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O CORAÇÃO É UM ÓRGÃO DE FOGO.

O pequeno condado de Mato Pítio era pacato, organizado por meio das famílias responsáveis pelo seu povoamento. A economia era substancialmente agropastoril, com exceção de alguns profissionais liberais, dentre estes, principalmente médicos e advogados. A politica descentralizada facilitava transações comercias, circulação de pessoas e mercadorias. A religião preponderante, o calvinismo, inculcando na população o constante devir relacionado ao trabalho e produção. Uma cultura essencialmente marcada por relações familiares fortes, caracterizadas pelas transmissões de valores e princípios morais norteadores da conduta individual, a qual teria resultados na comunidade como um todo. A sociedade de Mato Sitio, marcada singularmente por tradicionalismos, conservadorismos, não adaptava-se rapidamente às novas mudanças, até procurava mantê-las bem longe.

As principais famílias eram os Stuarts e Toquecvilles. A casa dos Toquecvilles tem como principal representante Constantino, um dos advogados mais ilustre de toda a região.  Sua esposa, Iris, teve dois filhos, Olivia, de 15 anos, e Eli, com 8 anos. Quanto a casa Stuart, seu chefe, Átila, um incorruptível delegado, tinha apenas uma filha, Luíza, sua esposa, Mariana, não podia mais engravidar. Os Stuarts eram recém-chegados em Mato Sitio, Átila havia sido transferido, conseguira uma nomeação mais elevada.

Átila e Constantino haviam estudado juntos, tinham sido grandes amigos na escola, quando reencontraram-se ficaram muito felizes e surpresos.

-O que aconteceu com você, depois que nos formamos simplesmente desapareceu, sem dar noticias, fiquei preocupado. Disse Constantino.

-Depois da formatura, recebi uma proposta de emprego, fui embora para    Smiley, conheci minha esposa, tivemos nossa filha, moramos lá durante quinze anos, até o dia que recebi uma nova nomeação para cá. Estou muito contente em reencontra-lo depois de tantos anos.

-Quanto a mim, quando peguei meu diploma, não consegui arrumar trabalho, tinha um mês de casado, então meu sogro ofereceu-me uma oportunidade aqui, em Mato Sitio, ele já faleceu, mas sou muito grato a família de minha esposa, ajudaram-me bastante. Que tal você e sua família  jantarem hoje na minha casa.

-Será um imenso prazer.

-Nos encontramos então às 18:30 hrs.

Às 18:30 hrs em ponto os Stuarts chegaram na casa dos Toquecvilles. Dolores, a doméstica, foi atender a campainha. Os Toquecvilles aguardavam na sala de estar.

-Esta é minha esposa, Iris, minha filha, Olivia, meu filho, Eli.

-Prazer, todos responderam. Logo em seguida, Átila apresentou-lhes Mariana e Luíza.

As mulheres foram para a cozinha cuidar dos últimos preparativos para o jantar, os homens trancafiaram-se no escritório para tratarem de negócios, Eli brincava na sala, tinha apenas 8 anos. Olivia convidou Luíza para conhecer seu quarto, como as duas eram garotas, não haveria constrangimentos.

-Você tem quantos anos? Perguntou Olivia a Luíza.

-Tenho 15.

-Nossa, eu também.

-Conte-me um pouco sobre você Luíza.

-Não muito o que contar, minha vida é bem insossa, água de salsicha.

-Não importa.

-Tá bem. Eu já terminei os estudos, amo rosas vermelhas, perfumes, nunca viajei, nem namorei, vou à igreja nos finais de semana, meu maior sonho é casar, ter filhos, e uma linda casa.

-E você?

-Quero amar, viajar, conhecer pessoas, estudar fora, fazer amigos, me divertir, viver aventuras.

-Mas isso é tão radical, subversivo, extravagante. Não foi para isso que fomos criadas, não é esse nosso papel e função.

-Claro, você pensa como nossos pais, mas os tempos são outros. Haverá um dia que as mulheres serão mais independentes, livres, felizes, leves. Você, Luíza, ainda é muito conservadora, tradicional, não está receptiva às novas mudanças. Eu quero ser diferente das pessoas do condado, ser dona de mim mesma e capitã da minha alma.

-Isso é impossível.

-Cada um acredita no que quer acreditar Luíza. Você precisa ter sonhos mais elevados. Não ser mais uma no meio da multidão de mulheres sem cara, forma.

-Você é muito liberal.

-E você é muito superficial.

-Quer dizer que você nunca namorou Luíza?

-Não, mas você devo imaginar que sim.

-Não sei se namoro seria o termo adequado.

-E o que foi então?

