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A VIDA POR UM CINTO!

“A GRANDE MAIORIA DOS PAIS ORGULHA-SE DE TER DADO A VIDA A UM FILHO”
 

“Maria e eu também!” 

De você Marcelo, recebemos só alegria. Quando você nem a caminho estava, já ficamos satisfeitos antevendo o dia em que tivéssemos certeza que você estava a caminho. Quase choramos de alegria quando Maria me informou: meu ciclo menstrual está atrasado. Era você a caminho; nove meses depois você chegou, feioso nos primeiros dias de nascido, tornando-se aos poucos a própria encarnação de um anjo. 

Marcelo: só alegria!

Os primeiros banhos, Maria um tanto sem jeito, eu ajudando. Aquele sorrizinho de anjo, as visitas do pediatra.

Marcelo, só alegria.

Os primeiros brinquedos, os primeiros passos, as primeiras palavras; enroladas é verdade, mas Marcelo: só alegria!

Foi no dia do seu 2º aniversário que “aquilo” aconteceu: Logo cedo, felizes, Maria, você e eu a caminho da casa da vovó para a festinha do seu 2º aniversário. Maria dirigia: eu com você no colo sentava-me ao lado dela. Nos meus braços ‘o lugar mais seguro para um filho’ você está feliz também; tagarelava, tudo via e tudo ouvia. Marcelo: só felicidade!

De repente, aquele veículo que saía de uma estrada de terra, cortou-nos a frente, Maria para não bater saiu fora da pista e foi colidir com o barranco. Maria atirada contra o volante, eu contra o painel; e você Marcelo, no meu colo. Eu ainda tentei me firmar para não machucá-lo, mas a força do impacto foi forte demais e fui jogado contra o painel, você Marcelo estava entre eu e o painel.

Lembro-me como se estivesse acontecendo agora; seu corpo de anjo sendo esmagado pelo meu e ao mesmo tempo me salvando a vida. Lembro do quase ruído que seu corpinho emitiu ao ser esmagado pelo meu corpo contra o painel. Marcelo: só tristeza! 

Você morreu Marcelo; sua mãe e eu fomos hospitalizados em estado grave e um mês depois saímos do hospital. Marcelo: só tristeza! 

O sentimento de culpa me persegue sempre; nosso casamento acabou, a perseguição continua. Marcelo: só tristeza!

Hoje você estaria fazendo 5 anos, sinto como se você estivesse partido; depois a realidade... Marcelo: só tristeza!
 
Do fundo do negro poço em que estou a 3 anos parei para refletir e tomei a iniciativa de escrever esta cartinha; que não sei se terei coragem para mostrar a alguém. E me pergunto: porque Marcelo, só tristeza?

Assistindo um filme na SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidente do Trabalho) da firma em que trabalho sobre o uso do cinto de segurança, encontrei a resposta... Eu e Maria nunca usávamos cinto de segurança! O mesmo cinto que já veio no carro quando o tiramos novo da concessionária! O mesmo cinto que algumas pessoas dizem ser caretice usar. O mesmo cinto que poderia ter salvo a sua vida; pois a minha você salvou! De uma só coisa tenho certeza; se Maria e eu tivéssemos com cinto de segurança; você, Marcelo, que hoje é só tristeza, ainda seria o Marcelo, só alegria.

Marcelo, Marcelo, Marcelo; sua vida por um cinto! Você poderia estar na cadeirinha, do banco de trás, Marcelo. O papai poderia estar usando o cinto de segurança. Marcelo, hoje seria só alegria! Vou parar de escrever para não enlouquecer; finalizo: Pelo amor de Deus; me perdoe meu filho. Pelo amor de Deus; me perdoe, Maria.

“PELO AMOR DE DEUS, USEM TODOS O CINTO DE SEGURANÇA; COLOQUEM AS CRIANÇAS NO BANCO TRASEIRO.” 
Um pai...

Rubens Lima
Enviado por Rubens Lima em 15/10/2007
Reeditado em 22/04/2012
Código do texto: T695807

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Sobre o autor
Rubens Lima
Brasília - Distrito Federal - Brasil
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Rubens Lima

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