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O Garoto da Janela

Carlinhos era o garoto mais querido da vizinhança, mas sua mãe não sabia disso. Como ele era um garoto muito pequeno e bagunceiro, a mamãe deixava ele dentro de casa o tempo todo. Na escola diziam que ele “era especial”. E ele realmente era uma criança muito especial.

Carlinhos era feliz. Tinha muitos amiguinhos dentro de casa: a peixinha Pipa, em seu pequeno aquário; o preguiçoso gato Felício; a revoltada canária Fifi, na sua gaiola de madeira e a velha Tuca, a tartaruga.

Mas apesar de ser feliz, Carlinhos sentia que faltava alguma coisa. Ele gostava da janela de seu quarto. Daquela janela ele via as outras crianças brincando na rua, meninos e meninas correndo, pulando, jogando bola. Carlinhos sabia de cor todas as brincadeiras e ria de tudo que acontecia lá fora.

As crianças falavam com ele. O chamavam de "o garoto da janela". Na verdade, gostavam de brincar com ele. Brincavam de advinhas, cantavam cantigas e quando brincavam de esconder tesouro, era Carlinhos quem dizia "quente" ou "frio". Ele era só sorrisos.

Quando olhava as crianças lá fora Carlinhos gostava de ver como elas tinham liberdade. E começou a sentir que faltava alguma coisa para ele.

Tentou conversar com Pipa, mas ela não respondeu. Os peixes não falam, como as outras crianças. Não era igual a ele. E Pipa parecia triste, nadando sempre no mesmo aquário pequeno.

Tentou conversar com Felício. Mas o gato só queria dormir. E gatos não falam e não brincam de pula corda. Não era igual a ele. E Felício parecia conformado com aquela vida.

Tentou falar com Fifi, a canária amarela. Mas ela não entendeu uma só palavra do que ele dizia é só sabia se debater na gaiola. Porque ela não era igual a ele. Canários não falam e não brincam de esconde-esconde.

Tentou falar com Tuca, mas a velha tartaruga só fez se esconder no casco. Ela também não era igual a ele. Tartarugas não falam e não brincam de correr.

Carlinhos se sentiu sozinho e triste. Não sabia o que faltava para ele. Entao um dia quando sua mãe penteava seus cabelos na frente do espelho, ele perguntou:

- Mamãe, quem é este garoto na minha frente?

A mãe respondeu:

- Esse garoto é você, meu filho. Mexa sua mão. - e a mão do garoto do espelho também mexia.

Mexa sua boca. - e a boca do garoto do espelho também mexia.

Dê um soco no ar. - e o garoto do espelho também socou.

- Mamãe, você acha que eu sou legal?

- É sim, meu filho. Você é um garoto lindo e divertido.

- Então por que os bichos não falam comigo?

- Porque eles não são iguais a você, meu filho.

- E quem é igual a mim, mamãe?

A mãe de Carlinhos não entendeu a pergunta e mudou de assunto.

- Mamãe, posso abrir a gaiola da Fifi?

- Mas por que, meu filho? Se você fizer isso, Fifi vai embora.

- Mas eu acho que ela não gosta da gaiola. Ah deixa, mamãe? Semana que vem é meu aniversário, eu quero ganhar de presente poder abrir a gaiola da Fifi.

A mãe de Carlinhos amava muito ele e por isso decidiu fazer a vontade do filho. Uma semana depois, no dia do aniversário, pegou a gaiola e trouxe até a janela.

As crianças da rua pararam tudo que estavam fazendo para olhar a cena. De repente, Carlinhos era o centro das atenções.

Ele abriu a gaiola e Fifi não perdeu tempo. Bateu asas pra bem longe e ficou cantarolando no fio de energia. Não demorou muito, 3 outros canários apareceram e Fifi foi embora com eles, feliz da vida.

- Mamãe, agora ela está feliz. Porque está com os amiguinhos. Eles são como ela.

- Sim, meu filho. Porque os canários devem viver com os canários; os gatos com os gatos; os peixes com os outros peixes, nas águas dos rios. Ninguém vive sozinho. O nome disso é fraternidade.

- Fatenidadi - disse Carlinhos errando a palavra.
- Nao, nao, querido. Vamos tentar de novo: FRA TER NI DA DE.
- FRATERNIDADE. - disse. E abriu um grande sorriso por ter acertado a palavra.

As crianças na rua bateram palmas para Carlinhos por ter dado liberdade à canarinha.
- Liberdade é uma coisa boa, mamãe. É quando não proibem a gente de fazer uma coisa que não machuca ninguém.
- Sim, meu filho, é isso mesmo. Você é muito inteligente, meu filho.

Mas Carlinhos ainda sentia que faltava algo. Continuava se sentindo sozinho. Foi então que uma coisa muito legal aconteceu. Uma garota gordinha que brincava na rua perguntou para a mãe de Carlinhos:
- Moça, a senhora deixaria o Carlinhos brincar com a gente aqui? Ele todo dia brinca com a gente, mas não sai detrás dessa janela. A gente traz um banco para a senhora sentar e olhar ele.
Carlinhos olhou para a mãe com um grande sorriso de alegria e um brilho nos olhos.

- Deixa, mamãe? - pediu.

A bondosa mulher fez carinho na cabeça do filho e fez a vontade dele mais uma vez.

- Mas quando eu chamar para almoçar, tem que me obedecer. - disse a mãe - Vamos lá fora.

Então Carlinhos saiu pela primeira vez da porta de sua casa para brincar com as crianças na rua. Eles brincaram de pega-pega, de bola e de esconde-esconde. Ele era uma criança, como todas as outras. Diferente em algumas coisas porque todos somos diferentes em algo. Especial como pessoa e como criança. Porque todos somos especiais ao nosso modo. Carlinhos não era igual à peixinha, nem ao gato, nem à canarinha e nem à tartaruga. Nenhum deles falava, brincava ou pulava corda. Carlinhos era uma criança e agora ele encontrou aqueles que falavam e gostavam das mesmas coisas que ele. Carlinhos experimentou a igualdade.

Eles brincaram a tarde toda e no fim do dia a mãe de Carlinhos viu pela primeira vez o sorriso alegre de seu filho iluminado pela luz do sol poente, abençoado pela bela luz dourada da vida. E eles experimentaram como nunca um sentimento grandioso que fazia o mundo parecer o melhor de todos os lugares. Este sentimento chama-se felicidade.
Wilde Green
Enviado por Wilde Green em 26/06/2020
Código do texto: T6988585
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Wilde Green
São Gonçalo - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
14 textos (333 leituras)
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