-Eu estudei em um internato só de meninas. Conheci uma garota, ela era linda e inteligente, estava apaixonada por ela, até que um dia nos encontramos às escondidas e começamos um relacionamento. Mas em um dos encontros que tivemos, ela abusou de mim, desapareceu, nunca mais a vi. Depois disso, fiquei muito debilitada, melancólica, foi quando meus decidiram retirar-me de lá.

-Você está me confessando gostar de meninas?

-Exatamente isso. Prometa-me que não contará para ninguém jamais.

-Eu não sei o que falar.

-Apenas prometa.

-Prometo.

-Então quer dizer que amava essa garota?

-Não. Era apenas paixão, atração. Assim como você, ainda não conheci alguém realmente cativante. Apesar de tudo, aprendi muitas coisas no internato, tava mais para um antro de perdição.

-Você acha que sou louca?

-Não. Mas estou muito confusa com tudo isso. Afinal, aprendemos desde cedo que o normal e natural são os relacionamentos monogâmicos, heterossexuais e indissolúveis.

-Guardará nosso segredo?

-Sim.

-Podemos ser amigas?

-Sim.

-Que bom. Eu não tenho amigas. As garotas do condado são muito maléficas. Fingem ser boas moças, mas na realidade fazem coisas que até o diabo duvida.

-Olivia e Luzia, o jantar está servido, podem descer.

-Já estamos indo, Dolores.

Durante o jantar, Olivia não conseguia tirar os olhos de Luzia, estava aliviada e ao mesmo tempo apreensiva, não sabia definir o turbilhão de emoções que sentia naquele momento, até então não tivera coragem para revelar seus segredos à ninguém, mas aquela garota, justamente ela, que pensava tão diferente, transmitiu-lhe uma especie de paz, quietude, tranquilidade indefiníveis.

Quanto à Luzia, não conseguia acreditar no que ouvira. Ela não poderia concordar com tudo isso. Decidira aproximar-se de Olivia para faze-la mudar.

No dia seguinte, na segunda-feira, um jovem recém-formado foi jantar na casa dos Stuarts, chamava-se Nestor, trabalhava com o pai de Olivia, Constantino. Quando viu Luíza, apaixonou-se, na mesma noite, pediu-lhe em namoro diante de todos.

-Luíza, uma carta para você, disse Firmina, a doméstica dos Stuarts.

-Deve ser do Nestor.  Obrigada Firmina, pode ir.

Luzia trancou-se no quarto para ler a carta com total privacidade. Não queria ser incomodada por ninguém.

DESDE O PRIMEIRO DIA QUE TE VI, MINHA VIDA NÃO FOI MAIS A MESMA. VOCÊ REVIROU MEU MUNDO E O DEIXOU DE CABEÇA PARA BAIXO, FORA DO LUGAR, TOTALMENTE REVIRADO. NÃO CONSIGO PARAR DE PENSAR EM VOCÊ, ÉS A MINHA LUZ, AR QUE RESPIRO, VIDA.
FIM.
TE ENCONTRO NA RUA DO OUVIDOR, ÀS 8:00 HRS DA MANHÃ, NA TERÇA-FEIRA.
BEIJOS.

Luíza procurou o remetente, mas não havia, era um admirador secreto. No dia seguinte, Luíza foi encontrar-se com a pessoa misteriosa.
 
-Bom dia, disse Olivia.

-Olá Olivia. Bom dia.

-O que faz aqui, sozinha?

-Estou esperando uma pessoa.

-Como assim?

-Recebi esta carta misteriosa ontem à noite, não sei de quem é, diz para nos encontrarmos aqui.

-Sou eu, Luíza.

-Subitamente, Luíza entendeu o que estava acontecendo.

-Você está brincando comigo, Olivia?

-Não. Eu te amo. Quero casar com você.

-Você está doente. Sabe muito bem que escolhi apenas ser sua amiga, não concordo com esse seu comportamento. Quero que me deixe em paz. Estou namorando, logo logo iremos nos casar, constituir família, se quiser continuar sendo minha amiga, deixe essas sandices de lado.

-Namorando?

-O Nestor, que trabalha com seu pai. Jantou em nossa casa na segunda e pediu-me ao papai em namoro, dentro de um ano nos casaremos, você sabe muito bem que este é meu sonho, não me atrapalhe.

-Você pelo menos o ama?

-O amor virá com o tempo, além disso, ele é um ótimo partido.

-Este é um preço muito alto que pagará, não percebe Luíza?

-Você não é uma boa companhia, Olivia, irei me afastar de você.

-Se você afastar-se de mim, farei com que papai demita o Nestor, sei que você não quer isso, sabe muito bem que a vida do seu namorado é o trabalho, principalmente tendo o meu pai como mentor.

-Você está me ameaçando?

-Luíza, eu te amo. Farei de tudo para ficar ao seu lado nem que seja como uma amiga. Preciso de você. Tudo que peço é que não deixe de visitar-me, uma vez por semana sairemos juntas, passaremos. Não vou te fazer mal, apenas imploro sua companhia.

