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Cap1 - A Música Noturna

   O som lúgubre escapando das tábuas soltas das estalagens, bordéis e tabernas ecoava pelas vielas. Tortas eram as vielas tal os passos de seus transeuntes, como a vida que sobrava entre as tragadas de fumo.

    Era dia de Fogo Forte, onde a noite abraçava a todos em ondas profundas e sombrias de medo. Quando a depravação encontrava o dinheiro dos tolos, e a fúria dos humilhados era saciada entre seios voluptuosos e lençóis fétidos, a Lunna tardava a cruzar os limites do céu.

   Uma dança entre o poder divino e imutável dos astros e da astuta e apressada ânsia de morrer dos homens.

   Esta era a rotina noturna na Viela 14, Viela do Louro.

...𝜴

   Enquanto todas as luzes se acendiam, apenas dois imóveis apagaram suas luzes quase de imediato.

    O primeiro, fazendo fronteira com o bordel Le Soit e uma velha casa abandonada a tanto tempo que era agora escombros: O Olheiro da Manhã.

   Um pequeno entreposto comercial. Suas paredes eram de um forte verde escuro, com duas janelas e uma única porta central, preta – não se sabe se de fuligem, ou se de fato era para ser assim. Um único pavimento, com telhas de barro feitas por escravos a muito.
   Seu interior guardava um pequeno escritório, cercado de armários de ferro fundido. Nas paredes, quadros e mapas revelavam um pouco dos arredores e as vilas e cidadelas com que realizam comércio.

   Em frente ao Le Soit, cruzando a rua estreita, estava a Livraria D’Core.
   Sua fachada de um prédio de dois pavimentos, pintada de azul, com dois grandes vasos guardando a porta de entrada. Esta era a única comunicação com o mundo, pois as janelas foram lacradas com tijolos.

   A grande porta de madeira clara talhada pelo tempo, quando aberta, revela um caos de livros, escuridão, e espelhos... Centenas deles. Estavam colados ao chão, ao teto, junto a estantes, escorados em livros, em prateleiras empoeiradas, um sobre o outro. Cada qual de um tamanho, formato e idade únicos. Velhos e novos. Todos juntos.

   E em meio ao caos, Eleonora travava uma batalha com seus arquivos, uma guerra que sabia terminar o dia e perder. Era sua alegria esse pequeno caos que ela entendia.

            -Salandriel de Batalha! Me atrasei de novo! – dizia enquanto corria estabanada entre os espelhos. – A encomenda de hoje foi mais demorada do que a de ontem. Mais um pouco e vou ter que me mudar pra cá...o que claramente não vai ser do agrado de ninguém lá em casa. Ai! Esses meus bebês ainda me quebram as costas!
 
   Enquanto resmungava sozinha, ia terminando de empilhar alguns livros muito rapidamente. Sua mão voou sobre a mesa, apanhou a caneta de bico, num movimento mergulhou no tinteiro, e deslizou sobre o papel timbrado. Um aceno, e pronto:

            -Pronto! – Se tudo deu certo, mesmo atrasada, ela ainda conseguiria pegar o Olheiro do Amanhã aberto, e conseguiria despachar a encomenda. Suas mãos abraçam o embrulho de livro, enquanto a carta descansava no bolso de seu vestido. “Rápido garota, você consegue!”
 
   O susto que tomou ao abrir a porta, se deparando com o Deus Saladriel quase desaparecendo no horizonte, somente não foi maior que o que teve ao ver o Amar passando a chave na porta do entreposto.

            -Amar! Por favor, espera! – Suas pernas responderam de pronto, imediatamente indo em direção ao jovem do outro lado da rua. – EU PRE-CI-SO ENTREGAR ISSO HOJE!

   Amar mal teve tempo de entender o que estava se passando. Quando vira sua cabeça em direção a voz, um sorriso de compreensão lhe passa o rosto. – Eleonora, quando que você vai aprender a ver a hora? Já está no terceiro quadrante de dia, e pra ajudar, hoje é dia de Fogo Forte. FOGO FORTE, lembra?! – Pra qualquer um que visse de fora, acharia que o rapaz estava sendo um tanto arrogante para com a moça esbaforida no sopé da escada na entrada do entreposto.

    A moça  nem mesmo titubeou, abrindo um belo sorriso para ele, enquanto enchia seus pulmões – Amar, como pode  ser tããããão rude comigo, esta donzela que te conhece a tanto. Inclusive, que tem lhe ouvido em seus lamentos e lamúrias. Será  que tratará todas as mulheres desta forma... – E se virando para o Bordel Le Soit, enquanto o rosto do rapaz empalidecia em compreensão -... mesmo aquela que juras amor na cala...

