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CATIVAR

     A primeira lembrança que pode vir a quem lê a palavra CATIVAR é a da cena em que o Pequeno Príncipe se encontra com a raposa, no clássico livro de Antoine de Saint-Exupéry. No original, o escritor francês usa o termo “apprivoiser”, que significa literalmente “privar”, “tornar algo privado, particular”, ao contrário de tornar algo público, comum: “Serás para mim único no mundo”. Nesse sentido, temos que dar os parabéns não só para o autor mas para a tradução do francês para o português, porque CATIVAR também tem este significado, e muito mais. CATIVAR vem do latim Captivus, que significa “apreendido”. Voltarei à raiz de Captivus mais adiante. Assim temos a palavra Cativeiro, o lugar onde fica o apreendido, e o verbo Capturar, que significa apreender. Escolhi a expressão APREENDER de propósito, porque não só a utilizamos com o sentido de fazer algo ou alguém prisioneiro ou detido, mas também no sentido de assimilar um conhecimento, Captar. APREENDER e APRENDER têm a mesma origem, pegar para si, neste caso, o conhecimento. E então CATIVAR é APREENDER o outro, é APRENDER com o outro, é CONHECER o outro. CATIVAR, assim como o termo francês “apprivoiser” também tem o sinônimo de DOMESTICAR. Mais uma vez, é preciso compreender que a origem da palavra DOMESTICAR significa “trazer para casa”. CATIVAR é saber trazer o outro para sua casa, para o seu convívio. O que nos leva a mais uma expressão utilizada por Saint-Exupéry para explicar o que significa CATIVAR. A raposa responde ao Pequeno Príncipe que CATIVAR é “criar laços”. No original: “créer des liens”. “Liens” quer dizer elo, o elo que une a corrente. CATIVAR, portanto, é criar um ELO com a pessoa, é se prender a ela, como os elos de uma corrente, é estar preso a ela, laçado a ela, apreendido, LIGADO, CONECTADO. Mas não basta laçar o outro. É estar ao mesmo tempo laçado pelo outro, é estar ENTRELAÇADO. Para este ato de um laçar o outro é que temos a palavra RELACIONAR. E quando se está relacionado, preso ao outro, não se está solto. CATIVAR é também não soltar o laço, não perder a conexão. Por isso que a raposa diz: “Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro”. A palavra NECESSIDADE significa “Não ceder”. Então CATIVAR é um processo até mesmo complexo. Primeiro, é um ato de trazer a pessoa para si ao mesmo tempo em que se é levado por ela também. Este primeiro passo é se entrelaçar. Agora temos uma segunda etapa, é preciso manter a ligação, não deixar este laço se romper. Para o primeiro passo, o autor revela que é preciso ter paciência. Para o segundo passo é preciso ter responsabilidade: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. Mas paciência e responsabilidade são habilidades a serem desenvolvidas.
     A palavra Paciência tem a mesma raiz da palavra Paixão, e significa “saber suportar a carga, saber sofrer”. Isto nos remete à Paixão de Cristo, quando o Cristo carrega sua cruz, carrega o sofrimento do mundo. Clésio Tapety não se esqueceu deste detalhe quando compôs a famosa música religiosa Cativar. Cativar é: “também carregar um pouquinho da dor que alguém tem que levar”, diz a música. CATIVAR envolve PACIÊNCIA: “Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante”. CATIVAR é IMPORTAR-SE. Importar significa “carregar para dentro”. Importar-se com alguém é escolher carregar a pessoa dentro de si. CATIVAR envolve saber PERDER. É preciso entender que Perder, assim como Perdoar vem do latim Perdare, que significa “dar-se completamente, dar sem reter para si”. Assim, temos a dialética de cativar, o perder/importar-se: ao mesmo tempo em que me entrego para o outro eu me preencho com o outro. Ao mesmo tempo em que o outro se entrega para mim ele é preenchido por mim.
     Já a palavra Responsável tem o mesmo sentido de Responder, e significa “comprometer-se de volta”. CATIVAR envolve COMPROMISSO. Não pode ser uma relação egoísta. É saber comprometer-se com o outro e saber receber o compromisso de volta. CATIVAR é RECEBER, é ACOLHER. Receber e Acolher têm o sentido de “saber pegar para si”. Então CATIVAR se torna uma questão de aprender a desenvolver uma capacidade específica. É uma questão de aprender uma prática específica. Para tanto Saint-Exupéry se utilizou da palavra Rito: “É o que faz com que um dia seja diferente dos outros dias”, “A hora de preparar meu coração”, diz a raposa.
     Aí voltamos para a raiz etimológica de CATIVAR. O termo Captivus vem do sânscrito Kapati, que significa pegar, apreender, ser capaz de algo. Sim, ser CAPAZ também vem de Kapati. Por isso a palavra APREENDER tem tanto o sentido de prender algo para si quanto pode ser a capacidade de se conhecer algo. Nesse sentido, mais uma vez Saint-Exupéry nos impressiona com mais um exemplo do que é cativar. Cativar é PERCEBER o outro: “Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros”. A palavra Perceber vem do latim Percipere, que significa apreender completamente, apreender com todos os sentidos humanos. A raposa escuta um barulho que é diferente de todos os outros. Ela PERCEBE a diferença. Ela está sensível ao outro. Este é o segredo final da raposa: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos”. Perceber é ver com o coração. CATIVAR é VER COM O CORAÇÃO. É um ato de preparar o coração para este compromisso. E isto requer também uma boa dose de CORAGEM. Coragem quer dizer "agir com a força do coração".
     Em resumo, CATIVAR É A CAPACIDADE DE APRENDER A PERCEBER O OUTRO COM A FORÇA DO CORAÇÃO, TRAZENDO-O PARA SI, ENTRELAÇANDO-SE, COM PACIÊNCIA E RESPONSABILIDADE.
     Obrigado pela lição, Saint-Exupéry.
Vitor Pereira Jr
Enviado por Vitor Pereira Jr em 09/01/2013
Reeditado em 18/07/2017
Código do texto: T4075302
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Vitor Pereira Jr
Maringá - Paraná - Brasil, 39 anos
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