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Retrospectiva de Vida de 1 Recém Nascido

              Respirava por aparelhos e tomava sopa de canudinho. Não propondo nada de útil para a minha vida, dormia um sono profundo, quando abri os olhos e estava claro. Limpo, era o dia da liberdade; e trevas, somente dali muitos anos. Sai de uma placenta humana e para a placenta da Terra, irei.
             Nesse fatídico segundo, no momento exato da partida, a conclusão da minha passagem pela Terra, será: a minha mesquinhez e avareza não valeu nada de nada. Restando-me apenas uma maleta de madeira um pouco maior que meu tamanho na época, com 4 alças de aluminio ou aço inox em cada lateral maior; e se munido com uma pá bem afiada, a amizade de um humano coveiro bem preparado fisicamente.
                Pelo menos nessa hora, serei humilde e reconhecerei que não fui nada daquilo que pensei em muitos anos de vida. Tarde demais! Mas antes, sigo provando para Deus, para o diabo e  99 por cento da humanidade que sou um usurpador, parasita do leite materno.

Série Pequeno fragmento da realidade humana em Metáfora


O Imigrante

             1920. Gílio chegara da Itália, mais exatamente viera da Galícia. Sozinho no Brasil, se virava como Deus lhe orientava. Moradia, trabalho, idioma, relação social e dinheiro não lhe chegavam à mão sem a enxada, muito suor no rosto e lágrimas no coração. Aos poucos, com muito custo as coisas foram alinhando-se, de modo que nos anos 50, do século passado já estava bem, principalmente financeiramente; porém ainda mantinha o hábito dos tempos de vacas magras, de em vez usar cinto, arrodilhar a boca da calça, ajustando-a à cintura.
          Gilio faleceu na virada do século, deixando uma fortuna incalculável para os parentes italianos. Acompanhado por poucas pessoas, foi enterrado com as vestes de trabalho e curiosamente, com o mesmo figurino arrodilhado da boca da calça. Esse foi seu pedido em testamento, pois segundo o italiano, "se não usei cinto prendendo a calça em vida, por que usar depois de morto. Morreu, o mundo da moda acabou. A vaidade tem os dias contados".
                Sua última atividade foi difundir o ambientalismo e prática do veganismo; estilo de vida que defendia com unhas e dentes. Esses eram outros motivos para ele justificar o pouco consumo: "devemos comer pouco e alimentos balanceados, coloridos; pois quem come além do necessário gera dispêndio e sujeira para a Natureza limpar". Finalizava as palestras dizendo que "obesidade não combina com a moda e faz o Meio Ambiente sofrer".
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 17/10/2018
Reeditado em 30/10/2018
Código do texto: T6478399
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
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