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BOB, NÃO PRECISA CHORAR

Eu acordo muito cedo, antes mesmo do sol nascer. Dou-lhe bom dia. Depois observo Apollo em sua carruagem fixá-lo no céu.

Primeiro, ainda dentro da noite, eu canto. Tenho de cantar.

E por estar de olhos abertos desde o amanhecer consigo acompanhar inúmeras miudezas de onde vivo. Inclusive esse à qual irei narrar.

Meu nome é Célio. Galo Célio.

Você pode achar estranho um galo contando uma história, mas como disse, tenho esses olhos atentos às verdades esmigalhadas que só cabem nos livros.

A casa é pequena. Moram nela dois adultos cujos nomes – aos meus ouvidos – parecem ser pai e mãe (disso não tenho certeza). Mora também um menino de três anos chamado Pietro. É Pietro quem os chama assim: pai e mãe.

O quintal tem o tamanho um pouco maior. Vivo nele junto de algumas amigas aves.

A história se passa com uma delas. Ou com quem pensávamos... Ah! Onde estou com a cabeça?

Vejam só: já ia me esquecendo do Bob. Bob é um cachorro muito danado. Vive correndo para lá e para cá mordendo os outros por brincadeira.

Dia desses enquanto o sol começava seus trabalhos de esquentar, Bob já estava de pé parecendo até galo, latindo e correndo e procurando coisas para abocanhar.

As galinhas todas se mantinham distantes amedrontadas por causa do tamanho do Bob.

O Bob é bem grande, mas sem nenhuma noção disso porque ele ainda é filhote.

E ia o Bob abanando o rabo com a boca enorme aberta. Vinham as galinhas assustadas. Vinha o Bob, iam as galinhas. O quintal estava um alvoroço só. Voava terra, milho, pena.

De repente: boooooooooooooom!

Pai, mãe e Pietro, todos apareceram correndo.
 
— Mãe! Mãe! – cutucava Pietro – Mãe, o Bob está com a Judith na boca.

Lá foram pai, mãe e Pietro atrás do cachorro.

Novamente o tumulto com cacarejar, tentativas frustradas de voo, gritos de “pare!”. Nem eu escapei, tive o poleiro tomado.

Depois de muito correr, Bob terminou cercado, mas as pernas foram incapazes de freá-lo. – Um Deus nos acuda! – Acabou trombando em Pietro, rolando os dois pela terra. Por sorte, nada grave aconteceu. Nenhum arranhão.

Bob fugiu para a casinha.

Mãe e pai se entreolharam sorrindo.

Essa eu confesso não ter entendido de pronto. Afinal, por que ririam do susto de Judith?

Saíram atrás do Bob.

Algumas galinhas enxeridas aproximaram-se de Judith. Bicaram, bicaram, bicaram. E nada. Sem qualquer reação. Voltaram para seu galinheiro encucadas.

— Bob, não pode comer galinha. – Pietro botava o dedo em riste – Não, não, não!

— Filho, a Judith está bem. Ela é de plástico forte. – disse sua mãe – Agora, veja como Bob está.

Pietro olhou para o cão arrependido. Em seguida, começou a fazer carinho em sua cabeça, dizendo:

— Bob, não precisa chorar.

E desde então, iluminado pelo sol, Bob passeia com Judith o dia inteiro entre os dentes deixando o ambiente em completa paz. As galinhas não se assustam mais. Já depois de recolhido por Apollo, Judith me acompanha atenta enquanto solto a voz. É uma ouvinte quase tão boa quanto vocês.
Lucas Luiz da Silva
Enviado por Lucas Luiz da Silva em 09/01/2020
Reeditado em 21/01/2020
Código do texto: T6837586
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Lucas Luiz da Silva
Guararema - São Paulo - Brasil, 29 anos
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Lucas Luiz da Silva