Nascimento

Estava num pequeno canto, preparado, devidamente organizado e num momento qualquer, ao acaso, fim ou recomeço de um caso, num dia já em ocaso, não me escondi mais entre os aconchegos quentes que prendiam meu corpo, estava grande, não cabia mais ali. Flutuando naquele mar fiquei à deriva, quase sufocando, ele me expulsava aos poucos, lutei muito para ficar naquele aconchego e de nada adiantou. Em alguns momentos, aliás de angústia, escorreguei num túnel que parecia sem fim e finalmente, depois do que pareceu longa viagem, achei a luz. Os olhos então arregalados pouco viam e na garganta um choro intenso que reforçou a vida, enviando oxigênio aos pulmões. Vi rostos sorridentes, olhos azuis, castanhos e verdes e pensei: que seriam aqueles seres estranhos, barulhentos, bocas abertas emitindo palavras e olhando-me sem parar. Ah ...não! Quero voltar de onde vim, são monstros e chorava muito. Ouvi risos, diziam que saiu tudo bem e de repente eu também queria sorrir, mas apanhei, levei alguns tapinhas no traseiro e chorei mais ainda. Senti que passaram um líquido gelado no meu pequeno corpo e embrulharam-me em panos cor de rosa cheirosos, limpos, aconchegantes e sosseguei, senti-me protegida. Assim marquei os primeiros segundos do início de uma viagem desconhecida, do frágil corpo e da alma que se extasiou desde o primeiro momento com a beleza e por acaso ou destino elevou-se pelo que a rodeava. Seria isso poesia? Ela estava ali em tudo e a pequena alminha, tão minha, se encantou pela paisagem que notou através da enorme janela. Árvores ungidas pelas primeiras sombras do crepúsculo dançavam felizes sob a brisa do verão, davam-me boas vindas e meus olhos bailaram com elas. Eles sabiam que aquilo era bom e nasceu uma cumplicidade desde então.
A pequena cresceu ali, trazendo no D.N.A o verde, total e amplo verde, rodeada por essa cor dentro e fora de casa. Tornou-se simples caminhante desta vida, colhendo poesia desde aquele momento, sem saber.
Continua ou não, talvez, quem sabe...

17/07/16
Marilda Lavienrose
Enviado por Marilda Lavienrose em 17/07/2016
Reeditado em 17/07/2016
Código do texto: T5700820
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