            - Entendi! Ok, vamos despachar logo isso. – Era claro que ele ia fazer o que Eleonora pedisse, agora que ela tinha descoberto suas andanças pela vizinhança,  nunca mais perdeu uma data de entrega. Só ele sabia o quanto isso o assolava. Porém, melhor ela sabendo, que outras bocas. Isso já acontecia ao menos a duas Caminhadas da Lunna.

   Chave na porta, ambos entraram, e seguiram entre gracejos e risos próprio de velhos amigos.

...𝜴

   Ao longe, o véu da noite começa a ser tecido junto a luz das estrelas no horizonte leste. Mesmo os ventos parecem perceber a mudança, e forçam passagem por entre as poucas árvores e floreiras que encontra pelo caminho. A poeira compactada por muitos pés agora está livre para alçar vôo e encontrar os olhos dos desavisados.

    A noite na Viela 14 começa mais uma vez.

   Sob a batuta rigorosa de um maestro invisível, primeiro surge o acendedor de lampiões, com seu balde de óleo de baleia, uma grande vareta, e a chama tremulante em seu pequeno suporte. De poste em poste, de pousada em pousada, de marco em marco, vai ligeiro o maltrapido garoto. E assim, a luz inunda a sarjeta.

   O som afinado das gargalhadas vem a seguir, quebrando o silêncio.

   Para colorir os olhos, aqui e ali abrem-se mil e uma cortinas, que desvelam os pudores da juventude. O grave do trote dos homens, que se confundem com as carroças e carruagens, se mesclam a composição.

   Mas o ponto  alto da noite é o estourar das garrafas, que enchem os copos de ricos e pobres. Um tônico para a dor de uns, um elixir para a virilidade de outros.
   
   Uma música diáfana que só o ouvido treinado de quem lhe tem hábito pode apreciar.

   O casal de amigos desafinava na noite.

   A entrada da viela era justamente ao fim daquela via lúgubre. Olhos acostumados com a luz podem se machucar ao confrontar a escuridão. Ou algo assim, ouvirá uma ou duas vezes antes.

   Na porta do bordel o corpo corpulento que guardava a entrada estava afiado no estilo novamente. A seda amarela adornada em pedrarias pretas, com babados em renda miúda era o par perfeito para sua pele, assim como o formato do vestido, justíssimo, era obra de sua mente mirabolante, que criará um corte lateral sobre uma de suas coxas. Usando um belo par de plataformas de madeira de pau ferro, se erguia acima da maioria dos homens e mulheres daquelas bandas.

   Seus olhos contornados viram a cena teatral de Eleonora e Amar, no estabelecimento vizinho. Quase nada fugia de seus olhos e ouvidos, e o que não sabia, bem… ela não recordava de tal acontecimento. Tiana era Tiana, do cabelo a ponta do salto.

“Ai, que gracinha ver essas crianças!” - pensava e ria baixinho enquanto terminava de preparar a entrada do Le Suit para mais um dia de trabalho. “Esse menino vem aqui já faz quase uma engrenagem inteira, a mando de seu tio. Um belo exemplo de garoto.”

   Sabidamente, não atraiu a atenção para si. E quando a dupla sumiu de seus olhos, sumiu também seu sorriso zombeteiro.

   Descendo a rua estava um garoto com seu balde. A medida que se aproxima, levanta a cabeça em direção a Tiana.

-B’a noite, Lady.- Como de costume, o rubor coloriu sua face ao vê-la. - Pos’so?

   Levantando uma sobrancelha para a fonte de sua interrupção, curva seus lábios em um sorriso mínimo.

-Pode. - o menino maltrapido já estava na metade do caminho para os fundos do estabelecimento. Mas Tiana foi mais rápida - Se você tentar olhar pela janela outra vez, vou deixar o Carlos brincar contigo. E eu vou saber se você me desobedecer.

   Com a mesma velocidade em que corria, parou e acenou em concordância. E de novo, correu para os fundos. Claro que Tiana sabia que ele ia tentar espiar, mas nunca é demais tentar botar o mínimo de juízo na cabecinha de vento dele.

   Por fim, momentos depois o garoto saiu correndo do lado oposto de onde entrará. Tinha um sorriso largo que chegava a mostrar os dentes, e uma motivação para correr que fez a Dona do Le Soit, que fingia estar entretida com suas tranças, sorrir. Escancarou a porta simples, mas bem cuidada e pintada de amarelo claro, girou em seus calcanhares e gritou para dentro:

- HOJE É DIA DE FATURAR! AMANHÃ É DE BARBATIMÃO! VAMOS TRABALHAR!

   As vozes femininas entraram em coro junto a Tiana. A lamparina vermelha foi posta na porta.




Marcos Longo do Nascimento
Enviado por Marcos Longo do Nascimento em 12/01/2021
Código do texto: T7158072
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Sobre o autor
Marcos Longo do Nascimento
Maringá - Paraná - Brasil, 26 anos
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Marcos Longo do Nascimento