Fugas - Gn2

Se em Gênesis inicia o primeiro pecado humano, inicia também a sua consequência mais comum: a fuga. Ela percorre todos os atos do homem em toda a Escritura por ser retrato fiel de toda a humanidade. Mas neste livro em especial temos os primeiros relatos desta fraqueza moral, como consequência de nossos erros e pecados.

Não seria bom condenar os personagens que vamos tratar agora, "porque todos tropeçamos em muitas coisas" (Tg 3.12).

O primeiro caso, um clássico que se repetirá desde então, é Adão passando a culpa para Eva e esta para a serpente. A serpente só não jogou a culpa sobre ninguém pois já tinha perdido toda a vergonha, era inimigo declarado.

Mas além de fugirem da presença de Deus, costuram folhas de figueira na tentativa de cobrir sua nudez. A figueira, em toda a Escritura, se relaciona ao ministério de governo, e nos lembramos bem que após os fariseus rejeitarem seu Messias, ele amaldiçoa profeticamente a figueira (Mt 21.19), anunciando o fim do governo de Israel, cumprido cerca de 40 anos depois com a tomada de Jerusalém por Tito, general romano. No caso de Adão e Eva, simboliza que eles agora tomarão a rédea do seu governo, sem Deus se preciso for, contaminados mesmo. Deus os perdoará com o primeiro sacrifício de um animal inocente, mas seguirão fora de seu jardim governando suas próprias vidas. Desde então, temos duas bases: ou aceitamos o sacrifício divino e seguimos com Deus, ou costuramos nossas figueiras e seguimos 'achando' que Ele nos aprova, ou como alguns dizem – Ele lá e eu cá!

Quantas vezes fugimos, ou fingimos, diante de Deus com nossos pecados e tentamos, como Adão, cobrir nossa vergonha com coisas fúteis e sem valor, escondendo-nos em nossos 'princípios cristãos', em nossa religiosidade autossuficiente, em desculpas lançadas sobre 'a antiga serpente', e não 'julgando a nós mesmos' como recomenda 1 Co 11.31.

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Quanto a Abraão, fugiu para o Egito, esquivando de grave seca (a partir de Gn 12.10), mas esquecendo que é melhor estar com o Senhor no meio de uma terra seca, a estar em terra agradável longe de Sua vista.

E quantos não caem nesta tentação transitória e depois se veem, como Abraão, bem abastecidos talvez, mas carregando o ônus de perder o contato com sua esposa querida, deixando-as à mercê de um ímpio qualquer. Ou filhos que se perdem pelo excesso de zelo ao patrimônio, e pouco zelo pelos de sua própria casa. Se o sacrifício para a posse de bens superar o sacrifício para a formação do caráter da criança, talvez ela tenha tudo o que a carne exige, mas pouco que sua alma e coração necessitem.

Lembre-se de que continua sendo verdade que "o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males; e nessa cobiça alguns se desviaram da fé, e se traspassaram a si mesmos com muitas dores" (1 Tm 6.10).

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Outra fuga muito conhecida é a de Jacó, diante de seu irmão, justamente irado, ao driblar a bênção distribuída por seu pai, Isaque (Gn 27). Fazendo-se passar por Esaú, vestindo roupas que não eram dele, com cheiro de seu irmão, com um guizado que ele não prepararia, faz um papel vergonhoso, mentindo e enganando sob orientação de sua mãe. Este conluio custará a ela perdê-lo de vista por muitos anos, e a ele trabalho longo, penoso e 'injustiçado' sob a mão de outro parente que o igualava em 'esperteza' (Gn 29).

'Toda casa dividida contra si mesma não pode subsistir' – é uma verdade que nunca mudará.

Uma família – constituída sob os princípios divinos da união de um homem e de uma mulher, como já orientava o próprio Deus em Gn 2.24 ("deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne") e reprisava o filho de Deus a mesmíssima fórmula em Mt 19.5 – é uma entidade sagrada que Deus ainda respeita e venera, ainda que hoje seja palco de pecados vergonhosos que rebaixam não somente a mesma família, mas a humanidade como um todo, e que serão motivo para o justo e breve juízo de Deus.

"Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula" (Hb 13.4).

Nem vamos comentar a compra vergonhosa, de um lado, e a venda de mesmo caráter da parte do outro, de sua primogenitura, no caso das lentilhas (Gn 25.28-34). Esqueceram que eram irmãos e deveriam viver em união sagrada, não em mesquinharia baixa.

"Oh! quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união" (Sl 133.1).

Hoje tudo se compra e tudo se vende, tudo tem seu preço, mas, bendito seja Deus!, continua gratuita a oferta da salvação de Deus em Cristo na cruz:

"Ó vós, todos os que tendes sede, vinde às águas, e os que não tendes dinheiro, vinde, comprai, e comei; sim, vinde, comprai, sem dinheiro e sem preço, vinho e leite" (Is 55.1).

A oferta é gratuita, amorosa, única e "pode também salvar perfeitamente os que por ele [Jesus] se chegam a Deus' (Hb 7.25).

No próximo capítulo abordaremos os 'encontros' que marcarão vidas para sempre. Se os pecados trazem marca dolorosa pelo afastamento, os encontros trazem alívio na alma pelo perdão dispensado.