-Tudo bem, mas não espere mais do que isso.

Depois de um ano, Luíza havia casado com Nestor, tinha engravidado já por duas 2 vezes, mas perdera os bebês, ficara depressiva, nesse tempo, quem cuidava dela era Olivia, com todo o seu amor incondicional, platônico, subserviente, solicito. Ás vezes, Luzia desejava que Olivia fosse um homem. Nestor, que desejava muito ter filhos, tornara-se distante da mulher, uma vez que esta não conseguia dar-lhe filhos. Ficaram muito próximas durante algum tempo, Olivia se sentia triste por causa da amiga, mas ao mesmo tempo, viu suas tristezas como uma oportunidade para se conhecerem melhor. Se não fosse uma ter a outra, não teriam suportado a solidão. Porém a verdade é que as duas estavam definhando vivas, uma por causa da indiferença do marido, a outra, por causa de um amor não correspondido.

Um dia, porém, ao chegar do trabalho mais cedo, Nestor ouvia sem querer uma declaração de amor que Olivia dizia para Luíza. Nestor esperou Olivia ir em bora, entrou no quarto onde estava a moribunda.

 -Você está me traindo?

-O quê?

-Exatamente o que ouvia.

-Como ousa me acusar de tamanha leviandade. Desde que nos casamos, tenho me dedicado a cuidar desta casa, de você, estou à beira da morte por causa dos filhos que ainda não tive, mal ponho os pés para fora deste quarto, minha vida é depressiva, você mal olha nos meus olhos...

-Eu ouvi atrás da porta a declaração de Olivia.

-Eu e Olivia somos amigas, apenas.

-A partir de hoje ela está proibida de pisar nesta casa, não farei escândalo, mas quero ela longe daqui.

-Você não tem esse direito, ela cuidou de mim esse tempo todo, é minha amiga, precisa da minha companhia.

-Você vai para a casa de seus pais, eles cuidarão de você. Vamos nos separar, alegarei incompatibilidade de gênios, além disso, não pode me dar filhos.

-Por mim tudo bem, não me importo mais com o que a sociedade vai falar, mas não pode me impedir de ver Olivia.

-Não permitirei essa pouca vergonha. Se ela voltar a vê-la, revelarei o segredo dela para todos de Mato Pítio.

DE: LUÍZA
PARA: OLIVIA

SINTO MUITO OLIVIA, MAS NÃO PODEMOS MAIS NOS VER. NESTOR DESCOBRIU O QUE VOCÊ SENTE POR MIM, DECIDIU SE DIVORCIAR, ESTOU NA CASA DOS MEUS PAIS, ELE DISSE QUE SE NOS ENCONTRARMOS NOVAMENTE IRÁ REVELAR PARA TODOS O SEU SEGREDO. VOCÊ É MINHA MELHOR AMIGA, JAMAIS ESQUECEREI QUE CUIDOU DE MIM NOS PIORES MOMENTOS DA MINHA VIDA, AGORA ESTOU DIVORCIADA, SEM FILHOS, CASA, E MAL FALADA EM MATO PÍTIO, MAS VOCÊ AINDA PODE REALIZAR TODOS OS SEUS SONHOS, FAÇA ISSO POR MIM, SEJA FELIZ.

Olivia e Luíza continuaram se comunicando por meio de cartas. Depois de alguns dias, Olivia ficou doente, ninguém sabia o que tinha, estava com depressão profunda, agora Luíza estava livre do marido, mas não conseguiria suportar o preconceito das pessoas, Olivia morreu.

Luíza havia se recuperado, foi ao velório de Olivia e decidiu fazer algo desafiador, beijou-lhe suavemente na boca, todos ficaram surpresos, Luíza contou tudo que tinha acontecido até então, ninguém falou nada, ela prometera para Olivia que iria realizar seus sonhos por ela, seria independente, livre, feliz, amaria como ela amou, intensamente, sem reservas, concessões, culpas, por onde quer que fosse, levaria Olivia consigo, dentro do coração, com o amor mais puro, sincero, sério que possa existir, Olivia lhe ensinara que temos asas para voar, não podemos deixa-lhas atrofiarem, o mundo é o nosso laboratório de novas experiências, e o coração é um órgão de fogo, não conseguiremos evitar que ele arda fortemente, porque o amor é a história do mundo, e quem somos nós para definir o que é o amor, se até hoje, nos movemos sobre a face da terra como se fôssemos estranhos uns para os outros, trabalhamos mais do que vivemos, e não aprendemos amar como convém.





 

     
jaque sousa
Enviado por jaque sousa em 02/12/2017
Código do texto: T6188327
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
jaque sousa
Davinópolis - Maranhão - Brasil, 21 anos
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