo encantado estava em processo de desconstrução. Muitas bonecas foram  jogadas no lixo, porque lhes faltavam braço ou pernas; outras agonizavam arrastadas por  águas turbulentas da liberdade descontrolada. 


Adalberto Lima, trecho de "Estrela que o vento soprou..."
Adalberto Lima
Enviado por Adalberto Lima em 16/04/2018