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ESCRITURA E POSTERIDADE

(para Lígia Antunes Leivas)

Continuas sendo um dos mais importantes "termômetros" de avaliação de meu trabalho literário, mercê de tua capacitação específica e densidade humana.

Tens sido a talentosa voz – benéfica – durante todo este tempo de condenação ao sentir e ao pensar.

Aliás, sessenta invernos são tão poucos grãos de tempo durante o decurso inexorável do pensar. O espiritual é só o que tenho, nesta passagem. E é tão pouco o que pude amealhar até aqui...

Honra-me ser teu sempre discípulo, querida professora. Se eu estou a caminho de deixar algo que possa ser útil à posteridade, em muito se deve aos que me ensinaram a ver o mundo.

Desde o sol que me magoou a retina, quando nasci, até o hausto sanguinolento de minha asma ou o adocicado sangue do portador de diabetes.

Parece que a cabeça vai se abrindo timidamente, segundo os tombos e joelhos ralados de tanto levantar.

Porque cada um mede o universo pelo tamanho de sua condenação ao viver.

Olho pela janela do edifício e me vejo mais perto do mesmo sol redivivo de todos os dias, à mesma hora, segundo a estação do ano. O olho da onipotência de nosso sistema. O calor da vida.

Vejo o chão, a quatro andares abaixo de meu corpo, e penso que o bicho rasteiro que sou dormirá feliz por ter tido tantas oportunidade para ver os eclipses. Eles deixam o céu escuro, mas são, também, de uma beleza ímpar. É só ter olhos pra ver e fruir mais este instante do viver.

Neste está o meu coração, que talvez respire sob a terra num dia não tardo, borrifado de chuvas e ventos. Tua voz permanecerá como o cicio deste vento.

Estes sussurros críticos provêm de irmãos, os magnânimos párias espirituais. Aqueles que nunca terão pátria, porque o seu território de viver não tem solo nem nuvens.

O que fazer? Parece que estou destinado a deixar pegadas. O primata está vivo e deambula à minha frente com o seu andar desengonçado.

– Do livro CONFESSIONÁRIO – Diálogos entre a Prosa e a Poesia, 2006 / 2007.
http://www.recantodasletras.com.br/mensagens/371916
Joaquim Moncks
Enviado por Joaquim Moncks em 06/02/2007
Reeditado em 05/05/2008
Código do texto: T371916
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Joaquim Moncks
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 74 anos
3665 textos (915173 leituras)
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Joaquim Moncks