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Mãe

“Abracei suas pernas. Como se tivesse três anos. Só alcancei as pernas. De repente senti necessidade de um abraço. Mas só alcancei suas pernas. Foi um abraço longo, abraço sem braços. Só os meus. Abracei suas pernas e ali chorei. Como há muito não fazia.
Sou assim. Não choro. Não falo de amor. Fujo da pieguice. Fujo das palavras românticas. Minhas demonstrações de afeto são discretas. Não sei falar de coração. Não sei falar de sentimento. Só queria um abraço. Só um.

Abracei suas pernas.

Fiquei ali, ouvindo sua respiração distante, o fraco pulsar, e como se tivesse três anos, abracei suas pernas. Somente elas estavam ao meu alcance.

Piegas é falar! Nunca soube falar destas coisas. Às vezes, sei escrever, mas nunca falar. Sei contar histórias, mas não falar. Mas precisava de um abraço. Era imperativo. Dei voltas, me estiquei, mas só alcancei suas pernas. Talvez seja o último, pois às vezes, deixo passar vontades. Talvez ainda haja outros abraços de pernas, mas este, este teve um quê de definitivo.

Depois, sai andando, mais rápido que minhas pernas podiam suportar, mas mesmo assim andei. Andei até cansar para não pensar.
Abracei suas pernas. A grade, o respirador não deixaram chegar mais perto, então abracei suas pernas.”
Fátima Batista
Enviado por Fátima Batista em 10/09/2013
Código do texto: T4476246
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Fátima Batista
Santo André - São Paulo - Brasil, 56 anos
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Fátima Batista