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O BÊBADO.


 Desceu a ladeira, cambaleando, tropeçando aqui e ali. Bebeu todas; no bar do Neco, do Zé Língua, do Roberval, depois tomou mais outras na padaria do Osvaldo. Bebeu até quase não aguentar parar de pé, ficou horas na esquina da Aníbal com a principal, encostado no poste em frente a oficina do Zeca. E lá permaneceu por horas, roncando, babando, cachorro lambendo a boca,  parecendo um defunto coisa horrível de se ver.
 Ninguém liga mais, é sempre assim, todo fim de semana a mesma coisa. Sai do trabalho e dá essa trabalheira toda, demora a chegar em casa, e quando chega, é aquela briga. A mulher já estava a ponto de se separar, só não fez ainda porque o pastor a aconselhou, mas ela jurou que se na próxima semana o marido viesse com gracinha, com a cara cheia de cachaça, ia esculachar com ele.  E não foi diferente dessa vez.
 A mulher prometeu e cumpriu, foi embora, claro que, ante de sair, falou poucas e boas para o marido, que de tão bêbado que estava não falou nada. Agora tá assim, pior, faz três dias que não volta para casa, só quer saber de beber, cai machuca, dorme, acorda, bebe. É de dar pena, mas, fazer o quê, foi ele que escolheu essa vida de sofrimento.
 Três vezes antes levaram ele para clínica de recuperação, quem disse que ficou, deu é trabalho lá, acabaram expulsando ele. É uma pena, profissional como ele tem poucos, pedreiro de mão cheia, conhece muito do que faz, o problema é a maldita da cachaça. Já levaram ele em tudo enquanto é lugar e nada, terreiro da baiana, benzedeira, para o padre  Ângelo, no pastor, enfim, a coisa ficava normal por pouco tempo - coisa de dois meses e não mais - passava isso, voltava tudo novamente. É uma pena…
 A ambulância encosta, alguém chamou, estão examinando… Agora estão fazendo massagem cardíaca, eu acho que dessa vez não vai dar… E depois de tanto tentarem, um dos socorristas olha para o outro, meneia a cabeça negativamente. Foi como eu disse, dessa vez não deu para o Anacleto, a cachaça matou ele. Pedreiro bom estava ali, mas que perdeu tudo para bebida, por fim, a própria vida…
 - Ô Antônio, tudo bem rapaz… Caramba, dessa vez o Anacleto exagerou né.
 - Sim.
 - Piorou de duas semanas para cá, depois que a mulher foi embora, todo mundo sabia que ia dar nisso.
 - Tava na cara.
 - E a sua construção? Era ele que tava fazendo, não é.
 - Sim.
 - E agora?
 - O jeito é contratar outro.
 - Vamos lá, avisar o pessoal, vou me informar direitinho onde vai ser o velório, pra gente prestar uma última homenagem. Caramba… Homem bom tava ali, é uma pena…
 - Vai lá, vou ficar aqui mais um pouco, vou terminar essa cerveja, depois vou.
 

Tiago Macedo Pena
Enviado por Tiago Macedo Pena em 26/10/2019
Reeditado em 26/10/2019
Código do texto: T6779505
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Tiago Macedo Pena
Sorocaba - São Paulo - Brasil, 37 anos
532 textos (12289 leituras)
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Tiago Macedo Pena