Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Essentia/Wicca

- Ok, ok... Estou bem, meu corpo ainda está inteiro. Sinto muita dor no meu braço direito e no meu pé que está preso, mas nada demais, acho que... Droga... Arg. Cadê o Tom? E o Josh?
A batida foi forte e com a ajuda da pista molhada, acabamos virando, mas cadê eles? Não é possível que eles tenham sido arremessados para fora do carro. Bem, não o Josh, tenho certeza que vi ele colocando o cinto, estava do meu lado. Poxa, Tom, não custava nada fazer o mesmo, somos gêmeos, mas não temos tanto em comum. Eu estava usando uma calça preta, com cortes no joelho e apenas um bolso, ou pelo menos o que sobrou dela, junto com uma camisa vermelho escuro, quase vinho, com um tênis preto e cadarços da cor da blusa.
Lembro que o Tom estava vestindo um suéter verde com calça jeans escura e o Josh vestia uma calça meio frouxa com uma camisa com manga longa, sei porque fui deixar a roupa no seu quarto.
Quando saímos de casa, a chuva não estava tão forte. Mas já estávamos longe o suficiente do centro da cidade pra decidir voltar. No que batemos? A chuva parou, mas ainda escuto gotas pingando, devem ser as árvores. Quanto tempo eu fiquei inconsciente? Ainda não sei, não tenho tempo pra pensar nisso, preciso sair deste carro.
- Aah. Céus! Noah? Noaah? Joosh? Onde vocês estão?
- Tom! Aqui, calma. Estou indo, eu só preciso desprender meu pé do banc.. ai. Isso dói. O banco da frente prendeu meu pé – Tento gritar, mas percebo que não foi alto o suficiente para ele me ouvir. Vejo ele correndo, há cerca de 16 metros entre mim e ele. Sempre me dei bem em calcular distância. Quando ele corre em minha direção percebo que ele só ralou um pouco a testa e, talvez, tenha torcido o pé, está mancando, mas ainda sim veio correndo me ajudar.
Pelo seu corpo, acho que terei de sair daqui só. Tom não tem o porte físico do Josh, o dele é parecido com o meu. Vou ter que chutar o banco. Inclino meu corpo para trás até poder levantar minha perna direita para chutar. Chuto com a força que posso, estou com bastante dor de cabeça, cada chute faz minha cabeça latejar, preciso continuar chutando. Isso, consegui.
- Noah?
- Tom? Tom. Calma. – Digo tentando falar alto para que ele me ouça, na distância em que ele vem aproximando-se do carro, mas sinto uma pontada de dor no meu braço direito e agora no meu pé esquerdo, que impede-me de falar mais alto.
Vejo que viramos o carro na parte em que a avenida IV faz a curva que dá acesso ao retorno da cidade. A única coisa que lembro bem é estar no banco de trás, Josh ao meu lado e o Tom na frente, dirigindo. Não vi no que batemos, talvez tenha sido em algum animal. Coitado, deve ter morrido, espero que não.
- Tom, me ajuda a sair daqui, consegui soltar meu pé, mas a porta tá emperrada.
- Noah, calma, calma. Vou tirar você daí. Cadê o Josh? Eu não encontrei ele. Aliás, não sei como fui parar fora do carro, só lembro de tentar desviar de... de algo no meio da pista – diz ele tentando abrir a porta da lateral esquerda do carro, posso ver sangue escorrendo da ponta de sua sobrancelha direita, nunca tinha percebido de como seus olhos têm uma cor tão forte e escura de verde. Da mesma cor que o suéter que ele está usando, que por sinal está sujo e bem molhado. – Lembro quando senti as mãos do Josh segurando meu tórax pra eu não voar para fora do carro. Que estranho, o vidro não quebrou!
- Sim, bem estranho, mas por favor, abre logo essa porta. Não... espera. Sai da frente, eu vou chutar. – Digo dando o primeiro chute logo quando ele afastou-se, só percebo depois do segundo que foi uma má ideia, o impacto causado pelo chute fez minhas costas doerem, lembrou que meu pé esquerdo dói, meu braço direito lateja e instantâneamente fez cair terra do meu tênis sobre os meus olhos, que me fez proteger o rosto com a mão esquerda no terceiro chute, segurei o banco no qual eu havia chutado, mas só no quarto, a porta destravou e eu consegui sair.
Quando finalmente pude sentir o cheiro das árvores molhadas no lado esquerdo da pista, senti um alívio de estar bem, com o corpo dolorido, mas bem. Josh!
- Isso, cuidado. – diz ele segurando a porta para eu sair.
- Tom, cadê o Josh? – digo esforçando-me para sair, pela porta que eu acabei de arrombar. Caio com as mãos na pista molhada e Tom segurando meu tronco para eu poder levantar.
- Eu não sei, eu.. só lembro disso. Você está bem? Tá tudo ok? Vem, vamos procurar ele. – fala ele saindo sem esperar pela resposta.
- Sim, eu tô bem... Enfim, ele deve estar em algum canto. Vamos entrar aqui – digo indo em direção às árvores do outro lado da pista, ele me segue, mancando. As árvores são grandes e robustas o suficiente para dar bastante trabalho em corta-las e bem estruturadas para fazer casas nela.
