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Páscoa e pêssegos na Jaguaruna

Jaguaruna, todo mundo sabe que quer dizer onça preta, mas estou que a Onça de Pitangui, que já foi conhecida por esse primeiro nome - e que consta na certidão de nascimento de papai, em 1921 - tem esse nome mais ligado a uma onça pintada, ou quem sabe a uma onça de ouro? Ali foi centro de ativa ainda que primitiva mineração. Chico e Zé, meio-irmãos mais velhos de papai trabalharam na mina por lá, e Vicentina e Isabel, irmãs inteiras e mais velhas do velho, foram pajens de Thomas e Marcus, os nortibóias - ou naughty boys - filhos do Major inglês que administrava o empreendimento. Isso tudo na segunda década do século XX.

E não é que um meio século lá voltei, todo imponente como seminarista para, juntamente com o mais experimentado colega Xavier,  coadjuvar o Padre Guerino, pároco de Pitangui, então, na celebração da Páscoa de 1966. Duas léguas de jipe, naquela estrada sinuosa e empoeirada até que não pareciam muito sacrifício, sobretudo para dois jovens que se preparavam para uma maratona mais elevada e mais sujeita às insídias do Satanás, como o sacerdócio.

Guerino fora meu professor de religião no Ginásio, e eu lhe admirava o interesse e a profundidade com que se dedicava a nos passar seus conhecimentos que iam do sublime misterioso a coisas mais concretas como o processo da crucifixão, de que nos passava mínimos detalhes, como por exemplo, o fato de que Cristo teria subido ao calvário tão-somente com o barrote que encimava a cruz, cujo peso se estimava entre trinta e quarenta quilos. A estaca já se achava fincada lá no alto do morro para se facilitar o processo. Outra coisa que Guerino destacava era que os cravos, de ferro, não eram fixados na palma das mãos, como sugerem as gravuras e imagens alusivas ao evento, porém na altura dos pulsos, onde oito ossinhos funcionam como barreira para que com o peso do corpo as carnes não se rasguem...

Mas a nossa ida à Onça não resultou em muito papo ao longo do trajeto e durante a celebração mesmo Guerino chegou a irritar-se, numa espécie de rosnado, com a minha generosidade em lhe servir a água, porquanto sua preferência era decididamente pelo vinho.

A igreja de Santa Ana, a padroeira, lotou como de hábito nas ocasiões festivas e o sermão de Guerino, ainda que breve, foi brilhante, como lhe soía. Ele tinha mais compromissos pela jornada e tinha que dosar bem o seu tempo, sobretudo depois que eu tergiversara no serviço do vinho...

Mas não faltou o almoço, gentilmente oferecido por figura eminente da cidadezinha. Essa homenagem, que se alternava anualmente, era bastante disputada e saboreada pela prestimosa gente da terra, aquela terra de tão boas aguadas.

O anfitrião da vez, acompanhado da graciosa patroa, era o Lúcio Emílio, carteiro de profissão que, se não me engano, havia sido pracinha na Itália. Uma contundente marca ele trazia no rosto, numa pálpebra que mal se elevava, o que, inobstante, dava-lhe aquele ar solene e atento como se estivesse em permanente atitude de fazer pontaria...

Do cardápio, pouco me recordo, mas se lhes disser que foi festivo, e com galinha, estou dizendo pelo menos a metade da verdade. A conversa à mesa foi cordial e animada, tendendo sempre à reverência ao ilustre visitante.

A nota dissonante, depois do meu tropeço no serviço do vinho, ficou por conta do colega Xavier que, à sobremesa, diante de um belo e amarelo pêssego, atolado em sua calda, precipitou-se com tamanha sanha com seu garfo que a fruta, sob ameaça, ao invés de ceder, saltou fora de seu prato e, mesmo sem ir muito longe, rolou pelo  chão...atraindo a atenção de todos... - foi o momento para eu, subrepticiamente, pegar o meu com a mão e o meter à boca, só não o engolindo de todo, por ter que devolver o caroço...
Paulo Miranda
Enviado por Paulo Miranda em 11/01/2019
Código do texto: T6548710
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Sobre o autor
Paulo Miranda
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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