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Alento Vespertino

      Final de tarde. Com os pintinhos banhados e trocados, a Galinha de penas brancas, que atende ao seu patrão pelo apelido de Branquinha, cochila em cima das pernas varetas, esperando serena pelo seu amor, um Galo índio Esporudo, bom de briga, em cima da travessa da porteira.
     Ao vê-lo, chama os filhotes e voa rasante para perto de seu bem. Beija-o, trocam carícias e após esperar pela ninhada, saem abraçados, com os pintos empoleirados, equilibrando em vossas costas.
             Todos os dias a cena teatral se repete; porém sem perder a emoção e o encanto de serem atores que são, em cada espetáculo encenado ao entardecer.
                "Qual o valor de uns grãos de milho?" - indagou à mãe, um dos filhotes. Ao que a penosa respondeu: "o seu papinho cheio, é a nossa felicidade e deleite, concorda papai Esporudo". Imediatamente o Galo mostrou seu poder de macho, dono do terreiro, arrastou uma das asas, bateu as esporas uma contra outra, ergueu o pescoço até mostrar as veias da jugular e cacarejou alto: "co, coriocó"!
    Para completar o ritual diário ou vespertino, comem a última refeição e antes que o sol se despeça e as luzes artificiais os incomode, saem à rua, sentam no meio fio na calçada e comemoram o final do dia, refletindo sobre o toque de recolher noturno. Frequentemente, encantam-se com a vivacidade e esperteza dos esquilos; assim relatado por Esporudo, aos filhos.

"Equilibrista

Acrobacias em estripulias,
Vai o esquilo no fio bambo.
E de poste em poste,
Felizes travessias,
De Molambo".

- Queria ser igual ele, papai!
- Não filho, impossível. Pertencemos a outra espécie. Pense nas diferenças, que não são poucas; mas podemos aprender com eles. E é o que estamos fazendo. Não só com eles, mas com todos os demais seres que formam o nosso habitat. A nossa casa. Vamos, a noite está chegando e com ela, os olhos fecham-se e os sonhos passeiam pela mente. Noto que vocês estão despertando cedo para a vida; o que é formidável.
        Ao chegar em casa, uma árvore frondosa secular de tronco rechonchudo que restou do desmatamento, Esporudo canta o co, coriocó de recolher; por sua vez, Branquinha alongam as asas. Ambos beijam os filhotes na face; e um por um, sobem para o pedestal.
                    Vez para outro, alguém precisa ser empurrado, ou posto debaixo das asas para atingir o topo do galho. Nada tão pesado e indigesto que o casal não possa fazer. Sabem que a responsabilidade pesa, mas se moderada na medida certa, nada que não possa suportá-la.

O que seria da luz, se não houvesse trevas;
O que seria da inspiração, se não houvesse a Natureza;
O que seria da Natureza; se não houvesse a poesia;
O que seria da poesia; se não houvesse a inspiração.
E do verbo fez-se os adjetivos.
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 07/09/2019
Reeditado em 09/09/2019
Código do texto: T6739275
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
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