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Bituca de Cigarro

               Pintada de batom vermelho na ponta, desenterro a cara amassada, feito papel de pão, do cinzeiro e comunico à Brisa Noturna, tudo aquilo que ninguém quer ouvir.
          Amigavelmente, ela adentra o ambiente, toma assento sobre qualquer coisa; e ouve, atentamente, as minhas lamúrias. Admiro tamanha paciência dispensada à mim; como também admiro seu poder reativo! Sua inquietude de agora estar aqui, e daqui à pouco, estar ali. Muito obrigada, amiga, de tantas noites em claro! Diuturnamente, você sempre acesa; e eu, apagada.
        Não nego que às vezes queria ter o nome trocado e ao invés de Tosca Bituca de Cigarro, queimando o bigode amarelado pelo urucum do Preto Veio, para Brisa Leve Noturna Minuana. Fatalmente, meu apelido seria liberdade e não pulmões incinerados, como sou alcunhada pelos amigos. Porém, também admito que a corrosão do tempo e a dependência química, fizeram-me vício compulsivo de difícil  mudança de comportamento. Resumindo: moralmente, psicologicamente, sou fracassada. Tento enganar-me, mas esta é a verdade; e não há outra!
        Como não fui ouvido e sim, lido, peço mil desculpa ao leitor pelo contratempo; afinal com tanta entretenimento tecnológico, ler sentimentos é coisa fora de moda. Anacronicamente antiquado. Peixe no aquário, devaneios de um toco de cigarro otário.
                 Vou apagar e esconder-me o quanto possível. Não quero que um esquizofrênico catador de bituca consuma o que sobrou de mim.


Teste Ergométrico (na esteira)
  Consultado sobre as dores no lado esquerdo do peito, recomendaram-lhe fazer um exame em esteira rolante.
                  No dia marcado, parecido atleta em atividade, apresentou-se ao técnico do laboratório. Cheio de chips no peito e na costa, subiu na esteira e estando apto ao procedimento, ouviu: "vamos iniciar. Ao ver a esteira girar, por favor, caminhe. Aos poucos vou aumentando a velocidade. Um, dois, três...; já!"
- Bummm!
   Pela terceira vez, o refrão da letra da música de Gonzaguinha, na voz de  Maria Bethania, dizia: "não dá mais para segurar, explode coração".
                  O óbito atestava que os batimentos do coração funcionavam bem, estavam perfeitos, inclusive, se a família quisesse, poderia doá-lo, porém com a ressalva que para evitar transtornos em outro peito, não deveria ser exposto à letras de músicas tristes e lamentosas, o que fazia os batimentos entrarem em colapso, devido as  altas velocidades de aceleração.
- no mais, está ótimo. Que sejas feliz, batendo forte em outro peito, preferencialmente, de aço!
Mutável Gambiarreiro
Enviado por Mutável Gambiarreiro em 29/11/2019
Reeditado em 05/12/2019
Código do texto: T6806395
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Mutável Gambiarreiro
Jegue é - Tovuz - Azerbaijão
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Mutável Gambiarreiro