- Josh! Você tá aí? Josh! – Grita o Tom, consigo ver suas cordas vocais pulsarem e seu rosto avermelhar cada vez que ele chama pelo Josh.
Quando passamos pelas árvores e adentramos a floresta, vou em direção ao lado esquerdo, enquanto ele segue em frente, gritando por Josh. Sem perceber me distancio sete metros de Tom. Corro um pouco para o lado onde a floresta é aberta, vou rápido o suficiente para esquecer como voltar, mas não o suficiente pra perder o Tom de vista.
Tropeço logo quando chego na entrada onde dá acesso a pequena área aberta que tinha visto, me apoio em uma árvore para não cair, olho para o chão e vejo que tropeçei em vários galhos cortados, eles têm formatos pontudos, vejo a árvore em que me apoiei, há cortes nela, em um momento gosto do cheiro molhado dela, mas logo sigo procurando pelo Josh, para esquecer a ideia de que podem haver lobos neste local.
- Noah, aqui. Noah. – grita Tom, quando finalmente olho para ele, vejo-o entrando em um outro lado do campo, correndo em direção ao centro, miro para onde ele foca e vejo Josh ajoelhado, ele está sentando sobre os pés com as mãos estendidas ao lado do seu joelho.
- Josh. – corro até ele, Tom chega primeiro, se ajoelhando, quase caindo, ao lado dele, vejo seu alívio.
- Josh? Josh, olhe pra mim, irmão. Nossa! – diz Tom virando o rosto do Josh para ver se ele estava bem, logo ele o solta e fica espantando, bem na hora em que alcanço os dois.
- Josh, tá tudo bem? Olha, vem.. – me assusto quando vejo seus olhos, as pupilas dilataram mais que o normal, parecem dois abismos escuros, tão escuro quanto. Foi por medo? Dor? – Josh, fala comigo, o que houve? Vem, levanta, vamos sair daqui. Tom, segura o braço dele, vamos voltar para o carro. – digo colocando o braço esquerdo do Josh sobre meus ombros, enquanto Tom ainda está ajoelhado, espantado, pela palidez e as pupilas dilatadas do Josh.
- Tom, levanta, me ajuda a levar ele. – digo para Tom quando ele finalmente desperta.
- Sim, vamos. Josh. Vai ficar tudo bem.
- Isso, para o carro, vamos decidir o que fazer.
Josh caminha, mas nada além disso, nenhum sinal, nada. Ele caminha com o rosto pálido e inexpressivo. Eu e Tom nos esforçamos para levar ele, Josh é mais velho, 4 anos comparado a nós, tem cerca de 1,85 de altura, pesa 75 quilos, ele tem uma estrutura corporal atlética, costuma jogar basquete.
Estamos entrando na floresta, deve ser 17h, está quase anoitecendo, é começo de primavera. As árvores parecem mais estranhas com a falta de luz. Enquanto caminhamos, olho para trás e me esforço para ver claramente o local onde Josh estava, minha cabeça ainda dói, não consigo ver bem, mas só agora percebo que há círculos no local, devem ser marcações para derrubar árvores, observo um pouco mais para o lado e vejo que há pequenos símbolos pelo círculo, que se estende em toda a área aberta. Devem ser mesmo marcações para desmatar árvores. Estúpidos.
- Noah, cuidado. Você vai acabar nos derrubando. – diz ele franzindo as sobrancelhas, eu volto a olhar para frente, já estamos voltando, vejo a árvore com marcas na qual me apoiei, há minutos atrás.
- Ok, Josh? Me diz, o que aconteceu? Como foi parar lá? – digo apertando o seu braço para que ele me olhe e responda. – Tom, vamos. Apressa, não gosto deste local.
- Ok, vamos. Viemos por aqui, eu lembro.
- Amém, eu não lembro. – digo agradecendo por ele ter uma boa memória.
- Estou preocupado, está tudo muito estranho, primeiro o acidente, não vi o que tinha na pista, não sei como fui parar fora do carro sem atravessar o vidro, nem o que está acontecendo com o Josh. Josh, irmão. Fala algo.
- Vinas. Vinas. Vin... – sussurra Josh, finalmente falando algo, mas nada além disso, apenas isso, três vezes.
Logo olho para seu rosto, vejo que suas pupilas estão voltando ao tamanho normal, seus rosto está ganhando cor, está ficando como costuma ficar, com o nariz, bochechas e queixo meio avermelhados.
Volto a olhar onde estou pisando, enquanto apoio seu braço sobre meus ombros, não quero correr o risco de nos derrubar e passar mais tempo nessa floresta. Ouço a respiração pesada do Tom, não sei se é pelo peso do Josh, ou por estar aliviado em ver Josh finalmente falando algo. Talvez os dois.
- Josh, o que aconteceu? Nós viramos o carro lá na pista, como você foi parar no meio daquele campo? O que é Vinas? – diz Tom olhando para frente e para o Josh, sincronizando os passos com os meus.
Josh não responde.

Continua...
Marcos Aurélio Tavares
Enviado por Marcos Aurélio Tavares em 04/05/2018
Reeditado em 04/05/2018
Código do texto: T6327244
Classificação de conteúdo: seguro

Copyright © 2018. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
Marcos Aurélio Tavares
Fortaleza - Ceará - Brasil, 18 anos
1 textos (19 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 25/05/18 04:16)