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Revolução-O que o mundo precisa ler.

  Começou. Execução de um plano que nunca deveria ter existido, e eu sou a peça principal, eu sou o rei no tabuleiro, e eu não tenho mais pra onde ir. Era eu... Ou o meu povo, e o meu povo nunca foi uma opção. Eu penso na dor, mas logo penso que a minha livrará muitas, minhas mãos soam, e minha alma também. A hora está chegando. Estou preparada? Estão todos olhando para o telão, dois guardas, um em cada lado do palco, estou no meio da multidão, e por um momento, também sou incapaz de me reconhecer. Eu sou tudo, mas sempre fui nada. Não há ninguém conhecido por perto, não que eu possa tocar, porque os rostos de todo o meu povo sofrido passam no telão. É um incentivo para minhas próximas ações, e a única coisa que me reconforta é pensar que tudo isso pode acabar, e sou eu que preciso fazê-lo. Toco minha arma. Está fria, como os olhos do meu povo. Ando até o palco, com um piscar de olhos, os guardas se retiram. Eu subo. O telão falha. Um vídeo de um minuto, é só mais isso que preciso esperar. Um minuto, para tudo se resolver. O povo que olha não entende, os que não tem capacidade de olhar sabem exatamente o que está acontecendo. E sempre isso, olhos atentos, são perdição. Olhos ao chão, são tristeza, e só existe tristeza se houver entendimento. Deduso então, que os de cabeça baixa são os sofredores quietos. Algumas lágrimas são minha certeza, elas escorrem por entre rostos humanos, peles quentes que se salvarão, e quando caem no chão, não posso distinguílas da chuva. E é isso que sempre deveria ter acontecido no mundo. Deveríamos ser todos IGUAIS! Deveríamos ter vivido junto, como humanos, não como coisas. Tratamos os nossos semelhantes do mesmo modo que tratamos nossas coisas mais fúteis. Em um mundo que foi criado somente para o amor, nós erguemos o ódio, como um muro, como uma barreira. E tudo aquilo que precisávamos pra melhorar esteve em nossas frentes a vida inteira, nos fizemos de cegos, e nos destruimos, dia por dia, era por era. Nós nascemos humanos, e morremos máquinas, identificadas por marca, número, data de fabricação, qualidade, validade, fabricante, cor, modelo e utilidade, quando só precisávamos ser identificados pelo amor.
  Mais meio minuto, eu escuto gritos, não é uma rebelião, eu não vejo armas ou braços fortes, e lágrimas, o MEU povo começa a entender, eles encaram o céu por alguns segundos, há um sol, em meio a chuva, há raios em meio as nuvens, o vídeo acaba no telão, e então, minha imagem é reproduzida, ao vivo, em todo o mundo, em todas as telas, ruas, casas, estabelecimentos... Sou eu. Abaixo meu capuz. Retiro do casaco a arma... Branca, com duas rosas vermelhas, aponto ela aos meus amigos que cuidam das câmeras, eles focam em seus detalhes, um revolver simples que apenas foi pintado. Eu com meu cabelo molhado, com sapato gasto, e lágrimas inacabáveis no rosto. Eu sou o povo, eles são eu. Abaixo a cabeça e respiro fundo. Direciono o revolver para o céu, para o sol, para a esperança, puxo o gatilho, um estouro, nenhuma bala. Somente a pomba, saindo da manga do meu casaco, branca como paz, como oferta ao mundo, PAZ. Aponto o revolver para o meu peito, a imagem do telão passa a ser uma frase.
  -Sangue, vermelho, em todo o mundo em cada pulso em coração, nem isso nos torna iguais? Sangue vermelho em cada dedo de esperança, não nos torna um?
  Outra frase.
  -Se eu me for, você não perderá uma parte de você? Se cada pessoa que morre nesse instante, não é uma parte de mim mesmo que morreu, então por que estamos aqui? Peguem suas armas, apontem para a menina no palco, ela, que vocês não conhecem, esse sangue que é igual ao teu, merece morrer? Se ela merece teu julgamento então atire, ATIRE.
  Fecho os olhos, eu devo ir, eu nasci pra isso. Me doar por amor, que essa seja a última gota da dor.
Mas não escuto o barulho de nenhuma arma sendo atirada. Eu escuto o barulho delas sendo desarmadas e jogadas no chão, como um ato puro de rebeldia contra a todos aqueles que se acham no direito de julgar. As pessoas começam a exibir sorrisos, afinal cada um deles é um minuto a mais de esperança para o mundo.
Pouco a pouco eles vão entendendo, que por amor, luta-se com amor. Que por felicidade, luta-se com sorrisos. Que por um mundo melhor, não se pode deixar as pessoas piores.
  "Que não se pode lutar pela PAZ, usando armas."
  Sou tentada a fugir quando vejo o povo abrindo espaço para que eu possa passar, agora que poderia me considerar salva, estou com medo. Desço do palco, tentando permanecer de cabeça abaixada. Mas sou recebida com sorrisos, de todos lados. Olho para meus amigos nas câmeras, eles me pedem, de longe, para que eu levante a cabeça, e eu o faço, e meu sorriso brilha em meio a isso, porque eu posso, eu devo e eu sei do que EU sou capaz. Não existe conscientização. E não existira algo que faça os humanos mudarem suas opiniões a não ser eles mesmos, todos podemos receber ajuda, mas não mudaremos o jeito de pensar e agir se não quisermos mudar.

Kai Czornei. 2017.

Kai Czornei
Enviado por Kai Czornei em 13/03/2018
Código do texto: T6279043
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre a autora
Kai Czornei
Papanduva - Santa Catarina - Brasil, 16 anos
19 textos (616 leituras)
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Kai Czornei